Cronobiologia, regimes alimentares e obesidade 601

A cronobiologia é a ciência dos ritmos biológicos, dedica-se a estudar a forma como o tempo cronológico regula o tempo biológico e os efeitos que resultam do desfasamento entre estes tempos. O sono, o metabolismo, a adiposidade, a fome/saciedade e a reprodução são algumas das funções biológicas mais afetadas pela cronobiologia.

Cerca de 10-20% do transcriptoma humano tem um ritmo circadiano. A transcrição é regulada por CCG (clock-controlled genes).

Até há muito pouco tempo o ritmo circadiano era considerado apenas o resultado das oscilações no funcionamento de um grupo de cerca de 20.000 neurónios localizados no hipotálamo anterior, que no seu conjunto se designa de núcleo supraquiasmático, considerado o principal relógio biológico nos mamíferos, ditando os ciclos de 24 horas, resposta ao dia/noite. Hoje sabe-se existirem relógios periféricos, em células diversas, no tecido adiposo, pâncreas, fígado, coração, pulmão e também no cérebro (apesar de considerados ‘periféricos’), e que ‘respondem’, por exemplo, às refeições.

Atualmente, e graças ao desenvolvimento do conhecimento molecular sobre os relógios biológicos, passou-se a poder relacionar o sono, a sua duração, a sua qualidade e o momento em que acontece, bem como as horas das refeições, com a obesidade.

Assim, por exemplo, a ingestão de refeições numa fase coincidente com a síntese de melatonina, que ocorre no período da noite (com início cerca das 21h30 e término, cerca das 07h30), está associada à obesidade. Na mesma linha de investigação, sabe-se também que em regimes alimentares isocalóricos, a distribuição ao longo do dia, sobretudo se a maior ingestão ocorre no final do dia, está associada a adiposidade, independentemente de outros fatores de risco. Não deixa de ser curioso, provar-se cientificamente, em diferentes modelos experimentais, com a avaliação da expressão de genes relacionados com os relógios periféricos (CLOCK, BMAL), que é importante respeitar as horas das refeições, não fazer grande parte da ingestão de alimentos na segunda metade do dia (com relevância para a primazia do pequeno almoço), bem como uma boa noite de sono…o que empiricamente se ia sabendo, na prática, reconhecidamente nada cumprido.

Esta temática é ainda mais pertinente em profissões que trabalham por turnos. É ainda mais pertinente se reconhecermos que o sono afeta, por isto, os mecanismos de saciedade, que se associa com a obesidade e que, mais importante ainda, relaciona o excesso de peso e obesidade com muitas outras patologias, crónicas, não transmissíveis, tais como as doenças cardiovasculares ou cancro.

Estes achados são importante para desfocar a atenção que tanto se dá às ‘calorias’, essas uma unidade química que podem corresponder a muito pouco no metabolismo de cada indivíduo. A hora das refeições, a prática do exercício físico e o sono, são 3 variáveis (estilos de vida) que interferem nos relógios biológicos central e periféricos, e desta forma, na transcrição de múltiplos genes relacionados com o dispêndio energético e com a regulação térmica. Muitos dos genes são proteínas/enzimas envolvidas no metabolismo do colesterol, dos aminoáciados, da glicose, do glicogénio, ou mesmo de hormonas tais como insulina, glicagina, hormona do crescimento, corticoides, grelina e leptina.

Uma dieta rica em gordura, a privação do sono, o sono fragmentado, o saltar refeições, sobretudo o pequeno-almoço, são fatores atualmente identificados como um ‘gatilho’ de disrupção dos relógios biológicos, desfasamento/desacerto, com forte associação ao maior risco de doença metabólica.

Uma dieta rica em gordura, a privação do sono, o sono fragmentado, o saltar refeições, sobretudo o pequeno-almoço, são fatores atualmente identificados como um ‘gatilho’ de disrupção dos relógios biológicos, desfasamento/desacerto, com forte associação ao maior risco de doença metabólica.
A intervenção do nutricionista, numa perspetiva de cronoterapêutica, deve considerar que a restrição calórica e o jejum intermitente, por exemplo, ajudam na ‘regulação’ dos relógios, quer do central (supraquiasmático), quer dos periféricos, o que não acontece com os regimes restritivos, cuja única preocupação é reduzir a ingestão calórica, de glicídeos e/ou de gorduras.

Conceição Calhau,

Professora Associada com Agregação, Nutrição e Metabolismo, NOVA Medical School, UNL
Coordenadora do grupo de investigação Medicina Preventiva & Desafios Societais, ProNutri, CINTESIS

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