Nós não somos normais 0 726

Em meados dos anos 90, quando ainda era estudante do curso de Nutrição, um amigo convidou-me para fazer parte de um painel de estudos de mercado. Basicamente, teria de ir a umas reuniões ver anúncios ou produtos, e responder a algumas perguntas. Pareceu-me uma forma fácil e honesta de reforçar o orçamento de estudante, por isso foi com entusiasmo que me dirigi à primeira chamada que recebi da dita empresa. Numa sala de reuniões, com mais 10 pessoas, a responsável começou por pedir a todos na sala que se apresentassem. Quando, chegada a minha vez, me apresentei como estudante de Nutrição, a senhora pediu uma pausa e saiu da sala com ar apreensivo. Voltou uns minutos depois e informou-me que não poderia participar. Tratava-se de um estudo de mercado sobre produtos alimentares e o facto de ser estudante de Nutrição enviesaria a minha opinião. Foi a primeira vez que percebi que nós, nutricionistas, não somos normais.

De facto, todos aqueles ligados à Nutrição não são consumidores “normais”. Desde logo, porque o nosso grau de exigência para com qualquer produto alimentar vai além das preocupações da grande maioria dos consumidores: preço, sabor e comodidade (mesmo que nalguns inquéritos respondam outras coisas…). Os nutricionistas preocupam-se, desde sempre, com o perfil nutricional. Há 20 anos, o hábito de pegar numa embalagem e virá-la ao contrário para consultar a lista de ingredientes ou a tabela de informação nutricional, denunciava qualquer nutricionista no supermercado! Hoje, felizmente, são cada vez mais as pessoas que o fazem também, embora nem sempre isso acabe por determinar o que põem no carrinho de compras.

É importante termos noção deste nosso viés, sobretudo sempre que lidamos com pacientes ou stakeholders menos sensibilizados para estes temas. Aquilo que para nós parece elementar ou prioritário, na realidade pode não estar no topo das preocupações do nosso interlocutor. Por exemplo, quando nos impressionamos com pessoas com obesidade que continuam a optar por escolhas mais calóricas (porque acham esses alimentos baratos ou saborosos), esquecemos que a nossa formação nos impele a gostar de alimentos mais “saudáveis”. Custa-nos entender como é que alguém naquela situação, não prefere outras escolhas. Quando criticamos ementas com mais sal ou gordura, devemos considerar que talvez os destinatários dessas refeições simplesmente não estejam interessados em comida mais equilibrada. Pelo menos, quando vão a determinado restaurante em particular…

Entender que o nosso conhecimento é válido e útil, mas que a forma como o aplicamos deve ser ajustada à realidade com que lidamos, é fundamental para o sucesso das nossas intervenções – tanto a nível individual (por exemplo, na mudança de hábitos dos nossos pacientes), como coletivo (quando avaliamos ementas ou produtos alimentares). Para sermos agentes de mudanças positivas, precisamos ter noção do nosso viés, e saber, de forma empática, ajustar o nosso discurso e atuação. Caso contrário, corremos o risco de ficar a falar sozinhos. Cheios de razão, mas sem ninguém para nos ouvir…

Rodrigo Abreu
Nutricionista – Managing Partner na Rodrigo Abreu & Associados
Fundador do Atelier de Nutrição®

Envie este conteúdo a outra pessoa