Nutricionista tira férias? 1164

É de novo agosto e tempo de férias para muitos. Tempo para dias de praia, refeições entre família ou amigos e quebra nas rotinas habituais. Para os nutricionistas que trabalham em Clínica, é também altura de abrandar o ritmo, depois do pico de procura que sempre antecede os meses de verão. Mas poderá dizer-se que os nutricionistas realmente tiram férias? Alguém que cuida da alimentação e estado nutricional dos outros, alguma vez “desliga” do assunto, mesmo que não esteja a dar consultas? Conseguirão os nutricionistas não reparar nas bolas de Berlim saboreadas no areal ou nas cervejas e petiscos que enchem as mesas das esplanadas?

Esta é talvez uma das “maldições” da nossa profissão – se a maioria das pessoas faz as suas refeições diariamente sem grande reflexão naquilo que come, os nutricionistas não conseguem olhar apenas para o sabor, apresentação, preço ou conveniência daquilo que ingerem. É como se quando olhamos para um alimento ou refeição, para além do aspeto, víssemos sempre uma tabela de informação nutricional. Um nutricionista está a preparar merenda para a praia e pensa na infinidade de combinações possíveis: “faço sandes com uma lata de atum ao natural (27 g de proteína) ou com um queijo mozarela (24 g de proteína)?”; “Levo uma saqueta de bolachas secas (92 kcal) ou uma barrita de cereais (89 kcal)? E se fosse uma caixinha com amêndoas?”. Mesmo de férias, o cérebro do nutricionista parece ter sempre um software de cálculo de macros e calorias a funcionar em segundo plano. Vamos jantar fora com amigos e esta calculadora insiste em intrometer-se quando lemos o menu… E mesmo que se tente ignorar as calorias ingeridas porque, afinal, estamos de férias, fica sempre um resquício de nutricionista: “Amanhã dou uma corridinha para compensar!”.

Quem lida diariamente com a elaboração de planos alimentares fica de tal forma automatizado a pensar nos alimentos como peças de um puzzle nutricional, que se torna difícil ignorar por completo a composição dos alimentos. Mas a este automatismo, há que somar dois receios (mais ou menos conscientes) que nos impedem de desligar totalmente a tal calculadora. Por um lado, o medo de perder o treino: ser ágil no processo de equivalências nutricionais é um fator chave no sucesso dos nutricionistas e é bastante útil em consulta. Mesmo com a ajuda de softwares de elaboração de planos alimentares, ter na cabeça uma boa base de dados torna as consultas mais fluídas. E se um utente nos perguntar quantas calorias tem um punhado de amendoins, por exemplo, é sempre mais vantajoso ter a resposta na ponta da língua! Por outro lado, há também o receio de o relaxamento em relação à alimentação se poder traduzir no aumento do nosso próprio peso. Afinal de contas, não acontece só aos outros! Sabendo nós de tanta gente que aumenta de peso nas férias (petiscos + espreguiçadeira ao sol = um ou dois quilos a mais na balança), conseguiremos realmente “fechar os olhos” e relaxar?

Não sei quantos nutricionistas conseguem tirar férias de ser nutricionistas. Não sei sequer se é possível esquecer ou bloquear temporariamente a informação nutricional existente no cérebro de cada nutricionista. Talvez seja um daqueles casos de “uma vez nutricionista, para sempre nutricionista”. Mas ainda assim, que as férias sirvam para olharmos para o tema “de sempre” de uma outra forma ou que a mudança de ares nos permita voltar com energia redobrada para os desafios que enfrentamos durante todo o ano nas consultas. Boas férias!

Rodrigo Abreu
Nutricionista
Managing Partner na Rodrigo Abreu & Associados
Fundador do Atelier de Nutrição

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