No III Congresso do Serviço de Nutrição da Unidade Local de Saúde (ULS) São João, realizado nos dias 23 e 24 de março, no auditório do Centro de Investigação Médica (CIM) da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), a integração dos cuidados nutricionais nas ULS foi discutida tanto no plano organizacional como na prática clínica.
A reflexão ganhou expressão concreta no painel ‘Suporte nutricional no doente com falência intestinal’, onde a experiência local surgiu como exemplo de uma reorganização com impacto direto nos resultados clínicos.
Da fragmentação à resposta estruturada
Sob moderação de Marta Rola e Eduardo Lima da Costa, ambos da ULS São João, o painel arrancou com uma intervenção de Telma Fonseca sobre a criação e o balanço da Unidade de Falência Intestinal da ULS São João. A coordenadora lançou o tema com uma ideia forte: “A falência intestinal deve ser entendida como um modelo de doença que exige organização estruturada”.
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Na apresentação ‘Falência intestinal: da necessidade clínica à organização em equipas multidisciplinares’, a cirurgiã traçou o contraste entre o modelo tradicional e as unidades dedicadas, explicando que estas permitem a “centralização da experiência clínica”, a “uniformização e rigor nos protocolos”, a “tomada de decisão integrada em equipa multidisciplinar” e a “otimização da eficiência e segurança”. Perante esse cenário, defendeu que a implementação de uma Unidade de Falência Intestinal “não é apenas uma reorganização administrativa, é uma intervenção estruturante com impacto clínico direto”.
Os ganhos apresentados distribuíram-se por várias frentes. Do ponto de vista clínico, a experiência da equipa tem-se traduzido em redução de infeções relacionadas com cateter, melhoria do estado nutricional e maior estabilidade metabólica a longo prazo. No plano organizacional, foram destacados a redução do tempo de internamento, a diminuição da taxa de readmissões e o reforço do planeamento multidisciplinar. Já na perspetiva do doente, a responsável anotou o aumento da autonomia e independência, a melhoria da qualidade de vida e uma transição mais segura para o domicílio.
A síntese surgiu numa frase que condensou o espírito da intervenção: “A organização dos cuidados emerge como um determinante direto de outcomes”. Na falência intestinal, concluiu, “a qualidade dos cuidados depende tanto da estrutura organizacional como da competência técnica”.
Do hospital ao domicílio
A apresentação reservou ainda espaço para o futuro. Telma Fonseca apontou para uma evolução assente em “modelos híbridos”, capazes de tornar mais fluida a transição entre hospital e domicílio, com reforço da nutrição parentérica domiciliária e aposta em ferramentas digitais para monitorização remota e apoio à decisão clínica. A perspetiva é de que “as Unidades de Falência Intestinal evoluirão de estruturas hospitalares para plataformas de gestão integrada no domicílio de doentes complexos”.
O painel contou com a participação do enfermeiro Rui Guedes e da farmacêutica Carla Sampaio, que abordaram o apoio em ambulatório e a preparação e distribuição das bolsas de nutrição parentérica, respetivamente. A sessão incluiu também testemunhos de um doente e de um cuidador, trazendo para o debate a experiência de quem vive diariamente com esta condição.
Integrar cuidados, medir impacto
A discussão sobre o tema começou na mesa-redonda ‘2 anos de ULS – mudança na integração de cuidados’, moderada por Cristina Teixeira, diretora do Serviço de Nutrição da ULS São João. Em foco esteve o papel da nutrição numa mudança de estratégia orientada para melhorar o cuidado nutricional das pessoas ao longo do ciclo de vida.
Entre os vários contributos, João Logarinho, responsável pela Unidade Autónoma de Gestão de Cirurgia da ULS São João, demonstrou a relação custo-efetividade da intervenção nutricional desde a preparação até à recuperação pós-operatória, com menos dias de internamento, menos complicações e menos cancelamentos de cirurgias por mau estado nutricional. Nesse contexto, sublinhou a importância do rastreio de desnutrição nas primeiras 48 horas de internamento.
Já Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), salientou a importância estrutural e transversal do Serviço de Nutrição em múltiplas patologias, questionando se esta valência tem sido envolvida na cocriação de percursos para utentes e se existem condições para a referenciação automática de alertas em situações de risco de desnutrição.
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Lígia Silva, diretora clínica para a área dos cuidados de saúde primários da ULS São João, destacou a integração vertical dos cuidados primários e hospitalares na área da nutrição como um processo em desenvolvimento e acentuou a relevância de indicadores de avaliação que permitam tornar o trabalho dos nutricionistas mais visível, eficaz e relevante.
Ricardo Mestre, da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, mencionou um estudo segundo o qual, por cada euro investido em nutrição, os benefícios seriam “largamente superiores”, nomeadamente nos cuidados de saúde primários, pelo que investir nestes profissionais contribui para a sustentabilidade dos sistemas de saúde.
Um congresso para mostrar resultados
No final, Cristina Teixeira referiu que o evento contou com 200 inscritos, fazendo um balanço “muito positivo”. Além de nutricionistas, registou-se a participação de médicos e, maioritariamente, enfermeiros, embora a organização admita querer “atrair mais profissionais de saúde em futuras edições”.
Entre as principais conclusões, a diretora avançou que “a nossa ULS confirmou a vantagem da manutenção das parcerias do Serviço de Nutrição com as autarquias e, na área clínica, com equipas multidisciplinares”. Recordou ainda a evolução entre edições do congresso: “Na edição anterior, tivemos uma mesa sobre a necessidade de criação de uma Unidade de Falência Intestinal e, dois anos depois, viemos apresentar os resultados dessa equipa, que foi criada e é, neste momento, já uma referência para outros hospitais”. A inclusão de testemunhos de doentes e cuidadores foi outro dos aspetos enaltecidos, tendo sido considerada “muito positiva e enriquecedora para a nossa audiência”.
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Com próxima edição prevista para 2028, o congresso mostrou que, na nutrição clínica, integrar cuidados não significa apenas alinhar estruturas ou discursos, mas construir respostas organizadas, multidisciplinares e mensuráveis, capazes de melhorar os resultados para os doentes.
Esta reportagem é composta por duas partes. A segunda – intitulada “Projetos comunitários mostram que integrar cuidados também é prevenir” – será publicada no próximo dia 17 de abril (sexta-feira).




