Será a Vitamina B12 um nutriente critico nos padrões alimentares atuais? 814

A vitamina B12 (cobalamina), considerada um micronutriente essencial, que desempenha um papel crucial na replicação e manutenção da informação contida nas nossas células, é por isso considerada como um elemento crítico do funcionamento e metabolismo celular. Esta vitamina detém igualmente uma ação complementar à ação dos folatos (vitamina B9) e de alguns aminoácidos essenciais como a metionina, sendo também por isso um nutriente fundamental no desenvolvimento fetal, durante a gravidez, e nos primeiros anos de vida.

Diversos estudos defendem inclusive a combinação desta vitamina, em conjunto com os folatos, como suplementação obrigatória para a mulher grávida. Estes, reportam também que a ausência de alimentos ricos em vitamina B12 na dieta da grávida pode conduzir ao nascimento de crianças com anemias severas e danos neurológicos graves. Podemos encontrar também evidência científica que relaciona baixos níveis séricos desta vitamina com o desenvolvimento de diversas patologias, como a anemia megaloblástica, a neuropatia periférica (formigueiro nas mãos e pés), demência (incluindo doença Alzheimer) e o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

Com tudo isto em consideração devemos então pensar: quais os alimentos que nos podem fornecer quantidades adequadas desta vitamina?

Esta vitamina só pode ser encontrada em quantidades adequadas nos alimentos de origem animal e/ou alimentos fortificados. A sua presença é inexistente em qualquer alimento de origem vegetal. No entanto, quer alimentos fortificados, quer nos suplementos, as formas químicas adicionadas podem levar a diferentes comportamentos na bioacessibilidade celular das cobalaminas de origem sintética (Cianocobalamina; Hidroxocobalamina, etc), embora sejam ainda necessários mais estudos neste âmbito.

Os alimentos mais ricos em vitamina B12 são a carne e o peixe, incluindo os moluscos e bivalves. No peixe, espécies como a cavala ou a sardinha são as que apresentam os valores mais elevados. Na carne a quantidade de vitamina B12 varia bastante dependendo da espécie. A carne de vaca e borrego (em especial o fígado) podem ter até 3 vezes mais Vitamina B12 que a carne de aves. Outras fontes importantes são os ovos e os produtos lácteos.

Considerando que, de acordo com os resultados do Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física, a população portuguesa consome carnes, em especial, carnes vermelhas em excesso, pelo que devemos diminuir o seu consumo. Para além disso é igualmente importante que tenhamos consciência da necessidade em ponderar opções alimentares que englobem uma dieta o mais variada possível, harmonizando a necessidade de sustentabilidade ambiental com a saúde humana.

Vivemos numa época em que é sobejamente reconhecida a necessidade de mudar para padrões alimentares em que os componentes da dieta de origem não animal sejam preponderantes em relação aos de origem animal. No entanto, alguns cuidados devem ser tidos em conta, nomeadamente aqueles que levem a dietas onde a carne, o peixe, os ovos e os produtos lácteos são completamente excluídos.

Em dietas vegetarianas ou mais restritivas como as dietas “vegan” a ingestão de alimentos de origem animal é diminuída ou inexistente. Este facto pode resultar em deficiência deste micronutriente essencial, com diferentes repercussões que podem ser diferentes em cada indivíduo, especialmente se tivermos em consideração as faixas etárias mais vulneráveis e algumas patologias associadas.

Neste sentido, o Departamento de Alimentação e Nutrição (DAN) do instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) tem desenvolvido um trabalho preponderante, no sentido de aumentar o conhecimento relativo às diferentes formas químicas presentes, quer nos alimentos em natureza, quer nos fortificados, avaliando igualmente o impacto dos métodos de confeção na sua qualidade nutricional.

Neste momento, o DAN tem uma equipa multidisciplinar, no âmbito de um projeto de investigação financiado, a estudar in vitro e in vivo o impacto nas células neuronais e quais os mecanismos envolvidos no desenvolvimento de doença aterosclerótica e cognitiva das diferentes resultantes da ação das diferentes formas químicas das cobalaminas incluindo as sinergias com outros micronutrientes como sejam os ácidos gordos essenciais (DHA), folatos, zinco e selénio.

Carla Motta
Investigadora do Departamento de Alimentação e Nutrição do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge

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