Entrevista: “A Nutrição pode ter um papel mais estruturante nas respostas em saúde pública”

As eleições para os Conselhos de Especialidade da Ordem dos Nutricionistas (ON) realizam-se no próximo dia 27 de junho. A nutricionista Carla Gonçalves, especialista em Nutrição Comunitária e Saúde Pública, prepara-se para suceder a Carla Lopes como presidente deste mesmo Conselho e contribuir para o futuro da profissão.

Em entrevista à VIVER SAUDÁVEL, a professora universitária e investigadora da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro assume o desafio de reforçar a visibilidade externa da especialidade, ao mesmo tempo que valoriza o papel dos colegas nos diferentes contextos de decisão em saúde pública. Quanto maior for o reconhecimento do impacto e das oportunidades nesta área, maior será a mobilização e o crescimento do colégio, sublinha.

São três as grandes prioridades para os próximos quatro anos: valorizar a especialidade, aumentar a capacidade de influência do Colégio e aumentar o número de especialistas.

VIVER SAUDÁVEL (VS) – Porque decidiu candidatar-se a presidente do Conselho de Especialidade de Nutrição Comunitária e Saúde Pública da Ordem dos Nutricionistas?

Carla Gonçalves (CG) – Acompanhei desde cedo a evolução da profissão e os diferentes processos ligados ao seu desenvolvimento, incluindo o percurso de consolidação das Especialidades na Ordem dos Nutricionistas. Ao longo dos últimos anos tive oportunidade de contribuir diretamente para esse trabalho e de acompanhar de perto os desafios estruturantes da profissão.

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A decisão de avançar com esta candidatura surgiu de forma muito natural, também incentivada por colegas que me manifestaram apoio e confiança. Senti que podia colocar ao serviço da especialidade a experiência que fui construindo na Ordem dos Nutricionistas, aliada ao meu trabalho na academia, na investigação e na saúde pública.

Acredito profundamente que os Especialistas em Nutrição Comunitária e Saúde Pública têm um papel determinante na construção de respostas mais eficazes para os grandes desafios de saúde das populações. Foi essa convicção que me levou a avançar com esta candidatura, com sentido de responsabilidade e compromisso para com a especialidade, numa fase em que importa reforçar a sua visibilidade, valorização e capacidade de influência junto dos diferentes contextos de decisão em saúde.

VS – Este será o segundo ato eleitoral na história dos Conselhos de Especialidade. Como avalia o primeiro mandato da presidente Carla Lopes? Defende a continuidade do trabalho desenvolvido ou acredita ser necessário introduzir uma visão diferente?

CG – O primeiro mandato foi muito importante para estruturar e consolidar a especialidade. Destaco, em particular, o rigor técnico e a grande resiliência demonstrados na operacionalização do processo de atribuição do título de especialista em Nutrição Comunitária e Saúde Pública.

Esse percurso criou bases sólidas que importa valorizar e respeitar. A nossa candidatura parte desse legado, mas entende que a especialidade entrou agora numa fase diferente do seu desenvolvimento.

“Descreveria a equipa com três palavras: plural, representativa e próxima”

O próximo passo passa, na nossa perspetiva, por reforçar a capacidade de influência institucional do colégio e dar maior visibilidade externa à especialidade. Ou seja: consolidar o trabalho feito e, a partir daí, avançar para uma fase de maior afirmação técnica e institucional junto dos diferentes contextos de decisão em saúde pública.

VS – A ser eleita, a sua lista representará um Conselho renovado, com caras novas. Como descreve a sua equipa?

Descreveria a equipa com três palavras: plural, representativa e próxima. Mais do que reunir diferentes percursos profissionais, procurámos construir uma equipa com competências complementares e capacidade de concretizar projetos em benefício da especialidade.

Essa diversidade é uma mais-valia muito importante porque traduz bem a amplitude da especialidade e permite-nos ter uma visão integrada dos desafios e oportunidades que hoje existem no terreno. É uma equipa com experiência, sentido de compromisso e uma forte vontade de trabalhar em proximidade com os colegas e com foco no futuro da especialidade.

VS – São 120 os especialistas em NCSP, um número “abaixo das expectativas” da equipa cessante e que “obriga a uma reflexão”. De que forma procurará potenciar o crescimento deste Conselho?

