Exposição a metais pesados in utero: que consequências? 938

Os metais pesados são elementos químicos que existem no ambiente e que podem ser tóxicos ao nosso organismo, principalmente o chumbo, o cádmio, o mercúrio, o alumínio, o arsénio e a prata. As principais fontes de contaminação são a água, o solo e o ar e consequentemente os alimentos que ingerimos. A exposição a estes compostos pode não causar sintomas à partida, uma vez que existem em quantidades relativamente pequenas, no entanto, como têm a capacidade de se bioacumular nas nossas células, uma exposição crónica e prolongada pode dar origem a alterações endócrinas, renais, pulmonares e cerebrais e consequentemente a problemas de saúde.

A exposição das crianças a este tipo de compostos pode começar desde muito cedo, uma vez que já in utero é possível que o feto esteja exposto. O nosso estudo que analisou o mecónio (primeira dejeção do bebé que reflete aquilo que o bebé ingeriu in utero) de 66 bebés prematuros nascidos na Maternidade Dr. Alfredo da Costa, demonstrou que a maioria dos bebés estavam expostos in utero aos elementos chumbo, cádmio e mercúrio. Particularmente, o chumbo foi detetado em todas as amostras de mecónio. Para além disso, uma análise de 46 pares de mães e  bebés mostrou que existia uma correlação entre a presença de metais pesados nas amostras de fezes das mães e a presença desses compostos no mecónio, o que sugere que estes compostos podem ser transferidos da mãe para o feto durante a gestação.

É importante realçar que os primeiros 1000 dias de vida são cruciais para um crescimento e desenvolvimento saudável e que este, é também um período de maior vulnerabilidade. Ou seja, a exposição a contaminantes ambientais neste período pode ser crítica para o normal desenvolvimento do bebé. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o chumbo tão tóxico que “nenhum nível no sangue é seguro”. No entanto o chumbo é utilizado na indústria para vários fins, como baterias, cobertura de cabos, materiais de solda, tintas e cerâmicas, indústria química e construção e na gasolina. Apesar do chumbo ter sido excluído do combustível em 1999, segundo dados do Imperial College, este permanece no ar de Londres há mais de 20 anos.

Diminuir a exposição aos metais pesados na gravidez é de facto fundamental para prevenir os impactos gerados tanto na saúde da mãe como na do bebé. Por exemplo, reduzir ou eliminar a exposição ao chumbo melhoraria os resultados de desempenho académico em crianças. Foi o que revelou Christine Delgado et al num estudo com crianças de idade média de 2,6 anos, na qual foi identificado uma associação entre a exposição ao chumbo e vários resultados intelectuais e educacionais. Valores de 5 μg/dL ou mais na corrente sanguínea foi significativamente associado ao risco aumentado de deficiência intelectual e atraso no desenvolvimento das crianças.

Os resultados do nosso trabalho também demostraram que os metais pesados provenientes da dieta alteraram a microbiota intestinal tanto das mães como dos bebés. Uma vez que isso contribui para a disbiose, poderá igualmente desencadear alterações no eixo cérebro/intestino com consequências até a vida adulta. A disbiose intestinal já foi relacionada a várias doenças, como a síndrome do intestino irritável, doença inflamatória intestinal, doença celíaca, obesidade e distúrbios metabólicos. Nas crianças, a disbiose tem sido associada a algumas doenças como enterocolite necrosante quando recém-nascido, principalmente em prematuros. Contudo, ainda é bastante complexo os mecanismos que envolvem os contaminantes versus microbiota, no entanto há cada vez mais estudos a contribuir com novas descobertas.

Algumas medidas podem, de facto, ser tomadas para ajudar na redução da exposição a metais pesados, como: evitar alimentos acondicionados em latas, não utilizar tintas com chumbo na composição, ler sempre os rótulos dos produtos de beleza e certificar-se que não haja metais na sua composição, descartar as pilhas adequadamente, não utilizar desodorizantes com sais de alumínio, substituir as amálgamas por restaurações inócuas, utilizar filtros que retirem tudo ou parte dos metais da água, não fumar, dar preferência aos alimentos orgânicos e adotar um estilo de vida mais saudável.

Laila Joanes Ribeiro
Mestranda em Nutrição Humana e Metabolismo
Nova Medical School I Faculdade de Ciências Médicas, UNL
Nutricionista (3789NE)

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