A neuroinflamação, a dieta mediterrânica e os psicobióticos 0 113

Ao longo das últimas décadas tem-se verificado um aumento na esperança média de vida, acompanhado por um envelhecimento da população. Este envelhecimento está associado ao aumento da prevalência de doenças neurodegenerativas, como a doença de Parkinson, doença de Alzheimer, Esclerose Lateral Amiotrófica e Esclerose Múltipla.

As células da microglia são células imunológicas residentes do sistema nervoso central (SNC). Estas constituem a primeira linha de defesa quando ocorre uma lesão ou doença no SNC, dado a sua capacidade para alterar a sua morfologia, fenótipo e função. Em condições fisiológicas, as células da microglia encontram-se num estado de repouso e morfologicamente apresentam muitos prolongamentos finos e curtos permitindo uma elevada área de contacto com o meio circundante.

Quando há uma perturbação na sua homeostasia, a microglia passa para um estado ativado, apresentando uma morfologia esférica e sem prolongamentos, de forma semelhante aos macrófagos. Neste estadio, a microglia pode apresentar dois fenótipos distintos – pro-inflamatório (M1) e anti-inflamatório (M2). A microglia ativada migra para locais específicos de forma a eliminar agentes patogénicos ou fagocitar células mortas e agregados proteicos. Estas células possuem também a capacidade de sintetizar uma grande variedade de citocinas pro-inflamatórias (TNF-α, IL-6, IL-1β, entre outras) e anti-inflamatórias (IL-4) e de mediadores moleculares, de acordo com o estímulo que levou à sua ativação.

A ativação excessiva e crónica das células da microglia, pode ter um impacto negativo no SNC, estando a neuroinflamação associada ao desenvolvimento e progressão de doenças neurodegenerativas. A neuroinflamação pode ser modulada por diversos fatores, entre eles a alimentação. Estudos realizados em animais, verificaram que dietas hiperlipídicas levava à ativação da microglia e ao aumento de produção de citocinas pró-inflamatórias. Por outro lado, alguns nutrientes apresentam um efeito neuroprotetor, como é o caso das vitaminas E, C e complexo B e do ácido docosa-hexaenóico (DHA).

Mais ainda, vários estudos têm vindo a demostrar que os fitoquímicos, compostos bioativos presentes nos hortofrutícolas, particularmente os polifenóis, têm um potencial anti-inflamatório e neuroprotetor. Neste sentido, a Dieta Mediterrânica, que se caracteriza pelo elevado consumo de hortofrutícolas e que inclui a ingestão moderada de vinho tinto e de azeite, ricos em compostos fenólicos como o resveratrol, a oleuropeína e o hidroxitirosol, tem-se destacado como um padrão alimentar protetor, associado à prevenção de doenças neurodegenerativas. De entre os vários mecanismos de ação dos polifenóis atualmente conhecidos, destaca-se a sua capacidade de regular as vias de sinalização e expressão de citocinas. No entanto, a evidencia relativamente a mecanismos como a biodisponibilidade, metabolismo e capacidade para atravessar a barreira hemo-encefálica provém sobretudo de estudos in vivo e as diferenças entre as concentrações utilizadas nos estudos in vitro e as concentrações obtidas através da alimentação, comprometem a extrapolação dos resultados muitos promissores obtidos e o estabelecimento de orientações efetivas para a prática clínica.

Nos últimos anos, o eixo microbiota-intestino-cérebro tem surgido como uma peça fundamental para a compreensão das doenças neurodegenerativas. Este consiste num sistema de comunicação dinâmico, complexo e bidirecional que envolve o sistema nervoso entérico (SNE), o nervo vago, o sistema nervoso simpático e o sistema endócrino e imunológico. Vários estudos associam a disbiose ao declínio cognitivo e são vários os mecanismos que podem estar subjacentes, como (i) a resposta imunitária associada ao aumento da permeabilidade intestinal (libertação de citoquinas inflamatórias e ativação do nervo vago e neurónios aferentes da medula espinal) e a passagem do lipopolissacarídeo (LPS) que ativa as células da microglia, o que também poderá alterar a atividade do SNC e SNE; (ii) a produção alterada de diversos neurotransmissores e neuromoduladores como o ácido gama-aminobutírico (GABA), serotonina, dopamina, noradrenalina e acetilcolina pelas bactérias intestinais. Desta relação surge o conceito de psicobiótico (definido como um organismo vivo e/ou prebiótico que estimulam o crescimento desses microrganismos) que fornece um benefício à saúde de indivíduos que sofrem de doença neurológica, quando ingerido em quantidades adequadas. Dados recentes do nosso grupo demonstram que os polifenóis, nomeadamente as antocianinas, podem atuar como psicobióticos.

Em suma, a recuperação do padrão de dieta mediterrânico e a modulação do microbiota, quer através da dieta quer através do uso de psicobióticos, representam um caminho promissor na mitigação da neuroinflamação, na prevenção e tratamento de doenças neurodegenerativas.

Catarina Isabel Rodrigues

Investigadora CINTESIS, estudante do Mestrado Nutrição Humana e Metabolismo, NOVA Medical School, Universidade Nova de Lisboa.

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