Prebiótico – Repensando o conceito 985

O conceito de prebiótico tem sido matéria de discussão já há alguns anos, por vários especialistas da área. A definição de Gibson e Roberfroid de 1995 introduz o conceito de prebiótico definindo-o como um ingrediente não-digerível que afeta beneficamente o hospedeiro por estimular seletivamente o crescimento e/ou atividade de bactérias no colon melhorando com isso a saúde do hospedeiro.

Desde a sua introdução que esta definição tem sido largamente utilizada pela comunidade científica, não só entre pares mas também para a comunicação com o consumidor e a população em geral. Daí que hoje em dia, seja um termo reconhecido pela população em geral sem que por isso esta esteja completamente ciente do seu significado, apenas relacionando-o com algo positivo para a saúde. De facto, apesar deste conceito já ter sido revisto várias vezes, a premissa de que melhora a saúde do hospedeiro mantém-se indiscutível.

Bird et al. 2010, e Bindels et al. 2015, propuseram uma definição mais abrangente de prebiótico, sugerindo que este deveria ser visto como glícidos da dieta não-digeríveis, que são fermentados pelas bactérias do colon dando origem a ácidos gordos de cadeia curta como produto final. Estes autores sugerem que a seletividade e a especificidade deixaram de ser critérios relevantes. O debate centra-se na necessidade de manter a fermentação seletiva no conceito de prebiótico ou se, compostos com a capacidade de modular o crescimento seletivo de bactérias do microbiota por outros mecanismos, como por exemplo por fitoquímicos ou por biopéptidos, poderão ser incluídos neste conceito. Ou se, por outro lado, se mantêm como meros ingredientes funcionais. A gama de ingredientes sobre a qual existe evidência científica com efeito benéfico para o hospedeiro via modulação do microbiota é cada vez maior, e assiste-se a uma pressão, nomeadamente da indústria internacional, no sentido de alterar o conceito de prebiótico de forma a torná-lo mais lato e aplicável em mais produtos alimentares.

Alguns autores sugerem que um leque mais alargado de ingredientes da dieta poderá ter atividade prebiótica, mas sem haver evidência científica de que estes ingredientes exerçam o seu efeito benéfico por selecionarem diretamente o microbiota. Assim, os prebióticos deixariam de ser distinguidos de outros ingredientes que chegam intactos ao colon. A designação de “farmabiótico” foi sugerida para descrever estas substâncias com atividade terapêutica e/ou moduladora do microbiota.

Se por um lado a definição mais clássica poderá ser considerada por alguns como simplista e redutora, é necessário ter em consideração que para o consumidor o termo prebiótico continua a ser valorizado e cabe às entidades decisoras, quer científicas quer políticas, garantir que a alegação prebiótico seja utilizada com regra e cientificamente fundamentada na sua premissa maior, a melhoria da saúde do hospedeiro.

Ana Faria
NOVA Medical School, Faculdade de Ciência Médicas Universidade Nova de Lisboa
Investigadora Requimte e ProNutri-CINTESIS

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