O que esconde a Matéria Escura nutricional? 866

Em Astronomia, o termo “matéria escura” (dark matter em inglês) descreve a porção de matéria que compõe o universo, mas que não é visível. Sabe-se que existe (pela ação da gravidade naquilo que conseguimos observar), mas não é visível ou quantificável. Recentemente, também na Nutrição o conceito de matéria escura tem vindo a ser discutido – afinal, quanto conhecemos dos compostos que constituem os alimentos e dos seus efeitos no organismo?

Para os nutricionistas, de uma maneira geral, a análise de um alimento começa pelo valor energético (calorias) e distribuição de macronutrientes. Avançando um pouco mais, poderá fazer-se um desdobramento desses macronutrientes (por exemplo, dos hidratos de carbono, quantos são açúcares simples) e uma análise ao teor de micronutrientes, como determinadas vitaminas ou minerais. Por fim, havendo algum interesse em particular, é possível que se procure a quantidade de algum nutriente mais específico (como a fibra), ou a presença de substâncias que queiramos evitar (por exemplo, cafeína) ou recomendar (como certos compostos antioxidantes). Mas para lá daquilo que vemos no quotidiano da prática clínica ou da rotulagem alimentar, há um enorme conjunto de compostos que integram a composição dos alimentos. É essa vasta panóplia de substâncias que ingerimos diariamente, certamente com efeitos na digestibilidade, absorção e saúde, que se começa agora a revelar – a matéria escura nutricional.

Vejamos o caso de alimentos “simples” como a cebola, a alface ou o café. Que atenção lhes damos, por exemplo, quando estamos a criar planos alimentares? Muito pouca, quase certamente, já que o seu valor calórico é irrelevante e é improvável considerar umas folhas de alface como contribuinte significativo de vitaminas. No entanto, estima-se que um dente de alho cru possa ter mais de 2300 compostos nutricionais, estando listados nas bases de dados habituais (como a National Nutrient Database for Standard Reference da USDA) apenas cerca de 70. Numa folha de alface, os suportes de informação nutricional mais comuns apresentam-nos água e pouco mais na sua constituição. Mas em bases de dados como a FooDB (www.foodb.ca, financiada pelo governo canadiano com vista ao conhecimento aprofundado da metabolómica humana), são identificados perto de 4000 compostos. É uma quantidade massiva de informação sobre a composição dos alimentos, que pode abalar a forma como achamos que os conhecemos! Mas a listagem de todas estas substâncias, uma tarefa enorme, é apenas o começo. O maior desafio será estudar os seus efeitos no organismo, por exemplo, ao nível celular ou nas bactérias que habitam o nosso intestino. Algumas das perguntas que brevemente nos iremos colocar vão no sentido de perceber de que forma estas substâncias podem ter efeitos benéficos ou protetores da nossa saúde. Ou, se pelo contrário, representam riscos aumentados para o desenvolvimento de determinadas doenças.

Embora haja quem afirme que só conhecemos perto de 1% das substâncias que ingerimos, também existem críticos da importância dada à matéria escura nutricional. No entanto, se fizermos um paralelismo com o mapeamento do genoma humano e suas aplicações práticas, é fácil perceber o potencial interesse na descoberta destes compostos e no estudo do seu impacto na saúde. Aliás, com os avanços nos sistemas de IA e big data, não deverá tardar muito até que a matéria escura nutricional comece a revelar alguns dos seus segredos e este assunto se torne uma das grandes áreas de estudo nas Ciências da Nutrição.

Por Rodrigo Abreu
Nutricionista – Managing Partner na Rodrigo Abreu & Associados
Fundador do Atelier de Nutrição

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