Por Catarina Ferreira, investigadora na NOVA Medical School e estudante de Ciências da Nutrição na FCNAUP.
A compreensão da microbiota humana evoluiu bastante nas últimas décadas. Impulsionada por avanços na sequenciação e abordagens multiómicas, deixou de ser vista como um conjunto de microrganismos isolados, para passar a ser reconhecida como um ecossistema complexo, dinâmico e funcionalmente integrado.
Hoje sabemos que a microbiota intestinal desempenha um papel central na regulação da saúde humana, através da sua interação contínua com o hospedeiro. Mas até que ponto conseguimos compreender verdadeiramente este sistema se continuarmos a analisá-lo de forma segmentada, ignorando a continuidade biológica ao longo do trato digestivo?
É neste contexto que emerge o conceito do eixo oral-gástrico-intestinal, entendido como um contínuo anatómico e funcional, com potencial para esclarecer mecanismos envolvidos na saúde e na doença.
A cavidade oral, primeiro ponto de contacto do trato digestivo com o meio externo, alberga uma das comunidades microbianas mais diversas do organismo. Este ecossistema é altamente dinâmico e sensível a fatores como dieta, higiene oral, estado inflamatório e patológico e exposição ambiental, como tabaco e álcool. Dietas ricas em açúcares simples e alimentos ultraprocessados, típicas de padrões ocidentais, promovem alterações desfavoráveis na diversidade e equilíbrio da microbiota oral, favorecendo o desenvolvimento de cáries, gengivite e periodontite. Em contraste, padrões alimentares ricos em fibra e compostos bioativos -como a Dieta Mediterrânica- associam-se a maior diversidade e menor abundância de espécies periodontopatogénicas.
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Não apenas confinada à cavidade oral, a microbiota oral é continuamente transportada ao longo do trato gastrointestinal através da deglutição de saliva, estimando-se que cerca de 10¹¹ bactérias sejam deglutidas diariamente, o que levanta questões relevantes sobre o impacto cumulativo deste processo.
O estômago, outrora considerado um ambiente hostil à vida microbiana, é, na verdade, colonizado por microrganismos capazes de sobreviver à acidez gástrica. Assim, atua não como uma barreira absoluta, mas como um filtro seletivo, cuja eficácia depende de fatores fisiológicos e ambientais. Condições como infeção por Helicobacter pylori, uso de inibidores da bomba de protões e envelhecimento podem reduzir essa acidez, favorecendo a presença, sobrevivência e eventual colonização, de outros microrganismos, oportunistas.
A presença de microrganismos tipicamente orais em regiões mais distais do trato digestivo tem sido documentada, particularmente em contexto de doença. Espécies associadas a disbiose oral, como os envolvidas na periodontite, têm sido identificadas no estômago e no intestino, sugerindo fenómenos de translocação e adaptação ecológica. Mais relevante ainda, esta presença tem sido correlacionada, e a periodontite consistentemente associada a um amplo espetro de doenças sistémicas, como doença cardiovascular, doenças autoimunes como a artrite reumatóide, doenças neurodegenerativas como Alzheimer, doença inflamatória intestinal e neoplasias digestivas.
Mecanisticamente, a translocação e colonização de microrganismos ou dos seus produtos metabólicos – como lipopolissacarídeos ou compostos sulfurados – pode modular a permeabilidade da barreira epitelial, ativar o sistema imunitário e promover inflamação crónica de baixo grau. A persistência destes estímulos inflamatórios e a sua disseminação sistémica podem, por sua vez, contribuir para disfunção endotelial e processos ateroscleróticos, favorecer fenómenos de mimetismo molecular associados a respostas autoimunes e comprometer a integridade da barreira hemo-encefálica, potenciando processos de neuroinflamação.
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Por outro lado, práticas adequadas de higiene oral estão associadas a redução do risco destas condições. Em particular, no caso da infeção por Helicobacter pylori, intervenções como a destartarização têm demonstrado aumentar as taxas de erradicação, sugerindo que a cavidade oral pode funcionar como reservatório e influenciar o sucesso terapêutico.
Embora estas associações não estabeleçam causalidade direta, a evidência disponível sustenta o papel da microbiota oral como moduladora de processos patológicos à distância. O eixo oral-gástrico-intestinal parece, assim, funcionar de forma bidirecional, onde alterações locais podem ter repercussões sistémicas.
Perante esta evidência, o que podemos fazer na prática?
Enquanto nutricionistas e profissionais de saúde, podemos ter um papel ativo na valorização da saúde oral como parte integrante da saúde do indivíduo. Um primeiro passo pode ser integrá-la de forma mais objetiva na anamnese. Questões simples, como a frequência de consultas em medicina dentária, presença de sangramento gengival ou histórico de doença periodontal, podem contribuir para uma avaliação do estado de saúde mais completa e um melhor enquadramento clínico.
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A alimentação assume-se como um importante fator modulador da saúde oral, e o aconselhamento nutricional pode ter um papel relevante no cuidado periodontal. Em paralelo, recomendar hábitos adequados de higiene oral e de consultas regulares em medicina dentária, são intervenções acessíveis que podem ter impacto não apenas local, mas também na prevenção e progressão de doenças sistémicas.
Para além da prática clínica, este conceito abre novas perspetivas para a investigação científica, com potencial para identificar biomarcadores, melhorar a estratificação de risco de certas patologias e desenvolver abordagens terapêuticas mais personalizadas. Tal exigirá estudos longitudinais robustos, metodologias padronizadas e o controlo de fatores confundidores, como dieta, medicação e variabilidade genética interindividual, de forma a garantir a consistência e interpretabilidade dos resultados.
Ainda que muito permaneça por compreender, sabemos hoje que a microbiota não reconhece fronteiras anatómicas, desafiando a visão compartimentada da fisiologia humana e convidando a uma atuação mais integrada na promoção da saúde.
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