Refeições escolares: sem investimento, não há política pública

Por Liliana Sousa, bastonária da Ordem dos Nutricionistas. 

 

As refeições escolares não são matéria simples, nem devem ser usadas como instrumento político de qualquer natureza.

Se é verdade que a garantia do acesso a uma refeição completa em âmbito escolar não é um conceito novo e representa, em si mesma, um direito das crianças e jovens em idade escolar a, pelo menos, uma refeição equilibrada por dia, não é menos verdade que nem sempre a qualidade nutricional de matérias-primas e produtos confecionados é privilegiada e considerada como fator indispensável para o seu fornecimento.

A Ordem dos Nutricionistas tem vindo a pronunciar-se e a transmitir a sua preocupação com as questões relacionadas com a segurança e qualidade das refeições servidas nas escolas, seja através de diferentes visitas realizadas às autarquias do país, declarações prestadas à comunicação social ou, mais recentemente, em contexto de reunião com a Associação Nacional de Municípios Portugueses, preocupações partilhadas também por nutricionistas que desempenham funções nos municípios, dirigentes autárquicos e responsáveis pelos pelouros relacionados. Em comum, um aspeto que nunca fica de fora da discussão: o valor demasiado baixo do financiamento das refeições escolares pelo Estado, muitas vezes reforçado com verbas disponibilizadas pelas autarquias, de modo a salvaguardar que concursos não fiquem desertos ou se possam garantir níveis de qualidade superior. Para além disso, cientes dessa realidade, alguns municípios implementaram iniciativas complementares, como o fornecimento de lanches saudáveis aos seus alunos.

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Não tenhamos dúvidas que as refeições escolares só melhorarão com um investimento sério e responsável. A alimentação escolar é uma medida fundamental de saúde pública, que não pode ser secundarizada. Através dela, garantem-se pilares fundamentais, como a promoção de hábitos alimentares saudáveis, a prevenção de doenças evitáveis e a redução de desigualdades sociais.

O papel dos nutricionistas é fundamental em todo o processo, não só no que se refere ao seu envolvimento na elaboração e supervisão das ementas escolares, mas também, não menos importante, no acompanhamento técnico contínuo e presencial nas escolas. Por esse motivo, a Ordem dos Nutricionistas defende a integração dos nutricionistas no sistema escolar, como pivots de interligação com os diferentes intervenientes no processo, desde as empresas de restauração coletiva, aos nutricionistas dos municípios e à própria comunidade escolar.

Se, por um lado, a qualidade das refeições não pode ser descurada, independentemente das decisões políticas, por outro, tem de estar salvaguardado o acesso equitativo às refeições por todos os estudantes.

Há ainda outro fator de que se fala muito pouco – a adesão às refeições escolares. De que adianta garantir qualidade, se os alunos não comem nas escolas? De que serve o investimento público, se a escolha exclui a ementa escolar? As estratégias têm inevitavelmente de passar pelo conhecimento dos comportamentos alimentares, identificação dos fatores que condicionam o consumo de produtos vendidos fora das escolas e conhecimento exaustivo dos motivos que levam os alunos a não aceitar a oferta que a escola disponibiliza.

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A ação não pode limitar-se à aplicação de normas ou orientações; deve, acima de tudo, basear-se em estratégias práticas e exequíveis.

A gratuitidade das refeições, de forma transversal, é uma decisão política, antes de tudo, que não garante qualidade, nem adesão, por si só. Salvaguardando que as restantes premissas não são descuradas, o princípio da gratuitidade é legítimo, mas exige esforço financeiro, no âmbito do financiamento e da verba orçamental a prever para o efeito. A gratuitidade tem ainda o risco da perversão. O que é oferecido é, não raras vezes, desvalorizado e desperdiçado. Sendo o desperdício alimentar um dos maiores problemas da sociedade atual, medidas como esta devem ser refletidas e acompanhadas de ações preventivas, que minimizem o seu impacto e o risco de subversão.

Antes de tudo isso, é necessário distinguir aquilo que pode ser ganho real e efetivo do que pode condicionar má gestão e diminuição da qualidade das refeições.

Com efeito, a universalização reduz desigualdades e minimiza o estigma associado ao apoio social. Contudo, se a medida for implementada sem se garantir a qualidade das ementas, o cumprimento da execução e medidas contínuas de supervisão técnica, estaremos perante um perigo real de massificação de refeições, sem garantia de qualidade nutricional.

A discussão não deve, por isso, centrar-se no “ser gratuito ou não”, mas sim nas condições em que é feito e com que exigências. E, por esse motivo, o financiamento não pode ser deixado de fora da discussão. A questão não é quanto se investe, mas onde e como é feito esse investimento. A gratuitidade representa acesso; a qualidade e a segurança alimentar são uma decisão estrutural, que vai depender de um financiamento racional e adequado, seja ao nível dos recursos, seja de execução.

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Há quatro pontos críticos onde o investimento se revela essencial:

  1. Qualidade da matéria-prima;
  2. Recursos humanos qualificados;
  3. Infraestruturas e organização;
  4. Supervisão e monitorização dos processos.

Por conseguinte, o financiamento importa e é absolutamente essencial.

A alimentação escolar tem implicações diretas na saúde, no desenvolvimento e no desempenho escolar. Por esse motivo, o financiamento deve ser estável e adequado às necessidades identificadas. Se o financiamento é insuficiente, as consequências são óbvias: redução dos custos, diminuição da qualidade, aumento do desperdício. Por outro lado, quando o reforço financeiro é considerado uma prioridade, as refeições escolares deixam de ser apenas uma medida de apoio social e transformam-se numa medida de saúde pública, com retornos importantes, a médio e longo prazo.

Mais do que decidir quem acede, importa garantir o compromisso do que é servido e isso implica investimento, exigência e visão de longo prazo. Transformar uma boa medida numa medida boa é uma decisão política exigente e é nesse nível que se conseguirá distinguir uma iniciativa simbólica de uma política pública eficaz.

 

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