Ultraprocessados: uma narrativa ideológica 542

Artigo de opinião originalmente publicado na edição #99 da revista VIVER SAUDÁVEL. Por Pedro Queiroz, diretor-geral da Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA) e docente da Licenciatura em Ciências da Nutrição na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.  

 

O debate em torno dos chamados alimentos “ultraprocessados” voltou a ganhar destaque, na sequência da recente publicação de um conjunto de artigos interligados na revista The Lancet, que procuram influenciar o discurso das políticas de saúde pública.

Começo por reconhecer a relevância da investigação científica sobre os padrões alimentares e a sua relação com a saúde, desde que esta conduza à produção de evidências robustas e promova o diálogo e a cooperação entre as entidades do sistema científico e os agentes económicos.

Contudo, torna-se cada vez mais evidente que uma parte significativa deste debate tem sido conduzida através de uma narrativa excessivamente simplista e de matriz ideológica, com laivos de marxismo, que tende a apresentar os “ultraprocessados” como uma categoria homogénea e intrinsecamente nociva. Este tipo de abordagem não só empobrece a discussão científica, como pode também estar associada a incentivos que privilegiam discursos alarmistas em detrimento do rigor analítico.

Passemos aos factos. Um dos problemas centrais reside no próprio conceito de “ultraprocessado”, popularizado pela classificação NOVA e pelos seus principais promotores. Na sua formulação, esta classificação começa por afastar a nutrição enquanto critério central, optando antes por assentar em preconceitos explícitos contra grandes empresas, marcas comerciais, publicidade e a lógica do lucro e do mercado, partindo da premissa de que este contexto é incompatível com a produção de alimentos inovadores, seguros e nutricionalmente adequados. Nada poderia ser mais cínico.

DGS troca informação por confusão

Como consequência, produtos profundamente distintos são agrupados na mesma categoria, apesar de apresentarem impactos nutricionais e metabólicos muito diferentes, amplamente documentados por estudos epidemiológicos, bioquímicos e de intervenção. Uma parte substancial da alegada evidência utilizada para sustentar afirmações categóricas sobre os “ultraprocessados” baseia-se em estudos observacionais altamente vulneráveis a enviesamentos.

Fatores como rendimento, nível de escolaridade, estilos de vida, padrões culturais de alimentação e acesso a cuidados de saúde são difíceis de isolar e podem explicar uma parcela significativa das associações observadas. Converter correlações estatísticas em narrativas causais inequívocas pode ser cientificamente injustificado, ainda que politicamente conveniente.

É neste ponto que a crítica institucional assume particular relevância. Os sistemas de financiamento público tendem a favorecer investigações alinhadas com agendas de saúde pública previamente estabelecidas, sobretudo quando estas oferecem mensagens simples, mobilizadoras e mediaticamente eficazes.

A demonização dos “ultraprocessados” funciona bem neste plano: cria um “vilão” facilmente identificável, legitima intervenções estatais de largo alcance e reforça a autoridade de determinados grupos científicos. O risco é que a ciência passe a confirmar narrativas pré-existentes, em vez de as submeter a um escrutínio crítico rigoroso.

Lisboa, Capital da Nutrição 2026

Outro problema, raramente abordado, prende-se com a confusão entre processamento e formulação. O processamento alimentar é uma realidade inevitável nas sociedades modernas e, em muitos casos, responsável por ganhos significativos em segurança alimentar e dos alimentos, conservação, acessibilidade e até qualidade nutricional. A questão verdadeiramente relevante não é se um alimento é processado, mas sim como é formulado, em que quantidade é consumido e em que padrão alimentar se integra. Ignorar esta distinção conduz a recomendações pouco realistas e potencialmente injustas do ponto de vista social.

Importa, ainda assim, deixar claro que a crítica aos excessos do discurso sobre os “ultraprocessados” não equivale a negar os problemas reais da alimentação contemporânea. Significa, isso sim, defender uma ciência mais rigorosa, conceptualmente clara e intelectualmente honesta. Quando categorias vagas substituem a análise detalhada e quando os mecanismos de financiamento recompensam narrativas ideológicas, a ciência perde autonomia e credibilidade. E sem essa credibilidade, nem a saúde pública nem a confiança dos consumidores saem beneficiadas.