Multiculturalidade à mesa: a escola aprende a acolher pela alimentação

No IX Congresso Português de Alimentação e Autarquias, organizado pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP), em parceria com a Câmara Municipal de Santo Tirso, nos dias 16 e 17 de abril, na Fábrica de Santo Thyrso, o painel dedicado à integração da multiculturalidade no contexto da alimentação escolar reuniu experiências de Odivelas e Braga. Entre projetos educativos, dados sobre nacionalidades, pedidos de alteração de ementa e desafios operacionais, a sessão mostrou que a refeição escolar é hoje muito mais do que um momento nutricional: é também espaço de inclusão, identidade e convivência.

A alimentação como lugar de identidade

Como gerir receios, oportunidades e desafios nos contextos locais? A pergunta abriu a intervenção do sociólogo Carlos Valentim, da Câmara Municipal de Odivelas, num painel moderado pelas nutricionistas Diana Cadete, da Câmara Municipal de Santo Tirso, e Maria João Correia, da empresa Mediterrânea. Na sua opinião, a multiculturalidade pode gerar “incompreensão ou receio” perante aquilo que é diferente, mas pode também ser entendida como uma “oportunidade”, pois “estimula a diversidade cultural, o respeito e a tolerância mútua”. Em Odivelas, esse debate tem expressão concreta. O concelho foi apresentado como um “território multicultural”, com mais de 156 mil habitantes e uma população estrangeira residente de 32,7%.

Nutrição e Autarquias: A alimentação como política local, a escola como lugar de inclusão

O palestrante sublinhou que a alimentação também é cultura, pertença e memória. Recorrendo à ideia de que “o cru é a natureza, o cozido é a cultura”, mostrou como as escolhas alimentares resultam de hábitos aprendidos, influências sociais, religiosas, éticas e económicas. A comida, defendeu, é marca da identidade de um povo, mas também reflexo de desigualdades sociais e de dinâmicas de adaptação. Por isso, a multiculturalidade “não é só sobre o outro, também é sobre nós”. A frase resumiu uma das mensagens centrais da sessão: acolher diferentes práticas alimentares não significa apenas adaptar menus, mas reconhecer identidades e perceber que a mesa pode aproximar culturas.

Projetos que pertencem às escolas

O projeto “Dieta Mediterrânica em Odivelas” foi apresentado como um exemplo de intervenção em contexto escolar. A dieta mediterrânica é o ponto de partida para a promoção da alimentação saudável, procurando reforçar conhecimentos, apoiar atividades nas escolas e aumentar a motivação dos alunos para melhorar hábitos alimentares. Inclui o desenvolvimento de atividades escolares, desde concursos, exposições, confeção e prova de refeições saudáveis.

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Mas a construção de um projeto desta natureza exige adequação ao contexto e à população. Não basta chegar à escola com uma proposta fechada. É necessário “flexibilizar, dar espaço às diferenças, envolver docentes, acolher a participação, valorizar e devolver os resultados, e integrar os objetivos das escolas”, anotou Carlos Valentim. “Os projetos não estão na escola… são da escola!”, realçou. Para que uma intervenção tenha impacto, tem de ser apropriada pelos destinatários e integrada nas atividades e nos planos curriculares.

Braga: quando a multiculturalidade chega ao refeitório

A experiência de Braga trouxe outra escala ao debate. A nutricionista Joana Russell Sampaio, da Câmara Municipal de Braga, apresentou os desafios na gestão das refeições escolares num concelho com 115 refeitórios escolares, 25.667 alunos e cerca de 12.300 refeições diárias. Neste contexto, “a multiculturalidade é uma realidade crescente”, reconheceu. A percentagem de alunos de nacionalidade estrangeira aumentou de 15,8% em 2022/2023 para 26% em 2025/2026. No presente ano letivo, as escolas integram alunos de 102 nacionalidades.

O refeitório escolar foi apresentado como “um espaço privilegiado de educação, inclusão e construção cultural”. As refeições escolares “não têm apenas uma função nutricional, mas também educativa e social. Transmitem valores culturais e as nossas tradições alimentares”. Esse equilíbrio, contudo, não é simples. O chamado “choque cultural no prato” aparece na rejeição da sopa, muitas vezes desconhecida para crianças de outras culturas, no consumo de legumes, na presença de carne ou na preferência por refeições mais condimentadas.

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Segundo os dados apresentados, “67% dos responsáveis dos refeitórios escolares relatam diferenças notáveis nos hábitos alimentares das crianças de outras nacionalidades ou culturas”. E as dificuldades são concretas: 57,9% das escolas referem que há alunos que recusam a refeição; 43,9% apontam o elevado número de alunos como obstáculo; e 33,3% identificam impacto direto e grave no desperdício alimentar diário.

Ementas, confiança e proximidade

A diversidade cultural tem-se traduzido no aumento dos pedidos de alimentação alternativa. Em Odivelas, as principais razões para solicitar alterações de ementa são saúde (com declaração médica), étnico-religiosas e vegetarianas. O gráfico apresentado sobre os últimos dez anos mostra uma evolução expressiva destes pedidos, sinal de uma escola cada vez mais diversa. No presente ano letivo, dos quase 20 mil alunos, 28% são de nacionalidade estrangeira.

Natália Freitas, nutricionista da Câmara Municipal de Odivelas, explicou que a alteração de ementas parte de um princípio de acolhimento. “Na escola espera-se que as crianças e alunos se sintam acolhidos, integrados e felizes, independentemente do seu estado de saúde ou opções étnico/religiosas”, indicou. O processo implica formulários próprios e um circuito definido. A resposta reflete-se numa diversidade de ementas: halal, adventista, vegetariana, ovolactovegetariana, sem carne, sem carne de porco e vaca, entre outras.

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Esta adaptação traz novos desafios. O maior número de pedidos de ementas “aumenta a responsabilidade e reforça a relação de confiança entre encarregados de educação, município e comunidade escolar”. Obriga também a “maior articulação com as escolas”, à “divulgação de documentos sobre as ementas”, à “formação de pessoal docente e não docente” e a “investimento em equipamentos e utensílios que minimizem riscos de contaminação cruzada”.

Em Braga, segundo Joana Russell Sampaio, “o desafio que temos pela frente é continuar a adaptar os serviços de alimentação escolar, promovendo uma resposta inclusiva, respeitadora da diversidade e centrada no bem-estar de todas as crianças e jovens”. Em Odivelas, a experiência mostra que pequenos gestos podem ter grande impacto. “Quando o encarregado de educação ou o aluno agradecem, percebemos que a felicidade advém de pequenos gestos, que nos enchem de coragem para fazer mais e melhor”, partilhou Natália Freitas.

A refeição escolar, tantas vezes vista apenas como serviço, surge assim como espaço de cidadania, inclusão e aprendizagem.