Entre o tudo e o nada: A polarização no discurso da nutrição 173

Por Maria João Gregório, diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde. 

 

A polarização da sociedade é hoje um fenómeno amplamente reconhecido, particularmente visível no debate político e social. As posições são cada vez mais extremadas, ou seja, ou é preto ou é branco. Há pouca abertura ao diálogo, dificuldade em reconhecer perspetivas alternativas e uma crescente desvalorização das posições intermédias. Este clima tende a gerar conflitualidade, simplificação e desconfiança.

Embora múltiplos fatores contribuam para este fenómeno, o papel das redes sociais é incontornável. Os modelos de comunicação digital privilegiam conteúdos mais polarizadores, onde o discurso do “tudo ou nada” gera maior visibilidade, mais interações e, consequentemente, maior disseminação. Neste contexto, a moderação e a complexidade tornam-se menos apelativas, sendo frequentemente substituídas por narrativas simplificadas e dicotómicas.

A área da nutrição não escapa a esta tendência. Pelo contrário, tem-se tornado um terreno fértil para disputas polarizadas. Existem ou não alimentos saudáveis? O consumo de alimentos ultraprocessados deve ser reduzido ou o processamento dos alimentos é essencial para garantir a segurança dos alimentos? O consumo de carne deve ser reduzido ou defendido? A alimentação deve ser entendida como uma responsabilidade exclusivamente individual ou coletiva?

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No entanto, esta dicotomização do debate não reflete a realidade científica. Defender a necessidade de reduzir o consumo de carne é hoje uma recomendação sustentada tanto por razões de saúde como por razões ambientais, mas esta posição não equivale a defender uma dieta vegetariana. Num contexto como o português, em que o consumo se mantém acima do recomendado e a ingestão elevada de carne vermelha constitui um dos principais fatores de risco alimentares para a carga de doença, é relevante recomendar a redução do seu consumo, sem que isso seja interpretado como um apelo ao não consumo de carne.

Da forma semelhante, alertar para a necessidade de reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados não implica negar o papel do processamento ou da indústria alimentar. Os alimentos ultraprocessados correspondem a uma categoria específica, com características próprias, que importa distinguir de outras formas de processamento alimentar, muitas delas essenciais e inevitáveis no sistema alimentar contemporâneo.

Existe ainda outra dimensão frequentemente ignorada neste debate. A diferença entre recomendações dirigidas ao indivíduo e à população geral. A nível individual, é possível, e muitas vezes desejável, adaptar recomendações às preferências e necessidades de cada pessoa. Por exemplo, um nutricionista pode integrar um pequeno consumo diário de chocolate num plano alimentar, se isso contribuir para a adesão a um padrão alimentar globalmente saudável. No entanto, a mesma recomendação não é necessariamente adequada no contexto da saúde pública e, portanto, num formato de comunicação dirigido à população geral. Mensagens generalistas devem considerar o impacto populacional e evitar incentivar comportamentos que não são universais nem prioritários para todos. A ausência desta distinção contribui frequentemente para interpretações erradas e críticas desajustadas.

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Importa, por isso, reconhecer que a nutrição é uma ciência relativamente recente e intrinsecamente complexa, o que implica acompanhar a evolução contínua da evidência. Ainda assim, essa dinâmica não invalida a existência de um consenso científico alargado em torno de princípios fundamentais para uma alimentação saudável, como a valorização de alimentos de origem vegetal, a redução da ingestão de açúcares livres e de sal e de alimentos ultraprocessados.

É precisamente este consenso que tende a ser distorcido no espaço público. As posições intermédias, que refletem a evidência científica, são frequentemente substituídas por interpretações simplificadas e títulos simplistas. Quem defende a redução do consumo de carne é rapidamente associado a posições extremas; quem alerta para os riscos dos alimentos ultraprocessados é visto como opositor da indústria; e quem propõe intervenções no ambiente alimentar é acusado, por um lado, de desvalorizar a responsabilidade individual e a necessidade de capacitar as pessoas para adotarem comportamentos mais adequados e, por outro, de limitar a liberdade individual.

A maioria das posições científicas não se enquadra em lógicas de “tudo ou nada”. Pelo contrário, assentam em princípios de equilíbrio, enquanto um dos pilares fundamentais da própria definição de alimentação saudável. Muitas das disputas que observamos não resultam de divergências reais na evidência, mas sim da forma como essa evidência é comunicada, interpretada ou instrumentalizada.

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Estas dinâmicas têm consequências que vão além do empobrecimento do debate. Ao amplificar posições extremas e ao fragmentar a discussão, a polarização pode funcionar como um mecanismo de descredibilização da ciência, dos profissionais de saúde e das instituições. Num contexto em que a elevada carga de doença associada às doenças crónicas exige mudanças sustentadas de comportamentos alimentares, este fenómeno torna-se particularmente preocupante.

 

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