Por Pedro Queiroz, diretor-geral da Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA) e docente da Licenciatura em Ciências da Nutrição na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
Num mundo cada vez mais interdependente, a segurança alimentar deixou de ser apenas uma questão agrícola ou económica para se tornar um verdadeiro barómetro da estabilidade global. As recentes tensões geopolíticas no Médio Oriente, em particular envolvendo o Estreito de Ormuz, voltam a expor uma realidade muitas vezes ignorada: os sistemas alimentares globais são frágeis e profundamente dependentes de equilíbrios políticos que estão longe de ser garantidos.
Embora os conflitos armados tenham impactos diretos sobretudo a nível local, as suas consequências indiretas rapidamente se propagam à escala global. A subida dos preços da energia, a disrupção de rotas comerciais e a instabilidade dos mercados internacionais acabam por influenciar diretamente o custo e a disponibilidade dos alimentos. Para os consumidores europeus, estas dinâmicas traduzem-se quase de imediato em faturas mais elevadas no supermercado e numa maior incerteza quanto ao acesso a bens essenciais.
A relação entre energia e alimentação é particularmente evidente. O aumento dos preços dos combustíveis encarece o transporte de mercadorias, desde a produção até à distribuição. Ao mesmo tempo, perturbações em rotas estratégicas podem atrasar entregas e comprometer a frescura e a disponibilidade de produtos. Num sistema alimentar altamente globalizado, onde muitos países dependem de importações para satisfazer as suas necessidades internas, estas falhas têm um efeito dominó difícil de conter.
Os últimos anos forneceram exemplos claros dessa vulnerabilidade. A pandemia de COVID-19 revelou fragilidades estruturais nas cadeias de abastecimento, desde a escassez de mão-de-obra até aos bloqueios logísticos. O encalhe de um navio no Canal de Suez demonstrou como um único incidente pode afetar o comércio mundial. Já a invasão da Ucrânia pela Rússia teve consequências profundas nos mercados de cereais e fertilizantes, agravando a insegurança alimentar em várias regiões do planeta. Estes episódios não são exceções; são sinais de um sistema que opera no limite da sua resiliência.
Perante este cenário, torna-se evidente a necessidade de repensar a forma como organizamos e protegemos os sistemas alimentares. Não basta reagir a crises quando elas surgem; é essencial antecipar riscos e preparar respostas coordenadas. Isso implica adotar uma visão integrada, que reconheça as interdependências entre os diferentes intervenientes — desde agricultores e produtores até distribuidores, decisores políticos e consumidores.
A tecnologia pode desempenhar um papel decisivo neste processo. Ferramentas digitais de monitorização e simulação permitem identificar vulnerabilidades antes que estas se transformem em crises reais. Sistemas de alerta precoce, baseados em dados, podem ajudar a detetar sinais de risco e a orientar decisões mais informadas. No entanto, a eficácia destas soluções depende da sua adoção generalizada e, sobretudo, da partilha de informação entre os vários agentes do setor.
A cooperação é, aliás, um dos elementos mais críticos — e também mais difíceis de concretizar. A articulação entre entidades públicas e privadas continua a enfrentar obstáculos, desde a falta de confiança até à ausência de mecanismos eficazes de coordenação. Sem uma colaboração sólida, mesmo as melhores ferramentas tecnológicas terão um impacto limitado.
Num contexto internacional cada vez mais volátil, garantir a segurança alimentar exige mais do que boas intenções. Requer investimento, planeamento estratégico e uma mudança de paradigma que coloque a resiliência no centro das políticas públicas e das práticas empresariais. A alimentação não pode ser vista apenas como um produto de mercado; é um bem essencial, cuja estabilidade deve ser protegida com a mesma prioridade que outras infraestruturas críticas.
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Ignorar estes sinais seria um erro estratégico. As crises recentes demonstram que a disrupção pode surgir de forma inesperada e com consequências rápidas e profundas. Preparar os sistemas alimentares para um futuro incerto não é apenas uma opção prudente — é uma necessidade urgente.
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