O Auditório da Torre do Tombo, em Lisboa, reuniu, no dia 15 de abril, mais de uma centena de nutricionistas com o objetivo de discutir o presente e o futuro da sua profissão. Entre colegas, e com tempo e espaço para reflexões importantes, ficou a certeza de que a Nutrição é não só fundamental para o sistema de saúde, como também um garante da qualidade de vida dos cidadãos e ainda positiva para os cofres do Estado, que poupa com prevenção.
“Os momentos menos bons e bons são cíclicos, […] cabe-nos preservar a profissão”, declarou João Gouveia Martins, em representação da comissão organizadora. Na sessão de boas-vindas aos colegas, o nutricionista apontou para uma sala composta por profissionais com percursos diferentes, mas unidos por “uma preocupação igual, a nossa profissão”. Ao garantir que esta iniciativa – sem qualquer patrocínio e com entrada exclusiva por convite – não representava qualquer intenção político-associativa, começou por dar início aos trabalhos.
Sustentabilidade e coesão territorial
Na primeira mesa, afeta à “Nutrição como motor de desenvolvimento económico e sustentável“, foi discutido o papel do nutricionista no desenvolvimento do país. Com moderação de Ana Helena Pinto, fundadora da Nutrition for Happiness, e Paulo Niza, diretor delegado e coordenador do Serviço de Dietética e Nutrição da Santa Casa da Misericórdia de Lagos, contou com Catarina Sousa Guerreiro, coordenadora da Licenciatura em Ciências da Nutrição da FMUL, Helena Real, secretária-geral da Associação Portuguesa de Nutrição e docente universitária no IUCS-CESPU, e Sílvia Cunha, diretora do Departamento Municipal de Promoção de Saúde e Qualidade de Vida e Juventude na Câmara Municipal do Porto.
Com um olhar transversal sobre a sustentabilidade – económica, ambiental e social – Ana Helena Pinto deu o mote e Sílvia Cunha foi incisiva: “A sustentabilidade é um tema que deixou de ser setorial, mas estrutural“. A especialista comparou mesmo o papel dos nutricionistas ao nível local ao de um tradutor, enquanto alguém que representa um “elemento chave na tradução de ciência” em qualquer território, onde as políticas ganham vida.
Por sua vez, Helena Real aproveitou a deixa para reforçar esta ideia, conferindo-lhe um outro peso ao dar conta de que “para ser tradutor, [o nutricionista] tem de ser um bom comunicador“. A uniformização da mensagem científica, por oposição a narrativas contraditórias que baralham o consumidor ou os clientes, é por isso relevante. Por outro lado, deixou claro que, numa profissão que ainda se depara com precariedade laboral, “não podemos ficar à espera que nos venham buscar“, e cabe a todos e a qualquer um mostrar, por exemplo, às autarquias sem nutricionistas o valor do seu saber.
Por sua vez, Catarina Sousa Guerreiro deu conta de um desafio com que a Academia se depara: “mostrar o nosso papel na intersecção dos sistemas alimentares, económicos e tecnológicos”. Hoje, garante, os planos curriculares são mais completos e abrangentes nas áreas de atuação destes profissionais, mesmo quando se encontram mais direcionados para a área clínica. Em todo o caso, acredita que o ensino pós-graduado tem de começar a ganhar mais relevo para os profissionais.
Sobre aquele que representa uma grande preocupação para os nutricionistas do futuro – o estágio – Sílvia Cunha destaca o apreço dos mais jovens pelo contacto com a comunidade, mas ressalva que cabe às instituições que os recebem preparar uma experiência formativa no terreno enriquecedora. Já Helena Real vê este passo como uma entrada importante no mercado de trabalho e explica que “onde houver pessoas, um nutricionista pode trabalhar“. Ainda que seja desafiante manter os alunos a trabalhar nos locais onde estagiaram, como lembrou Catarina Sousa Guerreiro, a verdade é que, para a posteridade, “fica a semente”.
