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O iodo é um micronutriente essencial para a produção de hormonas da tiróide cuja deficiência afeta o neurodesenvolvimento. O maior impacto da deficiência em iodo nas funções neurológicas e cognitivas ocorre durante a gestação e primeira infância.

Por isto, as mulheres grávidas e as crianças são os grupos populacionais mais vulneráveis, não só pelas maiores necessidades nutricionais durante estes períodos como pelo impacto da deficiência. Pela sua volatilidade e distribuição heterogénea no globo, crianças de regiões de solos e águas pobres neste nutriente podem ter um comprometimento do seu quociente de inteligência até 15 pontos comparativamente a crianças de regiões ricas em iodo.

Das intervenções com maior impacto na redução das consequências associadas às deficiências em iodo, a iodização do sal é reconhecida como uma estratégia segura, económica e eficaz. Em 1922, a Suíça foi o primeiro país europeu a introduzir sal iodado para eliminação das elevadas prevalências de bócio endémico e cretinismo que atingia a sua população. Contudo, foi apenas em 1990 que a ONU estabeleceu a prioridade de eliminar a deficiência de iodo à escala global. Com um crescente número de países a implementar a iodização universal do sal para consumo humano, estima-se que ainda uma em três crianças tenha uma ingestão insuficiente de iodo.

Atualmente, os principais critérios epidemiológicos utilizados para a avaliação e monitorização do estado nutricional das populações são baseados na mediana da excreção de iodo na urina. Segundo a OMS, a mediana das iodúrias em crianças deverá estar compreendida entre 100-199 µg/L e menos de 20% da população deve apresentar iodúrias inferiores a 50 µg/L para se considerar que tem um estado nutricional adequado. Dados recentes nacionais confirmam uma melhoria do estado do iodo em crianças nas últimas décadas. Contudo, aproximadamente 30% desta população apresentam iodúrias inferiores a 100 µg/L indicando risco de uma ingestão deficiente em iodo e potenciais implicações no desenvolvimento cognitivo neste grupo.

Em Portugal, as políticas alimentares mais relevantes nesta matéria registaram-se já em 2013 com a publicação de uma orientação da Direção-Geral da Saúde (nº 011/2013) para a suplementação de iodo em grávidas e lactantes em resposta às indicações de que apenas uma em seis mulheres nesta população tinham uma ingestão adequada neste nutriente.

Recentemente, os Açores iniciaram a distribuição gratuita de suplementos de iodo, sob a forma de iodeto de potássio, em mulheres em preconceção, grávidas ou a amamentar para eliminar as carências em iodo que atingem praticamente toda a população. Num país em que a frequência da ingestão de alimentos do mar é reduzida e a iodização universal do sal não está implementada, o leite e os cereais poderão ser os principais fornecedores de iodo na alimentação portuguesa.

Ainda que a monitorização contínua do estado do iodo nos grupos mais vulneráveis da população seja crucial, a articulação com políticas alimentares relativamente a programas de iodização de sal poderá dar resposta a este desafio de nutrição e saúde pública. Contudo, tais intervenções deverão integrar programas de redução da ingestão de sódio (sal) na população portuguesa.

João Costa Leite,
Nutricionista, Investigador do ProNutri

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