De Michoacán a Odemira: quando aquilo que comemos custa a engolir 1166

O recente surto de COVID19 no concelho de Odemira trouxe para as televisões e primeiras páginas dos jornais as condições de vida de muitos trabalhadores rurais, que labutam diariamente para termos na mesa os tão desejados frutos vermelhos. Para muitos consumidores, foi um momento de revelação: afinal, as doces bagas podem ter um lado amargo. A situação é complexa, como alertam há muito tempo autarcas, associações ambientais e os próprios produtores hortofrutícolas, com vários fatores a ter em consideração (que vão da demografia à burocracia dos processos de licenciamento). Mas, para lá do mediatismo, um aspeto em particular merece atenção: a pressão dos consumidores. À semelhança do que acontece com outros bens de consumo, os consumidores hoje não querem compromissos: exigem disponibilidade permanente de uma variedade enorme de alimentos, durante todo o ano, a baixo custo e de forma conveniente. Pode parecer legítimo, mas se pensarmos no que é necessário para ter morangos à mesa em dezembro, tem de haver um preço a pagar – invisível na prateleira do supermercado, mas pago pelo meio ambiente ou pelas pessoas que trabalham nas estufas.

Costuma dizer-se que o “cliente tem sempre razão”. Isso tem levado toda a indústria agroalimentar e moderna distribuição a um esforço tremendo para satisfazer as demandas dos consumidores, inovando nos processos de produção, otimizando a conservação dos alimentos e acelerando a distribuição. É um feito notável manter os supermercados permanentemente abastecidos (como se viu durante estes mais de 12 meses de pandemia), mas os consumidores rapidamente se habituam e exigem mais, muitas vezes sem qualquer razoabilidade. De tal modo, que são já várias as iniciativas que procuram sensibilizar para um consumo mais responsável: recentemente, uma cadeia francesa anunciou que deixaria de vender morangos em janeiro; desde 2013, a cooperativa Fruta Feia evita que 15 toneladas de fruta acabem no lixo todas as semanas, apenas porque não têm o aspeto perfeito; e um pouco por toda a cadeia alimentar, multiplicam-se os esforços para práticas mais sustentáveis, do cacau ao café, passando pelo pescado ou ovos. Mas apesar de todos estes esforços, a última palavra é do consumidor: enquanto os abacates estiverem na moda e toda a gente os quiser fotografar no Instagram, a pressão ambiental e social em lugares como Michoacán, no México, não vai abrandar.

Na encruzilhada de todos estes fatores, está o nutricionista. Se os benefícios nutricionais de framboesas e abacates são reconhecidos, o nutricionista também sabe que esses mesmos nutrientes podem ser encontrados noutros alimentos. O respeito pela sazonalidade e origem dos alimentos tem de ser integrado na prática dos nutricionistas, não só por questões de sustentabilidade, mas também pela influência no perfil nutricional dos alimentos. Cada vez mais, o nutricionista tem de se debruçar sobre a origem e produção dos alimentos, para conhecer a sua variabilidade nutricional: ao contrário das tabelas de informação nutricional (que nos apresentam valores médios, estáticos), os frutos e legumes variam a sua composição em função da época do ano e origem. Os nutricionistas podem, assim, dar um impulso importante às mais de 100 variedades de frutas portuguesas desconhecidas do grande público ou incentivar o consumo de legumes e leguminosas locais (e as excelentes sopas que originam!). Sem entrar em radicalismos (basta pensar que muitos dos alimentos da Dieta Mediterrânica, como o tomate ou a batata, vieram do outro lado do Atlântico), é preciso conciliar nutrição e sustentabilidade. Afinal de contas, uma maçã Camoesa, uma pêra D. Joaquina ou um melão da Amareleja são igualmente nutritivos, mas sem as amarguras dos sabores de outras paragens.

Rodrigo Abreu
Nutricionista – Managing Partner na Rodrigo Abreu & Associados
Fundador do Atelier de Nutrição

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