Nas empresas
No que ao setor empresarial diz respeito, o moderador Paulo Niza lembrou que a contratação de nutricionistas é um investimento e que a profissão não pode esperar por uma absorção orgânica por parte do mercado, devendo fazer-se ver e ouvir. Sílvia Cunha deu conta de que os consumidores são hoje mais exigentes e ávidos de informação, pelo que o Nutricionista pode ser a chave para, por exemplo, contribuir para uma rotulagem mais clara e para fomentar a Dieta Mediterrânica, ou não fosse o nosso país rico em tradição gastronómica.
Do lado da Academia, Catarina Sousa Guerreiro apontou à área de desenvolvimento de produto como um fator que tem levado a Indústria às faculdades, de forma a procurar “o know-how de como trazer para o mercado um produto melhor”. Helena Real não esqueceu a promoção da saúde no local de trabalho, onde “a nutrição começa a aparecer como uma área de interesse” para a captação e retenção de talento nas empresas.
Transição tecnológica
“Não tenhas medo da Inteligência Artificial, mas dos colegas que a usam“: foi desta forma que Sílvia Cunha endereçou uma das maiores mudanças de paradigma para a profissão – e para a sociedade em geral – para garantir que o futuro não será tão negativo quanto se pode pensar. “Nunca vamos ser substituídos pela tecnologia, ela vai ampliar a prática dos nutricionistas nas suas áreas de atuação”, afiançou. Uma vez que “a saúde vive nos locais onde as pessoas estão e a nutrição é fundamental para a saúde, os nutricionistas são os únicos posicionados para assegurarem” esta relação nos territórios.
Santa Maria da Feira: A nutrição que se faz à mesa e se aprende na escola
Pela ótica de Helena Real, as novas ferramentas digitais “vão-nos trazer tempo, um apoio”, mas cabe a cada profissional procurar a sua excelência, nomeadamente através da atualização formativa. Por outro lado, Catarina Sousa Guerreiro concorda que a profissão não será substituída, mas perspetiva que “muito do que fazemos vai ser substituído”. Por isso mesmo, “vamos ter de nos adaptar ao que a IA consegue fazer. Temos de entender e dominar, senão vamos ser substituídos” por outros profissionais com mais conhecimento. A formação nesta área suscita já muito interesse por parte de instituições e estudantes.
Modelos de gestão de saúde
A segunda e última mesa do dia, dedicada ao “Papel dos nutricionistas na reforma do sistema de saúde português“, contou com a moderação de Ana Brito Costa, nutricionista da Unidade Local de Saúde de São José e docente universitária da FMUL, Ana Rachid, fundadora dos Projetos Ana Rachid – Nutrição Infantil e Nutrition In Growth Conference, e Catarina Rosa Domingues, nutricionista do Hospital de Cascais.
No que ao primeiro tema – “Modelos de gestão de saúde” – diz respeito, Patrícia Almeida Nunes, diretora do Serviço de Dietética e Nutrição da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, deu conta dos vários modelos existentes para explicar que os melhores aspetos de cada um devem ser tidos em conta para um melhoramento coletivo. Em todo o caso, e para melhor gerir, são necessários dados. Um deles, o número necessário de nutricionistas, exige um olhar que vá além do número de camas nos estabelecimentos de saúde.
“Faltam-nos números“, acrescentou Andreia Ferreira, coordenadora da Unidade de Dietética e Nutrição do Hospital Lusíadas, para quem a Nutrição representa a área mais transversal de todas as especialidades. No mesmo sentido, Bruno Sousa, diretor do Serviço de Nutrição do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira, garantiu que “só chegamos à Administração se tivermos dados”, cabendo aos profissionais “fazer mais investigação a este nível para vermos o resultado da nossa intenção”.
