A dieta vegetariana e o microbiota intestinal 470

Seja por razões religiosas, filosóficas, ambientais ou de saúde, o facto é que a adesão à dieta vegetariana tem aumentado. Este padrão alimentar tem por base a ingestão de fruta, hortícolas, cereais e tubérculos, leguminosas e derivados, frutos gordos e sementes, podendo também incluir ovos (ovovegetarianos), leite (lactovegetarianos) ou ambos (ovolactovegetarianos). Sendo este um padrão de consumo alimentar que tem por base exclusivamente produtos de origem vegetal, e se acauteladas as deficiências de micronutrientes identificadas neste regime com a toma de suplementos alimentares e/ou alimentos fortificados, o risco para doenças metabólicas, como doenças cardiovasculares, certos tipos de cancro, diabetes e obesidade, é menor. Esta associação deve-se, sobretudo, à melhoria de parâmetros metabólicos, como o balanço oxidativo, perfil anti-inflamatório, perfil lipídico e níveis de glicose, que, sabe-se recentemente que podem ser mediados pelas bactérias que habitam o nosso intestino.

É importante ainda realçar que, geralmente, os vegetarianos são indivíduos que adoptam estilos de vida mais saudáveis, quer em termos de hábitos tabágicos, quer na prática de atividade física, consumo de álcool, sal, gordura total e gordura saturada. Todos estes fatores são importantes no desenvolvimento do microbiota intestinal que, consoante a dieta omnívora ou vegetariana, produz diferentes e específicos metabolitos com funções bioquímicas distintas, sendo importantes reguladores metabólicos e imunológicos.

Os vegetarianos tendem a ingerir menos proteína, vitamina B12, sódio, EPA e DHA, ferro e colesterol, mas mais fibra, fitoquímicos, potássio, magnésio, ácido ascórbico e folato. As diferenças são notáveis: numa dieta rica em glicídeos complexos bactérias sacarolíticas como a Prevotella spp. dominam, enquanto que uma dieta rica em proteínas e gordura animal está associada uma elevada quantidade de Bacteroides spp.. Os produtos de origem animal, nomeadamente a carne vermelha, contêm quantidades mais elevadas de colina e L-carnitina, que tem sido associado a um aumento do risco de doenças cardiovasculares pela sua conversão em trimetilamina (TMA). Esta conversão ocorre à custa de bactérias intestinais e, consequente, oxidação da mesma em N-óxido de trimetilamina (TMAO – espécie pro-aterogénica) no fígado. Assim, vegetarianos e ovolactovegetarianos apresentam níveis pós-prandiais de TMAO reduzidos após uma refeição com L-carnitina, mostrando que pelo seu padrão alimentar, e de estilo de vida, têm um microbiota menos capaz de sintetizar a TMA.

As fibras, que se caracterizam por não serem digeríveis pelas enzimas digestíveis, são o principal, e mais direto, fator modulador do microbiota. O aumento da ingestão de fibra é associado a um aumento da riqueza e/ou diversidade microbiana, notando-se um acréscimo de Bifidobacterium spp., Ruminococcus spp., Eubacteirum spp. e Faecalibacterium prausnitzii (Clostrídios comensais). A fermentação derivada destas bactéricas leva à produção de ácidos gordos de cadeia curta (como o butirato, o propionato e o acetato) que controlam a expressão de múltiplos genes humanos, influenciando o controlo do apetite, a proliferação das células do epitélio intestinal e modulando a permeabilidade intestinal.

Os polifenóis, compostos químicos presentes nos produtos de origem vegetal, têm a capacidade de inibir o crescimento de Bacteroides spp. e de bactérias patogénicas. Estimulando, por outro lado, a proliferação de bactérias comensais, como é o exemplo do Lactobacillus. As idoflavonas são polifenóis presentes na soja e em outras Fabácias, convertidas pelas bactérias intestinais em equol, que tem mais benefícios que os compostos que lhe dão origem. Também esta síntese está dependente da identidade do microbiota de quem consome a soja, podendo ou não ter capacidade de síntese de equol.

Estudos em vegetarianos e em não vegetarianos da mesma área geográfica mostram que vegetarianos apresentam uma maior e melhor diversidade bacteriana e uma maior proporção de Prevotella/Bacteroides.

Contudo, tal só se verifica se a adoção de refeições vegetarianas for devidamente planeada em todas as fases de vida, sendo o papel do nutricionista preponderante.

Juliana Morais,
Estudante da FCNAUP e Investigadora júnior do Pronutri, CINTESIS

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