
No seu 10.º aniversário, a VIVER SAUDÁVEL convidou 10 nutricionistas a avaliar uma década de Nutrição. O artigo de opinião que se segue é da autoria de João Breda, Nutricionista do Ano 2025 e diretor do Escritório Europeu da Organização Mundial da Saúde para a Qualidade em Saúde e Segurança do Doente em Atenas, Grécia.
Nas últimas duas décadas, a nutrição consolidou-se como um dos pilares da saúde pública em Portugal e na Europa. Desde 2006, quando a Organização Mundial da Saúde lançou a Estratégia Europeia para a Prevenção e Controlo da Obesidade Infantil e Portugal criou a Plataforma Nacional Contra a Obesidade (PNCO), o país foi construindo um quadro de políticas que combinou regulação, literacia e vigilância epidemiológica.
Em 2012, surgiu o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS), que deu continuidade a medidas como a redução obrigatória do teor de sal no pão, a melhoria da alimentação escolar e a introdução do imposto sobre bebidas açucaradas. Este percurso confere a Portugal uma posição de referência.
No entanto, os dados mais recentes sobre obesidade infantil, actividade física e qualidade do ambiente alimentar revelam sinais de estagnação e chamam a atenção para constrangimentos na execução, visibilidade e impacto das medidas no terreno — muitos deles de natureza burocrática e organizacional.
Portugal foi pioneiro na Europa ao integrar a iniciativa COSI (Childhood Obesity Surveillance Initiative) da OMS, que monitoriza o estado nutricional de crianças entre os 6 e os 10 anos. A ronda de 2022–2024, divulgada em 2025, aponta para prevalências que interrompem a tendência de melhoria observada entre 2008 e 2019, com cerca de um terço das crianças em excesso de peso e uma proporção significativa já com obesidade.
Estes números não devem ser analisados isoladamente: a pandemia alterou rotinas, a inflação aumentou o custo relativo dos alimentos frescos e o quotidiano tornou-se mais sedentário. Ainda assim, subsiste um problema de execução das políticas. Muitos documentos orientadores não se traduzem em programas continuados, com financiamento estável, metas claras e mecanismos de prestação de contas no terreno. Seria importante uma cooperação estruturada com autarquias, escolas e associações locais que permita adaptar as intervenções à realidade de cada território.
Importa, contudo, reconhecer os progressos alcançados. O imposto sobre bebidas açucaradas incentivou a reformulação de produtos e gerou receitas para a promoção da saúde; a redução do sal no pão foi pioneira na Europa; a alimentação escolar evoluiu com critérios nutricionais mais exigentes; e as campanhas de literacia contribuíram para uma maior consciência pública.
Em 2025, Portugal foi distinguido com o prémio das Nações Unidas para as Doenças Crónicas Não Transmissíveis (NCDs), reconhecimento internacional que valida a consistência das opções estratégicas ao longo de vários governos e, sobretudo, a acção ao nível regional e local. O desafio passa agora por transformar este reconhecimento em eficácia quotidiana, aproximando as políticas da realidade das crianças, dos jovens e das suas famílias.
A nível global, a OMS tem vindo a consolidar recomendações sobre dietas saudáveis e estilos de vida activos, mas a sua implementação varia consoante os contextos socioeconómicos. Em Portugal, as desigualdades territoriais e sociais continuam a condicionar o acesso a opções saudáveis.
As políticas e estratégias globais e mais genéricas devem ser complementadas por medidas dirigidas: apoiar quem mais precisa, reduzir barreiras económicas e geográficas e criar condições que facilitem escolhas saudáveis no dia-a-dia. Neste contexto, municípios, escolas e instituições do sector da saúde — incluindo hospitais — são parceiros fundamentais em áreas como compras públicas, planeamento urbano, oferta desportiva e alimentação escolar.
No plano europeu, a ambição estratégica é clara. A agenda “Do Prado ao Prato” procura articular saúde, sustentabilidade e economia alimentar, enquanto o Plano Europeu de Luta contra o Cancro reforça a necessidade de ambientes alimentares mais saudáveis e de restrições ao marketing alimentar dirigido a crianças.