Esse crescimento exige uma reflexão estratégica. Importa também compreender melhor os fatores que condicionam a adesão dos colegas à especialidade e identificar oportunidades para tornar este percurso mais próximo e mais valorizado.

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Acredito que um dos principais desafios tem sido ainda a reduzida visibilidade do valor da especialidade enquanto espaço de desenvolvimento profissional e também enquanto espaço de liderança nas respostas aos grandes desafios da saúde pública.

Quando a especialidade se torna mais visível, mais reconhecida e mais presente institucionalmente, também se torna mais atrativa. Por isso queremos trabalhar em três frentes: valorizar a especialidade, reforçar a sua presença e influência institucional e tornar mais claro e próximo o percurso de candidatura ao título de especialista.

Quanto mais os colegas reconhecerem impacto, oportunidade e capacidade de intervenção nesta área, maior será a mobilização e o crescimento do colégio.

VS – A promoção da saúde e a prevenção da doença continuam aquém do foco sobejamente maior no tratamento. Quais são as suas bandeiras para os próximos quatro anos?

Temos três prioridades que assumimos com igual relevância. A primeira é valorizar a especialidade, reforçando o reconhecimento do contributo diferenciado dos Especialistas em Nutrição Comunitária e Saúde Pública. A segunda é aumentar a capacidade de influência do colégio, afirmando uma voz técnica mais presente nas políticas públicas, nas consultas técnicas e nos processos de decisão relevantes.

“Vejo um futuro em que os nutricionistas participem cada vez mais na definição de políticas públicas”

E a terceira é aumentar o número de especialistas, tornando esta área mais atrativa, mais próxima e mais reconhecida. Acreditamos que este reforço converte em maior capacidade coletiva de compreender, prevenir e transformar os problemas alimentares e de saúde que afetam hoje as populações.

São três prioridades profundamente ligadas entre si e essenciais para reforçar o papel da Nutrição Comunitária e Saúde Pública na promoção da saúde das populações.

VS – Nos 50 anos do primeiro curso de Nutrição em Portugal, fica a questão: Onde estamos e para onde vamos? Qual o estado da profissão de Nutricionista e o que nos espera o futuro?

A profissão evoluiu muito nas últimas décadas e hoje os nutricionistas têm uma presença muito mais ampla e diferenciada na sociedade portuguesa.

Ao mesmo tempo, os próximos anos vão trazer desafios muito exigentes, tais como o envelhecimento populacional, as desigualdades em saúde, as doenças crónicas e a necessidade crescente de investir em prevenção e promoção da saúde, a par da própria sustentabilidade dos sistemas alimentares e dos sistemas de saúde.

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É precisamente aí que vejo grande potencial e também grande responsabilidade. Vejo um futuro em que os nutricionistas participem cada vez mais na definição de políticas públicas, no planeamento de respostas comunitárias e na construção de ambientes promotores de saúde.

Aquilo que mais me entusiasma é perceber que a Nutrição pode ter um papel ainda mais estruturante nas respostas em saúde pública. Aquilo que mais me preocupa é que continuemos a investir mais na resposta curativa do que na prevenção e que os nutricionistas possam ficar afastados de áreas estratégicas da resposta comunitária e da saúde pública.

A presença dos nutricionistas nestes espaços precisa de ser cada vez mais técnica, proativa, institucional e também política.

VS Que mensagem quer deixar aos colegas especialistas e a todos os outros que, eventualmente, estejam a ponderar especializar-se nesta área?

A Nutrição Comunitária e Saúde Pública é uma área profundamente desafiante e também profundamente transformadora. É uma especialidade que trabalha muito próxima das pessoas, das comunidades e dos contextos reais onde a saúde se constrói todos os dias.

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Aos colegas especialistas, deixo uma mensagem de confiança e de mobilização: precisamos de continuar a construir esta especialidade em conjunto, valorizando o que fazemos e afirmando o impacto do nosso trabalho.

E a quem está a ponderar especializar-se nesta área, diria que vale a pena. É um caminho exigente, mas com enorme relevância social e com capacidade real de contribuir para melhorar a saúde das populações e para transformar o futuro da saúde pública em Portugal.

Precisamos de mais especialistas porque precisamos de mais profissionais preparados para transformar conhecimento e competência em melhores condições de saúde para as populações.