A que sabe a sustentabilidade? 661

De há uns anos a esta parte, temos assistido a uma agenda pública muito focada na sustentabilidade, algo que nem a pandemia abrandou. O termo “sustentabilidade” é abrangente e inclui temas diversos que até recentemente estavam no âmbito das políticas de “responsabilidade social” ou do “ambiente”. Estas preocupações com a sustentabilidade estendem-se atualmente também à alimentação e nutrição, com os consumidores cada vez mais interessados em conhecer as práticas de produção e comercialização dos alimentos que escolhem. Por essa razão, sistemas de classificação como o Eco-Score ou o Planet-Score estão a ser testados para avaliar o impacto ambiental e social de produtos alimentares, e prestar informação aos consumidores. Todos estes fatores têm pressionado (e vão pressionar cada vez mais) a agricultura, a indústria alimentar e as cadeias de distribuição no sentido de ter uma oferta mais “sustentável”.

Esta busca por maior sustentabilidade é particularmente visível no surgimento de alternativas aos produtos de origem animal, frequentemente acusados de serem responsáveis por maiores emissões de CO2, utilizarem mais solos e água, ou não cuidarem adequadamente o bem-estar animal. Os substitutos de carne, peixe, ovos e lácteos, maioritariamente produzidos a partir de algas, leguminosas ou outras plantas, começaram por ser alternativas insonsas destinadas a vegans convictos, mas têm evoluído para produtos “mainstream”, sobretudo pela capacidade em atrair consumidores não vegetarianos que estão dispostos a incluir mais produtos de origem vegetal na sua alimentação (os chamados flexitarianos) . Sem entrar na discussão (complexa) sobre os benefícios nutricionais ou ambientais de uma alimentação vegetariana, há um aspeto que merece reflexão: os formatos com que estes produtos alternativos têm conquistado consumidores.

Em qualquer supermercado é hoje possível encontrar “almôndegas” de tofu, panados que afinal não são de peixe ou frango mas de algas ou seitan, “hamburgers” de lentilha e beterraba ou “queijo” feito de coco ou amêndoas. Não deixa de ser curioso que a transição dos produtos de origem animal para alternativas vegetais esteja a ser alavancada por categorias dos chamados alimentos processados, tradicionalmente bastante criticadas: carnes picadas, panados, queijos e natas. Aparentemente, os consumidores mantêm o apetite por estes formatos e sabores, de tal forma que estão até disponíveis para provar alternativas vegetais, muitas vezes publicitadas como mais saudáveis ou sustentáveis. De facto, apesar de a procura global por proteína estar a aumentar, as leguminosas no seu estado natural não parecem atrair os consumidores. Seria de esperar que as preocupações crescentes com o equilíbrio nutricional e ambiental impulsionassem a procura por feijões, lentilhas ou grão de bico, até porque são alternativas disponíveis em formato conveniente e a baixo preço (dois fatores importantes para os consumidores). No entanto, aquilo que a assistimos é uma massificação dos tais formatos processados, que passam a existir num formato “plant-based”, mais “trendy”. Antes, um vegan comia um estufado de lentilhas com arroz e a tradição Mediterrânica ensinava-nos a preparar favas ou ervilhas, talvez com um pouco de carne fumada ou ovos. Hoje, fazer uma dieta “plant-based” é comer “veggie burgers” ou “nuggets” de algas e tomar um “latte” de amêndoa…

É certo que para conseguir “convencer” consumidores a mudar para ingredientes vegetais é preciso dar-lhes sabores que gostem e a que estejam habituados. Mas serão estes “miméticos” da carne ou lácteos apenas uma solução transitória, rumo a dietas mais equilibradas (para a saúde e para o planeta), ou estaremos a criar um novo padrão alimentar global, de comida processada, monótona e com sabor uniforme em todos os países? Quem muda de almondegas de carne para almondegas de ervilha com o mesmo sabor, alguma vez aprenderá a saborear apenas ervilhas? Claramente, os nutricionistas têm um papel importante para recuperar as receitas tradicionais de ervilhas quadradas, chícharos ou favas e, assim, trazer um pouco mais de identidade e sabor a padrões alimentares sustentáveis!

Rodrigo Abreu
Nutricionista
Managing Partner na Rodrigo Abreu & Associados
Fundador do Atelier de Nutrição

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