Os primeiros são sempre os últimos! E no intestino? 0 984

A relação entre o microbiota intestinal e o estado de saúde tem marcado a investigação na última década. No final de setembro de 2019 o número publicações científicas na PUBMED relativas ao tema é cerca de 30x superior ao total de publicações em 2009.

Todavia, a maioria dos trabalhos científicos utiliza como amostra biológica para o estudo do microbiota intestinal as fezes, descritas como uma ‘boa fonte de informação e de fácil acesso’, mas que acaba por caracterizar com maior precisão o microbiota da porção distal do intestino.

No cólon existe a maior concentração de microrganismos, dado que as condições de anaerobiose e de maior pH, possibilitam um maior crescimento bacteriano. Contudo, é no duodeno e jejuno que ocorre a digestão e absorção de nutrientes, que há um contacto significativo entre os alimentos e os microrganismos, que está o sistema imunitário associado à mucosa, e a verdade é que o conhecimento sobre o microbiota da primeira porção do intestino é bastante reduzido. Sabe-se que existe uma menor quantidade de microrganismos, com maior diversidade, mas a sua funcionalidade é algo que ainda tem muito a desvendar.

No trabalho de Zoetendal et al. verifica-se que o genoma do microbiota do intestino delgado, comparativamente com o do colon, tem uma riqueza significativamente maior em genes associados ao metabolismo de hidratos de carbono. Num estudo em modelo animal, uma dieta rica em gordura promoveu alterações significativas na composição do microbiota do intestino delgado, aumentando a absorção de gordura.

Relativamente a micronutrientes, sabemos que a maior parte da vitamina K é obtida pela síntese bacteriana, entre elas o género Veillonella, identificado como prevalente neste segmento intestinal. Mais ainda, que a vitamina B12 é co-fator no metabolismo de microrganismos gram-negativos presentes no intestino delgado. Por outro lado, a absorção de vitamina B12 poderá ficar comprometida pela presença do género Bacteroides, uma vez que estas bactérias competem para ligação ao fator intrínseco, essencial para a sua absorção intestinal. Assim, não é surpreendente que esteja descrita a deficiência de vitamina B12 e a alteração nos níveis de vitamina K aquando de uma proliferação bacteriana excessiva no intestino delgado (SIBO, small intestinal bacterial overgrowth), condição associada sintomas como flatulência, inchaço e desconforto abdominal, que caracterizam as doenças intestinais funcionais. Saffouri et al. procurou caracterizar o microbiota do intestino delgado, e perceber como é que alterações alimentares podem ajudar a diminuir os sintomas dos indivíduos com doenças intestinais funcionais.

Os resultados destacam a importância da identificação dos microrganismos presentes no intestino delgado, uma vez que os indivíduos com flatulência, diarreia e desconforto abdominal tinham um microbiota diferente quando comparado com o grupo controlo. Mais, realçam o papel da alimentação ao verificarem que a mudança de uma dieta rica em fibra para uma dieta com teor elevado em açúcares simples, durante 7 dias, levou à diminuição da diversidade bacteriana, ao aumento da permeabilidade intestinal, juntamente com o aparecimento dos sintomas gastrointestinais.

De facto, são poucos os estudos publicados que se dedicaram à caracterização do microbiota da primeira porção do intestino, dado o desafio que representa a colheita das amostras bem como a elevada variabilidade. Contudo, a identificação mais detalhada e a caracterização da função dos microrganismos que nele habitam é essencial para perceber a sua relação com o estado de saúde, e delinear estratégias apropriadas para doenças com este relacionadas e que até então não possuem tratamento, como poderão ser as doenças funcionais do intestino.

Ainda assim, na clínica, o teste respiratório para deteção de hidrogénio e metano, sem identificar microrganismos, constitui uma ferramenta útil no diagnóstico da SIBO, que merece uma estratégia terapêutica específica antes de se iniciarem restrições alimentares de forma indiscriminada.

Inês Barreiros Mota
Nutrição e Metabolismo da NOVA Medical School | Faculdade de Ciência Médicas, UNL
Nutricionista (3718N) Investigadora ProNutri, CINTESIS

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