O que nos dizem os Estudantes? Resultados da Auscultação da ANEN

Por Alice Nobre (coordenadora) e Filipa Matos e Joana Costa (vogais), do Departamento de Política e Relações Externas da Associação Nacional de Estudantes de Nutrição (ANEN).

 

A Auscultação Nacional aos Estudantes de Nutrição 2026, promovida pela Associação Nacional de Estudantes de Nutrição (ANEN), reuniu 145 participantes de diferentes Instituições de Ensino Superior do país, com o objetivo de identificar as suas reais necessidades e perspetivas. Os resultados mostram que os temas destacados pelos estudantes passam pela organização do trabalho entre Unidades Curriculares, pelos métodos de avaliação, pelo equilíbrio entre vida académica e pessoal e pela necessidade de um maior contacto com a prática profissional ao longo do ciclo de estudos.

Entre os aspetos mais referidos pelos participantes, o volume de trabalho surge como uma das principais fontes de preocupação. Embora reconheçam a exigência inerente a um curso da área da saúde, 73,1% classificam o volume de trabalho ao longo da Licenciatura como “elevado” ou “muito elevado”. No entanto, as respostas qualitativas sugerem que o problema não reside apenas na quantidade de trabalho, mas sobretudo na forma como este é distribuído ao longo do semestre. Muitos estudantes referem períodos particularmente intensos, marcados pela acumulação de frequências, exames, apresentações e trabalhos, o que dificulta uma gestão equilibrada do tempo e do estudo.

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Esta perceção é reforçada pelo facto de 63,4% dos inquiridos considerarem a organização pedagógica inadequada. Os estudantes defendem uma maior articulação entre unidades curriculares e um planeamento mais harmonizado das avaliações, permitindo não só reduzir momentos de maior pressão, mas também favorecer uma aprendizagem mais consistente e aprofundada.

As respostas recolhidas revelam igualmente uma reflexão crítica sobre os métodos de avaliação atualmente utilizados. Apesar de a maioria dos estudantes afirmar concordar genericamente com os modelos existentes, muitos consideram que a forte dependência de exames finais nem sempre permite avaliar de forma adequada competências fundamentais para o exercício profissional, como a capacidade de comunicação, o pensamento crítico, a resolução de problemas ou a aplicação prática dos conhecimentos. Nesse sentido, existe uma valorização crescente de modelos de avaliação contínua e diversificada, capazes de reconhecer o trabalho desenvolvido ao longo de todo o semestre.

Outro tema que emerge de forma consistente é a necessidade de reforçar o contacto prático durante o período de formação dos estudantes. Cerca de 71% dos estudantes consideram que as oportunidades de aplicação prática dos conhecimentos são insuficientes. As áreas apontadas como aquelas que necessitam de mais contacto prático são a Alimentação Coletiva e Restauração, a Nutrição no Desporto e a Indústria Alimentar. Os inquiridos destacam a importância de experiências que permitam conhecer diferentes contextos de atuação profissional, facilitando a transição entre a Licenciatura e o mercado de trabalho.

Esta preocupação surge associada a alguma incerteza relativamente ao futuro profissional. Nas respostas abertas, vários estudantes referem sentir falta de uma maior aproximação à realidade do exercício da profissão e às diversas oportunidades existentes na área da Nutrição. Muitos referem que um contacto mais precoce com contextos reais de trabalho poderia contribuir para aumentar a confiança e a preparação para os desafios futuros.

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O bem-estar dos estudantes ao longo do percurso académico é outra dimensão em destaque. Quase metade dos participantes classifica a sua qualidade de sono como baixa e uma percentagem significativa refere alterações nos seus hábitos alimentares após a entrada no Ensino Superior. Estes resultados reforçam a importância de ambientes que promovam não apenas o sucesso académico, mas também o bem-estar de todos os estudantes.

Os trabalhadores-estudantes merecem igualmente atenção particular. Representando 11% da amostra, este grupo relata dificuldades acrescidas na conciliação entre responsabilidades profissionais e académicas. Nas respostas recolhidas, surgem referências à necessidade de maior flexibilidade e de mecanismos que permitam compatibilizar diferentes realidades sem comprometer a qualidade do percurso formativo.

Apesar dos desafios identificados, o estudo transmite uma mensagem globalmente positiva sobre a relação dos estudantes com a sua área de estudo. A esmagadora maioria afirma pretender exercer a profissão após concluir a Licenciatura, evidenciando uma forte identificação com a área da Nutrição.

Os resultados desta Auscultação representam uma oportunidade para refletir sobre a formação em Nutrição nas Instituições de Ensino Superior portuguesas. Os estudantes mostram-se comprometidos com a sua formação e expõem propostas para a tornar mais equilibrada e mais próxima das exigências da futura profissão. O desafio passa agora por transformar esta reflexão em ações que contribuam para preparar, da melhor forma, os futuros nutricionistas.

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