O III Congresso do Serviço de Nutrição da Unidade Local de Saúde (ULS) São João, que decorreu nos dias 23 e 24 de março, incluiu uma reflexão sobre a integração de cuidados fora do hospital, através de projetos comunitários. No auditório do Centro de Investigação Médica (CIM) da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), diferentes experiências mostraram como a articulação entre saúde, escola e comunidade pode traduzir-se em ganhos concretos na literacia alimentar, nos comportamentos e na promoção da saúde desde a infância.
Moderado por Maria João Gregório, diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS) da Direção-Geral da Saúde (DGS), e Hugo Marcelo Vieira, da ULS São João, o painel “Projetos comunitários – integração de cuidados” teve como pano de fundo uma convicção comum: no novo modelo das ULS, a integração exige mais do que cooperação pontual entre estruturas.
Da cooperação à colaboração
“A transição de um trabalho meramente cooperativo para um trabalho colaborativo e colaborante é o que define o sucesso da integração”, sublinhou Isabel Paiva, da ULS São João, na apresentação do Programa de Alimentação Saudável em Saúde Escolar (PASSE). A diferença, explicou, está na profundidade da relação construída entre profissionais e instituições. “Enquanto a cooperação pode ser apenas uma divisão de tarefas, a colaboração exige objetivos comuns, confiança mútua e uma visão partilhada do percurso do doente”, assinalou.
Santa Maria da Feira: A nutrição que se faz à mesa e se aprende na escola
No caso dos cuidados nutricionais, isso implica uma articulação vertical e horizontal entre múltiplos níveis e atores: DGS, hospital, Serviço de Nutrição, outros serviços hospitalares, medicina geral e familiar, saúde escolar, cuidados de saúde primários, saúde pública e comunidade.
Da lógica de projeto à construção de percursos
A dimensão prática dessa integração foi desenvolvida por Vitória Leal, da ULS São João, que apresentou o ‘passo a passo’ dos projetos comunitários: identificação de necessidades, definição de objetivos, desenho do projeto, criação de equipas multidisciplinares, formação de parcerias, comunicação, implementação, monitorização e avaliação.
A lógica, aqui, não é a de ações isoladas ou episódicas, mas a de um percurso estruturado, acompanhado e medido. Na própria definição exposta, a integração de cuidados com o modelo das ULS “visa garantir que a comunidade, os cuidados primários, o hospital e os cuidados continuados funcionem como sistema único, com percursos de saúde coordenados e centrados na população”.
A mesma apresentação insistiu na ideia de que a integração mantém “o paradigma de cuidados com foco na pessoa, na sua saúde e no seu bem-estar”, procurando criar valor não apenas para o indivíduo, mas também para a comunidade. Essa visão exige “equipas multidisciplinares com diferentes áreas de conhecimento”, que vão permitir “uma abordagem global e integrada, com diferentes perspetivas” e “uma combinação de ideias que irá valorizar e enriquecer qualquer projeto”. “Todos juntos para encontrar soluções mais eficazes e que persistam no tempo”, assinalou.
Começar cedo, pela literacia
Entre os exemplos, um dos mais ilustrativos foi o projeto ‘Traz Montes de Saúde’, partilhado por Daniela Santos, da ULS do Nordeste. O objetivo passa por promover a literacia em saúde no domínio alimentar, capacitando os alunos e encarregados de educação que frequentam os jardins de infância da área de influência desta ULS.
A experiência mostrou que, quando o trabalho começa cedo e de forma continuada, os efeitos tornam-se visíveis em várias dimensões. Segundo a oradora, as crianças “interagem com a equipa”, “conhecem e gostam de provar alimentos da época e de produção local” e beneficiam de missões que reforçam o conteúdo proposto, tanto em casa como na escola. As matérias abordadas, acrescentou, continuam depois a ser trabalhadas ao longo dos ciclos seguintes, em programas como o PASSE ou nos projetos ‘Lancheira Saudável’ e ‘Alerta Sono’.
