Muito mais do que calorias: “Nem toda a gente precisa de perder peso para melhorar a saúde” 780

Será que todas as pessoas que procuram emagrecer precisam realmente de o fazer? Esta é uma das questões que serviram de mote para António Pedro Mendes refletir sobre a necessidade, culturalmente construída, de decidir o que comer e como comer.

No livro Muito mais do que calorias, o especialista aborda o emagrecimento com o rigor da ciência, sem perder a humanidade desejada. Em entrevista à VIVER SAUDÁVEL, deixa claro que a saúde e a felicidade vêm antes da estética e que a empatia é um “aspeto crucial no que toca à prática clínica de um nutricionista”.

VIVER SAUDÁVEL (VS) – O corpo ideal nunca foi um dado adquirido: da formosura histórica da estatueta de Vênus de Willendorf aos perigosos espartilhos de outros tempos, passando pelas dietas restritivas da moda, pela aposta na diversidade oversize, ou ainda pelos medicamentos milagrosos. Como nutricionista, como avalia aquilo que, coletivamente, vemos ao espelho?

António Pedro Mendes (APM) – A ideia de corpo ideal nunca foi fixa, tendo sido alterada ao longo do tempo e estou certo que continuará a alterar-se nos próximas décadas. O que me parece diferente hoje é a intensidade na procura por esse ideal, uma vez que estamos exponencialmente mais expostos à pressão para tal.

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E se é verdade que temos cada vez mais discursos sobre aceitação e sobre a multiplicidade de formatos corporais, também é necessário assumir que esses fóruns convivem com outros (em maior número) que exercem uma pressão constante para encaixar em certos padrões.

O problema torna-se relevante quando deixamos de olhar para o corpo como algo funcional e passamos a vê-lo como um projeto estético permanente. Um corpo saudável não é necessariamente um corpo “perfeito” do ponto de vista estético, até pela impossibilidade de definir perfeição neste campo.

VS – Será seguro dizer que nunca tanto como hoje procuramos contar as calorias das refeições que fazemos. Por outro lado, uma grande parte da população almoça sozinha em casa e usa o telemóvel às refeições. Devemos voltar a olhar para a mesa – e para a comida – com outros olhos? 

APM – Acho que sim. Sabemos cada vez mais sobre nutrição, mas isso não significa que tenhamos uma relação melhor com a comida, nem sequer que consigamos ter melhores hábitos. E isso é algo que a ciência mostra, não é apenas uma perceção.

Comemos mais distraídos, mais rápido e muitas vezes sem dar atenção ao que estamos a fazer. O telemóvel à mesa é um bom exemplo disso. Quando estamos desligados da refeição, também ficamos menos conscientes da quantidade e da saciedade.

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Comer devia voltar a ser um momento com presença. Não precisa de ser perfeito, nem formal, mas precisa de alguma atenção, de algum carinho na forma como tratamos este ato tão nobre.

VS – Conhecemos o impacto dos determinantes sociais da saúde, mas falta-nos literacia para sabermos tomar melhores decisões. Urge relacionar o rigor científico com abordagens humanamente empáticas?

APM – Sem dúvida. Saber o que é “correto” do ponto de vista nutricional é importante, mas não chega, muito alinhado com o que acabei de dizer na questão anterior. E isto porque as pessoas não vivem em laboratório, não são máquinas com necessidades constantes. Têm horários, limitações, contexto familiar e profissional, stress e, muito importante também, têm preferências. Tudo isso influencia as escolhas, e passa por muito mais do que uma simples força de vontade para a mudança.

Se ignorarmos essa realidade, o conselho pode estar certo na teoria, mas falha na prática. E a verdade é que ser empático com quem tenta alterar os seus hábitos alimentares não é um extra, mas sim um aspeto crucial no que toca à prática clínica de um nutricionista.

VS – Se o nosso peso deve refletir saúde, é possível que emagrecer seja, em determinados casos, um erro culturalmente induzido? 

APM – Totalmente. É, aliás, um dos capítulos do meu livro, onde tento responder à questão “precisaremos mesmo de emagrecer?”. Porque o que é certo é que nem toda a gente precisa de perder peso para melhorar a saúde. Em alguns casos, esse foco pode até piorar a relação com a comida e com o próprio corpo. E sendo saúde um conceito que abrange a componente mental, não podemos de todo descurar esta relação.

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Quando a motivação vem mais de fora do que de uma necessidade real, estamos a seguir uma pressão cultural e não um objetivo de saúde. E isso pode levar a decisões pouco sustentáveis.

VS – Entre falsos nutricionistas e as dicas da Inteligência Artificial, a que se propõe este livro? 

APM – Num contexto em que o emagrecimento está rodeado de informação contraditória e promessas simplistas, este livro propõe uma abordagem diferente: rigor científico aliado a uma linguagem acessível. Cada ideia é sustentada por evidência clara, com referências que permitem ao leitor compreender e validar as conclusões apresentadas. Mais do que repetir recomendações comuns, tentei que livro mostrasse a ciência de forma transparente, ajudando a perceber os verdadeiros mecanismos por trás do peso corporal e da saúde metabólica.

Ao mesmo tempo, vai além da perda de peso, colocando o foco na saúde, na melhoria de marcadores metabólicos e na construção de hábitos sustentáveis a longo prazo. Questiona também as narrativas dominantes da indústria do emagrecimento, desafiando a necessidade de emagrecer em todos os casos e explorando o que realmente determina o sucesso duradouro. Tudo isto sem esquecer a vertente psicossocial da alimentação, que vai muito além da biologia. Tentei que o resultado fosse uma visão mais crítica, equilibrada e humana, onde a saúde vem antes da estética e a alimentação continua a ser parte integrante de uma vida bem vivida.