Sinistralidade rima com Obesidade 505

Por Rodrigo Abreu, Nutricionista na Rodrigo Abreu & Associados e Fundador do Atelier de Nutrição®

 

É uma realidade brutalmente cruel, sobretudo quando se tenta dar uma cara ou nome aos assustadores números das estatísticas. Só nesta Páscoa, 20 pessoas perderam a vida em acidentes de viação, a que se somam cerca de 300 feridos, muitos deles com marcas e sequelas que ficarão por muitos anos. Portugal é, aliás, um dos países onde não só a sinistralidade rodoviária é mais elevada, mas as suas consequências são também mais gravosas: entre 2021 e 2024, todos os meses morrem cerca de 50 pessoas nas estradas portuguesas. Isto significa que cada um de nós, todos os dias, quando entra no seu automóvel ou atravessa a rua, deve pensar: serei eu a vítima mortal de hoje?

Há vários anos (décadas!) que o país tem estudos, planos e estratégias para reduzir a sinistralidade rodoviária. Todos nós seremos capazes de nos recordar de algum anúncio de uma das inúmeras campanhas de sensibilização para o comportamento ao volante: “Se beber, não conduza!”, “Use sempre o cinto!”, “Tolerância Zero” ou “Ligue-se à vida, não ao telemóvel!”. Mas porque continuam os números da mortalidade rodoviária a envergonhar-nos, tantas décadas depois do célebre anúncio do lápis, que marcou uma geração?

Os automóveis evoluíram imenso nos dispositivos de segurança ativa e passiva, as estradas e a infraestrutura rodoviária em geral beneficiaram imenso dos milhões de euros de ajudas comunitárias e, dir-se-ia, as pessoas hoje são muito mais conscientes dos riscos envolvidos na condução. Até a publicidade aos automóveis mudou drasticamente, pois socialmente o “carro” não é o estatuto de virilidade que já foi e ecologia e a conetividade são hoje características muito mais apregoadas pelos construtores… Então, porque não diminui a sinistralidade?

Para um nutricionista, é impossível não ver os paralelismos com a evolução e situação atual da obesidade. Com tantos avanços no conhecimento dos mecanismos que conduzem à obesidade (e ao seu tratamento), com tantas campanhas de sensibilização para uma alimentação mais saudável e um estilo de vida mais ativo, e com tantos novos produtos baixos em calorias, como se justifica que a prevalência de peso excessivo não diminua? E também no caso da obesidade, parece consensual que a população em geral está crescentemente mais sensibilizada e informada para os riscos de uma alimentação desequilibrada. O que remete para uma questão de fundo: conhecer e entender os perigos do excesso de velocidade ou de calorias, não é suficiente para mudar comportamentos.

A nutrição em Portugal, na Europa e no Mundo (2006–2025): avanços, desafios e próximos passos

A perceção de risco é importante, mas não basta. As ciências sociais e comportamentais identificaram já há algum tempo os passos necessários para mudanças duradouras: Motivação (conseguir que as pessoas queiram, por iniciativa e para benefício próprio, mudar os seus hábitos); Capacidade (capacitar as pessoas para saberem o que fazer e como mudar); e Contexto (tornar os hábitos desejados os mais fáceis de seguir, o que envolve muitas vezes a chamada arquitetura de escolhas). São processos que demoram tempo, mas que nem por isso devem ser atalhados. Há alguns anos, era frequente ouvir gente gabar-se de conduzir depressa, fugir aos impostos ou ser capaz de beber grandes quantidades de álcool. Hoje, poucas pessoas arriscam fazer afirmações destas em público, mesmo junto da família ou amigos. Provavelmente, daqui a alguns anos, este tipo de gabarolice já nem passa pela cabeça de ninguém!

A sinistralidade rodoviária e a obesidade são exemplos da necessidade de aplicar e articular várias estratégias conhecidas, em planos de longo prazo que permitam mudar comportamentos. Numa época em que se exigem resultados imediatos e vistosos, é fundamental entender que certas mudanças demoram tempo, e que não resultam de medidas pontuais e isoladas, mesmo quando aparentam ser óbvias e eficazes. Por isso, os decisores políticos precisam de uma visão de futuro, para que a tranquilidade na mudança e a naturalmente lenta evolução dos resultados não sejam confundidas com inação ou incompetência, mas também para evitar que tudo fique na mesma!

Santa Maria da Feira: A nutrição que se faz à mesa e se aprende na escola

O anúncio do lápis “Se conduzir, não beba!” estreou há precisamente 40 anos, mas os acidentes de viação causados pelo consumo de álcool em Portugal têm demonstrado uma gravidade persistente, sendo um fator de risco major na sinistralidade rodoviária, representando mais de um quinto das vítimas mortais. É uma realidade angustiante e que nos deixa a pensar: quanto tempo ainda será preciso para vermos diminuição nas taxas de obesidade?

 

Aceda a todos os artigos de opinião do nutricionista Rodrigo Abreu aqui