“O futuro não é fazer mais consultas, é fazer menos”, atestou José Camolas, nutricionista da Unidade Local de Saúde de Santa Maria e docente universitário da Egas Moniz School of Health & Science e da FMUL. O especialista pegou na deixa do colega Hugo de Sousa Lopes, que havia, num momento de abertura à audiência, abordado a importância do nutricionista escolar, para acrescentar a ideia de um nutricionista de família como um desejo para o futuro. Assim sendo, antecipa um modelo de ecossistema de saúde, onde a prescrição de lazer e de apoio social podem fazer a diferença.
A autonomia profissional é um desígnio – com o pedido de análises à cabeça – e, por isso mesmo, Patrícia Almeida Nunes deu conta dos decretos onde o Nutricionista não é tido em conta no seio de equipas multidisciplinares. Bruno Sousa e Andreia Ferreira foram mais longe e recordaram que o doente tem de passar por outros profissionais de saúde, nomeadamente o médico, para que o nutricionista tenha acesso aos dados necessários ao seu trabalho.
Reformas, inovação e comunicação
A meio da segunda mesa, com o tema 2 – Reforma dos sistemas de saúde – José Camolas recordou a proteção da saúde inscrita na Constituição da República Portuguesa, ao pedir mais recursos, mas também um bom uso daqueles que estão disponíveis. Por exemplo, Patrícia Almeida Nunes abordou a definição de estratégias entre público e privado e o facto de que poucos nutricionistas elaboram a alta hospitalar. Bruno Sousa e Andreia Ferreira também desenvolveram a articulação entre os setores público e privado, com a duplicação de exames, pelo que deve haver “uma uniformização de cuidados e registos”.
Finalmente, o último tema – “Comunicação em Nutrição no contexto atual e no futuro” – estabeleceu as redes sociais como um veículo de transmissão de informação a grande escala, que poderá ser a chave na promoção da saúde e de um estilo de vida saudável. Neste campo, os profissionais devem ser fontes credíveis baseadas na evidência científica, com uma comunicação clara, ética e acessível ao público.
O reforço da legislação relativa à publicidade alimentar será, neste campo, relevante, assim como o combate à partilha de conteúdos por parte de indivíduos e profissionais não inscritos na Ordem dos Nutricionistas, bem como a certeza de que as ferramentas de IA não substituem o julgamento humano e a experiência profissional.
“Um dia construtivo e bonito para a profissão”
A comissão organizadora da iniciativa “Debates que alimentam o futuro da nutrição” contou com Ana Brito Costa, Ana Helena Pinto, Ana Rachid, Catarina Rosa Domingues, Catarina Trindade, Gabriel Mateus, João Gouveia Martins, Maria do Carmo Sequeira e Paulo Niza.
Em declarações à VIVER SAUDÁVEL, João Gouveia Martins fez “um balanço muito positivo” desta iniciativa que, para já, será única. “As reações positivas e com enorme entusiasmo de vários colegas presentes foram verdadeiramente inspiradoras e reconfortantes para nós. Estamos muito felizes, por nós, colegas, e pela nossa profissão”, razão pela qual este “foi um dia construtivo e bonito para a profissão“, como era pretendido.
Os objetivos a que se propuseram – refletir e procurar soluções para o papel do Nutricionista nas reformas dos sistemas económico e da saúde, proporcionando um momento digno e prestigiante para a profissão – foram cumpridos, assegura. “Criámos as condições para esse efeito, por termos garantido um espaço adequado, digno e emblemático como a Torre do Tombo, e por termos delineado duas mesas com colegas intervenientes e moderadores competentes que promoveram um debate dinâmico e construtivo entre os colegas“, disse ainda.
A iniciativa, de caráter exclusivamente presencial, contou com 110 nutricionistas, incluindo cerca de uma dezena de estudantes de nutrição ou membros estagiários à Ordem dos Nutricionistas. Foram estabelecidos cerca de 390 convites, de acordo com a lotação do auditório.




