Entrevista: “Defendemos o reconhecimento do nutricionista como prescritor de referência”

As eleições para os Conselhos de Especialidade da Ordem dos Nutricionistas (ON) realizam-se no próximo dia 27 de junho. A nutricionista Graça Ferro, especialista em Nutrição Clínica, recandidata-se a presidente deste mesmo Conselho, com o objetivo de continuar a contribuir para o futuro da profissão.

Em entrevista à VIVER SAUDÁVEL, a diretora do Serviço de Nutrição e Alimentação da ULS do Alto Minho e diretora executiva da Sociedade Portuguesa de Nutrição Clínica e Metabolismo defende o reconhecimento do nutricionista como prescritor de referência na área da nutrição artificial em internamento e de nutrição entérica ao domicílio. A diferenciação atribuída pela especialidade, acredita, reforça a credibilidade da profissão.

São três as grandes prioridades para os próximos quatro anos: garantir a qualidade dos cuidados em Nutrição Clínica, continuar a apostar na formação contínua e atualização profissional, valorizar a qualificação e consolidação da especialidade, e ainda apostar na investigação, visibilidade e projeção da especialidade.

VIVER SAUDÁVEL (VS) – Porque decidiu recandidatar-se a presidente do Conselho de Especialidade de Nutrição Clínica da Ordem dos Nutricionistas?

Graça Ferro (GF) – No mandato que agora termina, foi alcançado um marco estruturante para a profissão: a atribuição das primeiras especialidades através de provas públicas, um momento que consolidou o rigor e a credibilidade do processo de certificação. É com base neste percurso, e com plena consciência do trabalho que ainda permanece por fazer, que decidi recandidatar-me.

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Faço-o porque a Nutrição Clínica atravessa um momento de elevada exigência e de afirmação institucional, que requer uma defesa firme e tecnicamente sustentada da especialidade, salvaguardando critérios exigentes e equitativos no seu acesso.

Num contexto particularmente desafiante para a profissão, considero que a experiência acumulada ao longo deste percurso, desde a génese até à implementação do modelo de especialidades, constitui uma garantia de continuidade, estabilidade e capacidade para enfrentar, com consistência, os desafios atuais e futuros.

VS – Este será o segundo ato eleitoral na história dos Conselhos de Especialidade. Que balanço faz do seu primeiro mandato? Defende a continuidade do trabalho desenvolvido ou acredita ser necessário introduzir uma visão diferente?

GF – O primeiro mandato foi, acima de tudo, um período de estruturação e consolidação do modelo de especialidades. Destaco três dimensões principais.

  • A revisão do enquadramento regulamentar, com a elaboração da proposta de alteração do Regulamento Geral de Especialidades da Ordem dos Nutricionistas (RGEPON), que culminou na publicação do novo RGEPON n.º 1361/2024. Este processo resultou de um trabalho conjunto dos três Conselhos de Especialidade: Nutrição Clínica, Alimentação Coletiva e Restauração e de Nutrição Comunitária e Saúde Pública.
  • A implementação e operacionalização do modelo de atribuição da especialidade, que permitiu, em dezembro de 2025, a atribuição do título de especialista em Nutrição Clínica a 29 colegas, num processo exigente e transparente.
  • A dinamização científica e formativa do Colégio, concretizada através da realização de três encontros de especialistas e de duas assembleias gerais, envolvendo os três Conselhos de Especialidade, bem como a implementação de um programa formativo regular baseado na discussão de casos clínicos e em sessões temáticas. No âmbito do Conselho de Especialidade em Nutrição Clínica, este programa totalizou 53 momentos de formação.

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Este conjunto de iniciativas permitiu criar as bases operacionais e regulamentares indispensáveis ao desenvolvimento sustentado do modelo de especialidades. Defendo a continuidade deste trabalho, com evolução em áreas críticas, nomeadamente no aperfeiçoamento do modelo de atribuição da especialidade, na eventual criação de subespecialidades ou competências diferenciadas e o reforço da formação contínua dos especialistas.