Literacia: “Os nutricionistas têm um trabalho fundamental a fazer nesta área”
Entre os resultados destacados esteve uma “melhor adesão à oferta alimentar escolar, sobretudo no consumo de hortofrutícolas”. Ainda assim, o projeto encontrou também limitações, em particular na relação com as famílias. A nutricionista indicou uma “baixa adesão dos pais e encarregados de educação”, um obstáculo recorrente nestas iniciativas. Apesar disso, a mensagem final foi clara: “É necessário começar pelo princípio e esse princípio é a literacia, o conhecimento, que são as ferramentas que permitem escolhas conscientes e responsáveis”.
Ganhos mensuráveis, mas frágeis sem continuidade
Também o projeto ‘Lancheira Saudável’, apresentado por Lígia Afonso, da ULS do Nordeste, trouxe resultados que ajudam a sustentar a importância destas intervenções. Entre 2015 e 2018, referiu, “evidenciou-se uma melhoria global do perfil nutricional das merendas escolares”. Foi observado “um aumento aproximadamente quatro vezes superior na proporção de lanches classificados como adequados” e “uma redução para cerca de um terço na proporção de lanches classificados como nutricionalmente desadequados”. Verificou-se ainda “um incremento da literacia alimentar das crianças”.
Mas a experiência mostrou que os ganhos podem ser frágeis quando não existe continuidade. O projeto foi interrompido entre 2019 e 2023, devido à pandemia de covid-19, tendo sido retomado em 2024/2025. Segundo os dados divulgados, o interregno “comprometeu a consolidação dos ganhos previamente alcançados”, reforçando a ideia de que “a continuidade das ações é determinante para a melhoria da literacia alimentar e para a adoção de escolhas alimentares mais adequadas”.
Qual o impacto do petróleo no preço dos alimentos e que estratégias devemos adotar?
Entre as limitações identificadas surgiram os “constrangimentos na capacidade operacional dos recursos humanos” e a “heterogeneidade na adesão dos encarregados de educação”. Todavia, a formulação final sintetizou o alcance da intervenção: “Promover escolhas saudáveis na infância é investir na saúde ao longo da vida”.
Resiliência local e expectativa nacional
Antes de alargar o debate à plateia, Maria João Gregório salientou que, apesar das dificuldades e da inexistência, em muitos contextos, de equipas especificamente dedicadas à promoção da saúde, “temos projetos com muita qualidade a serem implementados localmente em diferentes ULS”. Na sua leitura, estes exemplos revelam uma “grande capacidade de resiliência dos profissionais”, especialmente tendo em conta que “o tempo dedicado para estes projetos na comunidade é muito reduzido”, face às crescentes necessidades na componente assistencial.
A responsável mostrou-se satisfeita com os resultados dos projetos apresentados, que classificou como “animadores”, e chamou a atenção para uma tendência relevante: algumas destas iniciativas, que nasceram na comunidade, estão agora a regressar aos cuidados de saúde, integrando-se na vigilância da saúde infantil e juvenil. “O programa PASSE está a dar esse passo”, afirmou, frisando a capacidade de adaptação dos materiais e das ferramentas a diferentes contextos.
Deixou ainda uma nota de expectativa em relação ao novo Programa Nacional de Saúde Escolar (PNSE), cuja apresentação deverá acontecer em junho, por ocasião do Dia Mundial da Criança. Entre as possibilidades em aberto, confessou a esperança de que “as equipas de saúde escolar passem a integrar obrigatoriamente nutricionistas, uma realidade que ainda não é transversal a todas as ULS do país”.
No conjunto, o painel mostrou que a integração de cuidados também se constrói antes da doença, no território, na escola e no quotidiano das famílias. E confirmou que os projetos comunitários podem ter um lugar pleno na resposta em saúde.
Esta reportagem é composta por duas partes. A primeira – intitulada “Na ULS de São João, a organização dos cuidados também trata” – já se encontra publicada:




