Em caso de calamidade, a alimentação também é resposta de emergência

No IX Congresso Português de Alimentação e Autarquias, que decorreu nos dias 16 e 17 de abril de 2026, na Fábrica de Santo Thyrso, a alimentação foi discutida para lá da escola, da prevenção e da promoção da saúde. Numa das sessões do evento organizado pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP), em parceria com a Câmara Municipal de Santo Tirso, o foco passou para os contextos de calamidade e para a forma como a nutrição, a proteção civil e o poder local se cruzam quando o essencial falha.

A nutrição como eixo da resposta humanitária

Diana Borges, oficial de programas do World Food Programme (WFP), trouxe para o debate a escala global das crises alimentares. A partir dos dados do Global Report on Food Crises de 2025, recordou que “295,3 milhões de pessoas, em 53 países e territórios, sofreram níveis elevados de insegurança alimentar aguda em 2024”. O relatório aponta ainda para “mais de 37,7 milhões de crianças com desnutrição aguda”, das quais “10,2 milhões em situação severa”.

Num cenário marcado por “conflitos, insegurança, eventos climáticos extremos e choques económicos”, a resposta alimentar não pode ser pensada isoladamente. A resposta humanitária, explicou a nutricionista, “exige coordenação”. Não basta saber que há fome ou desnutrição, é preciso perceber quem precisa de apoio, onde está, que tipo de assistência deve ser prestada, que recursos existem e que mecanismos podem ser ativados. Nesse enquadramento, “o levantamento e análise de dados são fundamentais antes, durante e imediatamente após a crise”.

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Do mundo para o território

Na segunda parte do painel, moderado pela nutricionista Maria João Gregório, diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS) da Direção-Geral da Saúde (DGS), a reflexão internacional encontrou eco no plano local com a intervenção de Júlio Braga, coordenador municipal de proteção civil de Santo Tirso. “Nenhum plano de emergência é completo se não garantir comida segura e suficiente a quem dele depende”, sintetizou, numa das ideias centrais da apresentação.

A intervenção partiu da missão da proteção civil: “Proteger pessoas, bens e ambiente”. Em situação de emergência, essa missão inclui “garantir bens essenciais”, entre os quais a alimentação. Júlio Braga indicou que quando há cortes de energia, perde-se capacidade de refrigeração e conservação de alimentos perecíveis. Quando há estradas bloqueadas, a distribuição para zonas afetadas e para operacionais no terreno fica comprometida. Quando falta coordenação, há duplicação de esforços, desperdício de recursos e zonas desassistidas. E quando falha a comunicação, surgem pânico, desinformação e corridas a supermercados, com risco de rutura de stocks.

O exemplo de Santo Tirso

A sessão trouxe o caso de Santo Tirso, concelho com 14 freguesias, perto de 68 mil habitantes e uma área florestal significativa. O Plano Municipal de Emergência foi apresentado por Júlio Braga como instrumento de coordenação e comando em situação de catástrofe. Define responsabilidades, recursos e fluxos logísticos entre as entidades envolvidas e inclui mecanismos específicos para garantir alimentação em emergência, coordenando cozinhas sociais, Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e restauração local em “resposta integrada”.

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A experiência mais marcante foi o incêndio de setembro de 2024, que exigiu quatro dias de operações ininterruptas e a alimentação diária de mais de 200 operacionais. Foram asseguradas refeições completas, do pequeno-almoço ao jantar, além de reforços nos teatros de operações. O caso permitiu retirar uma aprendizagem crítica: “O planeamento alimentar é fator decisivo de continuidade operacional”. Entre os principais desafios estiveram as “estradas cortadas pelo fogo”, as “mudanças constantes de localização dos teatros de operações” e a “rotação de equipas durante a madrugada”. A prioridade foi “garantir quantidade, qualidade, segurança alimentar e pontualidade”. Uma refeição atrasada, lembrou, “pode significar exaustão, desmotivação ou risco operacional”.

Antes, durante e depois

A estratégia defendida assentou num ciclo de gestão de emergência alimentar dividido em três momentos. Antes da crise, é necessário planear e preparar. Isso inclui mapear infraestruturas fundamentais para a alimentação, como cozinhas industriais, cantinas, armazéns frigoríficos e pontos de distribuição; estabelecer acordos prévios com empresas, IPSS e restauração local; criar reservas alimentares municipais ou regionais; identificar grupos vulneráveis; e realizar exercícios simulados com componente alimentar integrada.

Durante a emergência, a resposta passa pelo comando, pela logística operacional e pela distribuição. É aqui que entram os postos de comando logístico, as cozinhas móveis, os reforços alimentares diretos nos teatros de operações, o armazenamento e transporte sob controlo sanitário rigoroso, mesmo em condições adversas. “A priorização deve considerar operacionais, populações deslocadas e instituições críticas”, enumerou.

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Depois da crise, importa avaliar, corrigir e reforçar a resiliência. Para Júlio Braga, as lições retiradas no terreno são claras: “as redes locais são decisivas”; “alimentar é também cuidar”; e “o sucesso depende de antecipação e articulação”.

Preparar não é alarmismo

A sessão terminou com uma dimensão mais prática. Através de uma sondagem interativa, foi colocada a pergunta: “Se hoje houvesse uma interrupção no abastecimento alimentar durante três dias, estaria preparado?”. Entre as respostas, quase metade dos participantes (48%) admitiu ter alguns alimentos, mas não planeados; 33% respondeu ter reservas alimentares em casa; 19% assumiu já ter pensado no assunto, embora sem ter feito uma reserva alimentar.

Para Júlio Braga, estes resultados mostram onde começa o conceito de resiliência alimentar. Se cada família tiver 72 horas de autonomia, o sistema ganha tempo: tempo para reorganizar, abastecer e responder. Por isso, o kit de emergência alimentar foi apresentado como “o primeiro degrau da segurança civil” e “o ponto onde a nutrição encontra a proteção”, devendo incluir água, alimentos não perecíveis, utensílios básicos e abre-latas manual, fonte alternativa de calor, medicamentos pessoais, contactos úteis e alimentos específicos para bebés, alergias ou dietas restritivas. “Preparar-se não é alarmismo: é responsabilidade”, salientou.

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No final, ficou a mensagem de que a alimentação deve ser assumida como parte estrutural da resposta local à emergência. Não apenas como apoio social, nem apenas como logística, mas como condição para proteger populações, manter operacionais no terreno e garantir que, mesmo quando o sistema falha, a comunidade conserva capacidade de resposta.