Notas e anotações 887

O Natal está às portas e com ele chegam o espírito festivo e a ansiedade em torno da ceia de Natal, dos seus sabores e do prazer do convívio com a família em redor da mesa. Para algumas pessoas e famílias, a festa estende-se por longos períodos, dos finais de novembro até janeiro, no Dia de Reis.

As campanhas de marketing tornam-se constantes, avassaladoras e irresistíveis. Muitas regras de bem-estar, de práticas saudáveis e princípios de respeito à vida e ao ambiente são abandonados e substituídos por uma infinita sede de satisfação imediata e explosão emocional.

As ruas e as casas enchem-se de luzes e decorações natalícias. Começam a idealizar-se os presentes e as iguarias tradicionais que vão encher a mesa da ceia de Natal. O êxtase faz perder o medo e a vergonha. Os incidentes associados ao consumo excessivo de álcool multiplicam-se e cresce o número de casos de intoxicação alimentar. Os supermercados são inundados por alimentos tipicamente consumidos nesta época, como peru, bacalhau, bolo-rei, rabanadas, filhoses, sonhos e aletria, que enchem as despensas e as mesas das famílias durante toda a época natalícia.

Muito facilmente se cometem excessos alimentares, sendo frequente o consumo abusivo de gorduras saturadas, açúcares refinados e sal, que se traduzem em riscos e perigos que podem deixar marcas profundas e duradouras. O desperdício alimentar torna-se uma expressão da fartura e traduz-se num aumento de resíduos orgânicos. As preocupações ambientais são esquecidas e, pelas ruas, enchem-se contentores de sobras, papel e embalagens. Muitas famílias põem nas costas pesadas dívidas que podem arrastar-se por longos períodos, na ânsia de uma mesa farta e de um desenfreado consumismo material.

Agora que o Natal está às portas, vale a pena parar para refletir. O Natal simboliza o nascimento e a vida, devendo ser celebrado com humanismo e respeito pela base de recursos naturais que sustentam a vida, incluindo os alimentos.

Não é preciso ter um diagnóstico de doença crónica, como diabetes, doenças cardiovasculares e obesidade para se ter consciência da necessidade de fazer boas escolhas alimentares. Só uma alimentação equilibrada e saudável, baseada em alimentos naturais, alimenta simultaneamente o corpo e alma. Não custa lembrar que instituições como a Direção-Geral da Saúde e a Associação Portuguesa dos Nutricionistas, desenvolveram manuais contendo sugestões e receitas para um Natal mais saudável, mantendo o respeito pelas tradições e sabores e alertando para o tema do desperdício alimentar. Alterações simples como a inclusão de sopas ricas em hortícolas, legumes da época e leguminosas, cereais integrais, oleaginosas como nozes, avelãs e pinhões, sobremesas com base em frutas, sumos naturais e água, podem tornar a ceia de Natal mais saudável e equilibrada e feliz, e perspetivar um ano novo cheio de vida.

Hélder Muteia,
Coordenador Sub-regional da FAO para a África Central

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