Ainda assim, a ausência de um sistema harmonizado de rotulagem nutricional tem limitado progressos na literacia alimentar e na capacidade de os consumidores fazerem escolhas informadas. Portugal tem acompanhado e, por vezes, antecipado estas tendências, podendo assumir um papel ainda mais proactivo, testando soluções inovadoras — sociais, digitais (incluindo inteligência artificial) — e eventualmente implementando rapidamente aquelas que demonstram maior eficácia.
Do ponto de vista científico, o debate em torno dos alimentos ultra-processados ganhou centralidade. A classificação NOVA trouxe contributos relevantes ao evidenciar o impacto do processamento alimentar, facilitando a comunicação com o público.
As evidências associam padrões alimentares ricos em produtos ultra-processados a maior ingestão calórica, aumento de peso e maior risco cardiometabólico. Contudo, trata-se de uma categoria heterogénea, que inclui produtos reformulados com perfis nutricionais aceitáveis, e que não contempla, por si só, factores como porções, padrões culturais e contextos socioeconómicos.
Uma abordagem equilibrada deverá combinar critérios de processamento com perfis nutricionais claros, metas de reformulação, rotulagem simples e restrições ao marketing dirigido a menores, evitando simultaneamente estigmatizar soluções acessíveis que possam ser nutricionalmente adequadas.
O grande desafio permanece a actividade física. Apesar de alguns progressos, uma parte significativa das crianças e adolescentes não cumpre os 60 minutos diários recomendados de actividade física moderada a vigorosa, enquanto o tempo de ecrã ultrapassa largamente os valores aconselhados.
A escola continua a ser o principal espaço estruturado para a prática de actividade física, mas fora dela escasseiam ainda oportunidades regulares e acessíveis. A articulação entre os sectores da Saúde, Educação, Desporto, Transportes e Urbanismo permanece insuficiente, limitando a mobilidade activa e a utilização de espaços públicos.
Importa institucionalizar a prescrição de actividade física nos cuidados de saúde primários, com percursos assistenciais simples: avaliação do comportamento sedentário, aconselhamento breve, encaminhamento para programas comunitários e monitorização da adesão e do bem-estar. As Unidades Locais de Saúde (ULS) podem assumir um papel central nesta articulação.
Os cuidados de saúde primários são determinantes. A expansão das ULS representa uma oportunidade para integrar prevenção, cuidados e comunidade. Equipas multidisciplinares — incluindo medicina geral e familiar, enfermagem, nutrição, psicologia, saúde pública e motricidade humana — devem partilhar objectivos e dados, privilegiando abordagens ao longo do ciclo de vida.
É essencial implementar rotinas simples: cálculo do IMC e perímetro abdominal, aconselhamento alimentar prático, prescrição de actividade física, identificação de risco psicossocial e articulação com recursos locais includindo as possibliidades de prescrição social. A gestão deve assentar em incentivos orientados para resultados clínicos e de bem-estar.
Nos próximos dez anos, importa reforçar várias linhas de acção:
- ULS como centros de prevenção integrada, com metas anuais e resultados públicos
- Acordos locais entre saúde, educação e autarquias
- Regulação alimentar mais eficaz, incluindo marketing digital dirigido a menores
- Infra-estruturas que promovam a mobilidade activa
- Sistemas de monitorização simples, públicos e comparáveis
- Integração entre promoção da alimentação saudável, actividade física e saúde mental
Em suma, Portugal desenvolveu um conjunto notável de políticas baseadas em evidência científica, com reconhecimento internacional. Contudo, parece ter entrado numa fase de menor dinamismo. É, por isso necessário reforçar a capacidade de execução, com maior rapidez, consistência e proximidade.
A transformação não depende de mais relatórios, mas de liderança, colaboração e capacidade de implementação. O sector da saúde deve assumir um papel central, com as ULS a liderar ao nível local, em estreita articulação com municípios, escolas e comunidades.
Se este alinhamento for concretizado, será possível inverter a estagnação recente, reduzir a obesidade infantil e promover estilos de vida saudáveis sustentáveis ao longo do tempo. Esse é o próximo passo — e está ao alcance de Portugal.
O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
São 10 os artigos de opinião especiais que celebram o 10.º aniversário da Revista dos Nutricionistas. Aceda a todas as reflexões aqui.