Pretendemos afirmar o Conselho de Especialidade como um interlocutor ativo e qualificado na defesa da valorização e autonomia da Nutrição Clínica. A concretização destes objetivos pressupõe uma articulação efetiva com a Direção da Ordem dos Nutricionistas, assente numa lógica de proximidade, confiança e alinhamento estratégico. Acreditamos que este é o caminho e é esse o compromisso que assumimos.

VS – A ser eleita, a sua lista representará um Conselho renovado, com caras novas. Como descreve a sua equipa?

GF – Apresento uma equipa diversa, representativa das várias áreas de intervenção da Nutrição Clínica, constituída por profissionais com reconhecida experiência clínica, atividade científica e capacidade de intervenção no contexto institucional.

É uma equipa comprometida com a valorização do nutricionista especialista em Nutrição Clínica, com a sua afirmação junto dos órgãos da Ordem e das entidades empregadoras, e com a proximidade aos colegas especialistas.

Pretendemos promover uma prática sustentada na melhor evidência científica disponível, reforçando simultaneamente mecanismos de partilha, discussão clínica e desenvolvimento profissional contínuo.

VS – São hoje 515 os especialistas em NC, um aumento que referiu ser “abaixo do esperado”. De que forma procurará potenciar o crescimento deste Colégio de Especialidade?

GF – O crescimento sustentado do número de especialistas no Colégio de Especialidade em Nutrição Clínica exige uma intervenção em várias frentes.

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Em primeiro lugar, a estratégia para potenciar o crescimento assenta na continuidade das ações de divulgação do modelo de obtenção das especialidades, dirigidas tanto a profissionais como a estudantes, em estreita parceria com a Associação Nacional de Estudantes de Nutrição (ANEN). Acreditamos que um maior conhecimento dos requisitos de acesso permitirá aos estudantes planear, de forma mais estruturada, o seu percurso formativo e profissional, nomeadamente ao nível da aquisição de experiência e formação específica, facilitando a futura candidatura à especialidade.

Paralelamente, será fundamental reforçar, em articulação com a Direção da Ordem dos Nutricionistas, a valorização do nutricionista especialista nos diferentes setores, público, privado e social, designadamente através da defesa de uma carreira diferenciada que contemple critérios claros de recrutamento e um adequado enquadramento remuneratório.

Só através deste reconhecimento efetivo será possível evidenciar, junto da classe, a mais-valia da diferenciação conferida pela especialidade, contribuindo assim para o aumento da adesão ao modelo e para o fortalecimento do Colégio de Especialidade.

VS – A promoção da saúde e a prevenção da doença continuam aquém do foco sobejamente maior no tratamento. Quais são as suas bandeiras para os próximos quatro anos?

A nossa atuação organizar-se-á em quatro eixos fundamentais.

  • Qualidade dos cuidados em Nutrição Clínica – Defenderemos o reconhecimento do nutricionista como prescritor de referência na área da nutrição artificial em internamento e da nutrição entérica no domicílio, de acordo com o enquadramento legal e científico vigente. Trabalharemos para consolidar o papel do especialista como elemento estruturante das equipas multidisciplinares;
  • Formação contínua e atualização profissional – Manteremos um programa formativo regular, baseado na discussão de casos clínicos e em sessões temáticas, promovendo uma prática assente na evidência e a atualização permanente dos especialistas. Adicionalmente, incentivaremos os colegas especialistas a assegurarem uma atualização contínua das suas competências, garantindo a qualidade e a consistência de uma prática profissional sustentada no melhor conhecimento científico disponível;

