Vitamina D – Uma aliada na depressão após acidente vascular cerebral? 3305

A depressão após acidente vascular cerebral (AVC) afeta 30 a 50% dos indivíduos nos 12 primeiros meses pós-AVC. Esta é uma consequência neuropsiquiátrica multifatorial que envolve um conjunto de alterações fisiopatológicas como a desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal, uma resposta neurotrófica anormal, níveis diminuídos de monoaminas e o aumento da inflamação.

Ao longo das últimas décadas a profilaxia da depressão pós-AVC não sofreu grande evolução, uma vez que os fatores de risco conhecidos eram sobretudo não modificáveis. No entanto, uma revisão sistemática com meta-análise recente de Hung e colaboradores (2023), avaliou a evidência mais recente nesta matéria, nomeadamente a possível associação entre a deficiência de vitamina D e o desenvolvimento de depressão pós-AVC. A vitamina D é uma vitamina lipossolúvel associada à manutenção da função imunológica e da integridade do sistema cardiovascular, e a sua deficiência tem vindo a ser associada a um aumento do risco de dilirium ou depressão no período pós-operatório (sugerindo assim que tenha também uma função neuropsiquiátrica e neurocognitiva). Face ao exposto, Hung e colaboradores colocaram a hipótese de que a sua deficiência poderia estar associada ao desenvolvimento de depressão pós-AVC.

Os resultados desta meta-análise confirmaram esta hipótese, revelando que indivíduos com depressão pós-AVC apresentavam níveis mais baixos de vitamina D em circulação, em comparação com indivíduos sem depressão pós-AVC. Sem terem sido identificados outros potenciais fatores confundidores, a deficiência em vitamina D (definida por níveis circulantes de 25-hidroxivitamina D < 50 nmol/L) foi identificada como um fator de risco modificável para o desenvolvimento de depressão, tendo os baixos níveis de vitamina D sido associados a um aumento de 3 vezes no risco de desenvolvimento de depressão pós-AVC.

Apesar de ainda não terem sido totalmente esclarecidos os mecanismos fisiopatológicos, i) o envolvimento da vitamina D na síntese de neurotransmissores como a serotonina, noradrenalina e dopamina, que têm impacto na regulação do humor; ii) o efeito da vitamina D no sistema imunitário e na inflamação, e por consequência, no desenvolvimento de depressão; iii) a alteração no eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal relacionado com baixos níveis de vitamina D, que se pode traduzir numa alteração do humor e dos níveis de stresse; e iv) a associação entre baixos níveis de vitamina D e baixos níveis de estradiol nas mulheres, e o impacto positivo que o estradiol parece ter na melhoria da depressão pós-AVC, poderão estar na base desta associação.

Além da associação entre a deficiência de vitamina D e o desenvolvimento de depressão pós-AVC, outros fatores de risco como o sexo (feminino) e a dislipidemia foram também encontrados.

Uma vez que a depressão pós-AVC constitui um forte fator de agravamento dos outcomes de saúde destes indivíduos a curto e longo prazo, contribuindo para o aumento do tempo de internamento hospitalar, profundos défices cognitivos, perda da capacidade funcional marcada, menor qualidade de vida, piores resultados na reabilitação e, até, aumento da mortalidade, torna-se necessária a identificação precoce dos níveis de vitamina D em todos os indivíduos com elevado risco cardiovascular e  atuar na prevenção primária da sua deficiência em toda a população.

Em conclusão, considerando que 60% da população portuguesa apresenta deficiência de vitamina D e 68% apresenta dois ou mais fatores de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, faz-se necessário monitorizar de forma sistemática os níveis de vitamina D, com o objetivo de identificar os indivíduos em risco de inadequação e, por consequência, intervir precocemente. Mais ainda, a recomendação de uma intervenção nutricional individualizada (ex. com recurso a suplementação com vitamina D) poderá ser uma abordagem de prevenção e/ou terapêutica. Deste modo, é reforçada a importância da vitamina D para a saúde e realçado o impacto negativo que a deficiência da mesma poderá ter para a carga de doença e perda de anos de vida saudável. Nunca esquecendo que se trata de uma hormona!

Bruna Barbosa

Nutricionista Estagiária (4093NE)
Alumni NOVA Medical School
Investigadora júnior, Metabolismo e Nutrição, NOVA Medical School, UNL

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