O papel das instituições de ensino superior na prevenção da doença cardiovascular 10768

Apesar de nas últimas quatro décadas se terem verificado alguns avanços com vista à redução da morbilidade e mortalidade por doença cardiovascular (DCV), esta continua a ser a principal causa de morte em todo o mundo, incluindo em Portugal. O que é menos reconhecido é que pelo menos metade do que foi alcançado em termos de melhoria nos resultados da DCV está relacionado com o maior acesso a intervenções e procedimentos mais eficazes, graças ao contínuo desenvolvimento tecnológico. Desta forma os doentes, sobretudo os que apresentam DCV mais grave como doença aterosclerótica e insuficiência cardíaca, vivem mais e melhor. Por sua vez, a influência do investimento na prevenção primária é menor.

Embora o tratamento agudo de doenças como o enfarte agudo do miocárdio tenha melhorado, com redução da mortalidade precoce, estes doentes apresentam um elevado risco de incapacidade e necessidades constantes de cuidados de saúde. Estes cuidados estão associados ao aumento dos custos em saúde e a uma enorme pressão sobre o sistema de saúde, que apresenta uma capacidade instalada manifestamente insuficiente para dar resposta a todos os doentes. Mais ainda, é notória a incapacidade dos sistemas de saúde suportarem e garantirem o acesso atempado a diversas intervenções terapêuticas, particularmente caras e muitas vezes com impacto modesto na redução do risco. Além disso, a evidência científica tem demonstrado que os ganhos anteriormente alcançados pela melhoria no diagnóstico e tratamento da DCV estão hoje ameaçados pelo grande crescimento da prevalência de doenças crónicas como a obesidade e a diabetes.

Tudo isto abriu a discussão sobre a necessidade urgente de se investir em intervenções estruturadas e abrangentes, assentes na mudança dos estilos de vida, para prevenir a DCV. De facto, é crucial mudar este paradigma para que se possa cumprir a promessa de melhorar a saúde cardiovascular (CV) na população em geral. Dito de outra forma, a verdadeira revolução na prevenção da DCV ocorrerá quando os decisores políticos priorizarem um maior investimento em recursos e estruturas organizadas para atuar ao nível da prevenção (promoção da saúde, prevenção primária e secundária). Mas não precisamos apenas do compromisso dos decisores políticos. Precisamos da atuação e vigilância da saúde pública e dos profissionais mais capacitados nos diferentes níveis de prestação de cuidados de saúde, trabalhando em maior articulação e com intervenções verdadeiramente multidisciplinares.

Com os avanços na investigação básica e clínica, epidemiologia, genética, terapêutica farmacológica, avaliação e estratificação de risco CV, será exigido aos profissionais de saúde do futuro formação, treino e experiência, para além do que é já oferecido atualmente. É essencial ter profissionais, de todas as áreas, mais capacitados, apostando no robustecimento da formação pré- e pós-graduada na área da prevenção CV. Só assim será possível efetivarmos a enorme oportunidade de fazer a transição do foco na intervenção na doença, para a sua prevenção. Se, por um lado, as questões relacionadas com a prevenção primária e secundária estão a tornar-se cada vez mais complexas, por outro, temos cada vez mais pessoas a procurar aconselhamento especializado na avaliação e controlo do risco de DCV.

Como docentes de uma Escola Médica sabemos que é fundamental que os alunos dos cursos da área da saúde tenham presente nos seus planos curriculares, e o mais precocemente possível, temáticas como bioquímica do metabolismo, biologia vascular, genética, epidemiologia CV, alimentação e nutrição, fisiologia e prescrição de exercício físico, hipertensão, diabetes, obesidade, técnicas não invasivas de imagem para deteção de aterosclerose, terapia farmacológica, reabilitação cardíaca, cessação tabágica e, sobretudo, a promoção da saúde e prevenção da doença através da mudança dos estilos de vida.

Neste âmbito, a NMS, nas suas diversas ofertas formativas, tanto pré- como pós-graduadas, nas áreas da Medicina e das Ciências da Nutrição, tem procurado fazer a diferença. Focada e a investir na medicina preventiva, a NMS tem privilegiado a articulação do ensino médico e de nutrição, assente na medicina dos 4Ps – Predição, Prevenção, Personalização e Participação. Ou seja, preparamos os nossos alunos para intervirem com ferramentas genéticas, metabólicas e de estilo de vida, para melhorar a eficácia na prevenção primária, tratamento e prevenção das complicações das doenças da era moderna, como as doenças cardiovasculares.

Mas, para de facto fazer face a este problema de saúde pública, não podemos ter apenas profissionais de saúde capacitados e um sistema de saúde muito bem preparado e com capacidade de resposta instalada. Primeiro porque muito provavelmente nunca vamos ter um sistema de saúde que permita dar resposta a todas as necessidades, se pensarmos que morrem anualmente em Portugal cerca de 35 mil pessoas por DCV, e que 68% da população apresenta dois ou mais fatores de risco para DCV, e 22% quatro ou mais. Assim precisamos de políticas e medidas de saúde pública direcionadas para atuar ao nível da prevenção e de profissionais capacitados. As políticas públicas nesta área não devem ser apenas medidas isoladas de prevenção, mas medidas devidamente integradas e com aplicabilidade prática no dia a dia dos profissionais de saúde que estratificam o risco ou avaliam pessoas com DCV. A verdade é que se não construirmos um ambiente que seja mais promotor e facilitador de escolhas alimentares saudáveis e da prática regular de exercício físico, o trabalho que os profissionais de saúde fazem com o doente individualmente não terá o sucesso desejado. Se não conseguirmos criar estas condições, isto é, ambientes mais favoráveis e diferentes dos que existem na atualidade, que são obesogénicos, estaremos a falhar enquanto sociedade e a colocar a responsabilidade no individuo, quando não é só dele, mas de todos nós.

Contem com a NMS, como Escola Médica alinhada com um ecossistema promotor da saúde.

Texto de:

Diana Teixeira, Nutricionista especialista em Nutrição Clínica; Professora Auxiliar da NOVA Medical School|Faculdade de Ciências Médicas, UNL e Investigadora no Comprehensive Health Research Centre (CHRC)

Hélder Dores, Médico Cardiologista; Professor Auxiliar Convidado da NOVA Medical School|Faculdade de Ciências Médicas, UNL e Investigador no Comprehensive Health Research Centre (CHRC)

 

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