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  • Qualificação e consolidação da especialidade – Manteremos os critérios exigentes de acesso à especialidade, assentes nos princípios de rigor e de igualdade de oportunidades para todos os candidatos, fundamentais para a sua credibilidade. Permanecemos, no entanto, disponíveis para a revisão desses critérios, caso a Tutela e as entidades empregadoras venham a criar condições para a implementação de estágios de especialidade, internato ou residências devidamente estruturados e remunerados, à semelhança do que já ocorre noutras Ordens profissionais, designadamente na Ordem dos Farmacêuticos;
  • Investigação, visibilidade e projeção da especialidade – Acreditamos que uma especialidade se constrói também para além da prática clínica. Nesse sentido, incentivaremos a produção científica, a publicação em revistas indexadas e a participação em congressos, valorizando a evidência produzida em Portugal. Promoveremos a articulação com centros académicos e unidades de investigação, reforçando a integração entre prática clínica e produção de conhecimento. E trabalharemos para aumentar a visibilidade da especialidade junto dos cidadãos, dos meios de comunicação e de outras Ordens e associações profissionais, afirmando o papel do nutricionista especialista como profissional de referência na saúde do utente.

VS – Nos 50 anos do primeiro curso de Nutrição em Portugal, fica a questão: Onde estamos e para onde vamos? Qual o estado da profissão de Nutricionista e o que nos espera o futuro?

GF – A especialização na área das Ciências da Nutrição assume atualmente um papel central no desenvolvimento e afirmação da profissão. Num contexto de crescente complexidade técnica e científica, a diferenciação de competências é essencial para garantir respostas mais qualificadas, seguras e ajustadas às necessidades da população.

É consensual que a especialização contribui de forma decisiva para a valorização coletiva da profissão. A existência de nutricionistas especialistas em Nutrição Clínica permite uma maior capacidade de intervenção em contextos clínicos complexos e interdisciplinares, reforçando a integração da Alimentação e Nutrição em processos de decisão e planeamento estratégico. A presença de nutricionistas diferenciados e tecnicamente preparados em diferentes áreas potencia uma maior visibilidade e influência da profissão, reforçando o seu contributo para o conhecimento científico e para a sociedade, nomeadamente através da intervenção em instituições de saúde, do setor social, da educação e noutras esferas públicas e privadas relevantes.

Esta diferenciação não só valoriza o percurso individual dos nutricionistas, como também contribui para o reforço da credibilidade da profissão junto dos utentes e outros utilizadores, de outros profissionais e das instituições. A perceção de competência especializada traduz-se, inevitavelmente, numa maior credibilidade dos serviços prestados.

Especialidades – O que são e para que servem?

Sendo um processo ainda numa fase inicial, é natural que enfrente desafios próprios de um percurso em construção. A evolução das especialidades exige tempo, adaptação e um esforço continuado por parte da Ordem dos Nutricionistas, das entidades governamentais, das instituições empregadoras e dos próprios profissionais. Trata-se de um caminho que visa, a médio e longo prazo, alcançar um nível de maturidade capaz de garantir consistência, reconhecimento e impacto efetivo na prática clínica e no sistema de saúde.

VS – Que mensagem quer deixar aos colegas especialistas e a todos os outros que, eventualmente, estejam a ponderar especializar-se nesta área?

GF – Especializar-se em Nutrição Clínica é um percurso exigente, mas determinante para a valorização individual e coletiva da profissão. É um investimento que requer compromisso, diferenciação técnica e capacidade de resposta em contextos clínicos complexos, mas que permite afirmar o papel do nutricionista especialista como profissional de referência na prestação de cuidados de saúde. A candidatura à especialidade deve ser encarada como parte de um percurso de desenvolvimento profissional sustentado, com impacto real na qualidade dos cuidados prestados.

A Lista A – Unidos pela Excelência e Firmes no Compromisso – apresenta-se com um compromisso claro com o rigor, a credibilidade e a valorização da Nutrição Clínica! Mesmo tratando-se de uma lista única, contamos com o vosso apoio para fortalecer este projeto e reforçar a sua legitimidade, bem como a capacidade de concretização do plano de ação apresentado. Contamos com o vosso apoio e com o vosso voto. Esta candidatura é também vossa. Porque uma especialidade forte constrói-se com todos e para todos. Votem!