Atualidades em Ciência 487

No mundo industrializado em que vivemos, inebriados pelos avanços tecnológicos que aumentam o nosso conforto e bem‐estar, é relativamente fácil ignorar as consequências e repercussões negativas resultantes da grande utilização de produtos químicos que de forma intensiva são usados em vários setores industriais e agrícolas.

Hoje, poucos dias depois do Natal e com três anos de atraso, a Comissão Europeia submeteu já a votação, uma nova proposta de identificação e regulamentação dos alteradores (ou disruptores) endócrinos – produtos químicos ubíquos capazes de imitar ou antagonizar a ação hormonal, afetando a homeostasia e provocando efeitos deletérios nos organismos vivos, incluindo o Homem, mesmo em pequenas concentrações.

Mais de 1.300 estudos substanciam uma já antiga e duradoura conversa cruzada entre a exposição a alteradores endócrinos e doenças endócrino-metabólicas de etiologia complexa, como a diabetes, a obesidade, a infertilidade, diferentes tipos de cancro e doenças neurológicas pelo que, a falta de regulamentação eficaz sobre estes compostos poderá custear um preço social elevado. Estudos recentes revelam que os efeitos adversos para a saúde decorrentes da exposição aos alteradores endócrinos custam à União Europeia mais de 163 mil milhões de euros por ano em despesas de saúde e perda de produtividade.

No entanto, em resposta a esta evidência, um pequeno grupo de cientistas – muitos com ligações bem documentadas à indústria – esforçou-se por fabricar um nível de dúvida e desconfiança pública que é desproporcional face ao nível de evidência atual. E certo é que conflitos de interesse podem agravar o problema, além da motivação comercial perentória da indústria.

O novo ano chegará e, enquanto o Parlamento Europeu e os países membros consideram a possibilidade de aplicar os critérios da Comissão Europeia, a Sociedade continuará a defender critérios que reflitam o estado da arte da ciência atual, e a Comunidade Científica internacional continuará em esforços para a procura de novas respostas sobre qual a repercussão para a saúde e quais os mecanismos de ação dos contaminantes ambientais.

Sabe-se já que estes compostos se encontram dispersos no ambiente (ar, água e alimentos), pelo que estamos continuamente expostos. São encontrados em produtos derivados do plástico; detergentes domésticos; pesticidas; tintas para o cabelo; produtos de cosmética; no fumo do cigarro, entre outros. O consumo de alimentos contaminados constitui uma das principais fontes dos alteradores endócrinos e alguns deles estão maioritariamente presentes na parte lipídica do alimento, ou seja, na gordura. E é reconhecida a existência de determinadas fases no ciclo de vida de maior vulnerabilidade à ação de mecanismos desreguladores – adicionalmente à exposição na idade adulta, a exposição perinatal, pelo seu potencial efeito programador no metabolismo, poderá contribuir para o desenvolvimento e agravamento da patologia metabólica na infância e na vida adulta.

Por tudo isto, e baseados no princípio da precaução não alarmista, sublinhamos a necessidade de consciencialização quanto à extensão da exposição populacional e dos possíveis efeitos destes compostos num contexto de Saúde Pública.

Assim, é premente a adoção de estratégias que permitam reduzir a sua exposição, nomeadamente: recuperar o padrão alimentar característico da Dieta Mediterrânica – a utilização abundante de produtos de origem vegetal, alimentos pouco processados, frescos, da época e locais, assim como quantidades moderadas de carne poderá prevenir a exposição a estes contaminantes; controlar o peso – as grandes e rápidas oscilações de peso podem ser mais perigosas do que manter o peso excessivo (a perda de peso favorece a libertação dos compostos acumulados na gordura corporal para o sangue, e pode aumentar o risco de doença metabólica); reduzir o consumo de alimentos processados e privilegiar os alimentos de produção menos intensiva – são habitualmente embalados e ricos em gordura (onde estão presentes a maior parte dos contaminantes), e desta forma excelentes veículos para os alteradores endócrinos; evitar acondicionar alimentos/refeições quentes em recipientes plásticos e utilizar a embalagem no momento do aquecimento em banho-maria, micro-ondas ou outro qualquer – pode-se, por exemplo, usar embalagens de plástico para reservar e transportar os alimentos/ refeições, mas apenas deve ser transferido para este tipo de embalagem depois de arrefecido; promover a leitura atenta dos rótulos – muitos dos compostos já aparecem descritos no rótulo dos alimentos/cosméticos (ex: bisfenol A, ftalatos, parabenos…); evitar o uso de pesticidas em casa, no quintal ou nos animais de estimação – usar iscas ou armadilhas em vez disso, para manter a casa especialmente limpa para evitar formigas ou infestações de baratas; e por fim educar-se sobre os alteradores endócrinos, e educar a família e amigos.

Diana Teixeira,
Professora Adjunta UAlg
Investigadora do grupo ProNutri, CINTESIS

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