Investigadora Maria João Amorim conquista bolsa europeia para desenvolver nova geração de antivirais contra a gripe

Maria João Amorim, investigadora do Centro de Investigação Biomédica (CBR) da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa (UCP), acaba de receber uma bolsa “Proof of Concept” (PoC) do Conselho Europeu de Investigação (ERC), para desenvolver uma abordagem inovadora no combate ao vírus da gripe A.

O projeto pretende criar uma classe de medicamentos antivirais capazes de bloquear a replicação do vírus através de um mecanismo distinto dos tratamentos atualmente disponíveis, abrindo novas perspetivas para o combate às epidemias de gripe e à resistência antiviral na Europa.

O vírus da gripe A (influenza A) é responsável por epidemias sazonais que provocam entre três e cinco milhões de casos graves e até 650 mil mortes por ano. Apresenta também um elevado potencial pandémico, tendo originado quatro pandemias desde 1900.

“O projeto, que denominamos por LOFlu_TREAT, representa uma mudança radical relativamente ao desenho tradicional de antivirais”, revela a investigadora Maria João Amorim, líder do projeto e do Laboratório de Biologia Celular da Infeção Viral do Centro de Investigação Biomédica (CBR) da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa (UCP), em comunicado.

“Valorizem o vosso trabalho: a investigação merece ser partilhada e reconhecida”

“Em vez de inibir funções enzimáticas que os vírus conseguem frequentemente contornar através de mutações no RNA que codifica as enzimas e outras proteínas virais, a nossa estratégia visa bloquear as propriedades físicas das estruturas virais. Isto abre uma modalidade terapêutica completamente nova no campo dos antivirais,” explica a investigadora.

O projeto resulta diretamente dos avanços alcançados no âmbito do ERC Consolidator Grant LOFlu, anteriormente atribuído a Maria João Amorim. Esta investigação demonstrou, pela primeira vez, que o endurecimento destas estruturas virais consegue bloquear a infeção pelo vírus da gripe em células e modelos animais.

Um dos principais objetivos do projeto é o de reduzir o risco de resistência aos medicamentos, uma das maiores limitações dos antivirais atualmente disponíveis. Para tal, a equipa pretende desenvolver diferentes moléculas designadas vRNP-clips que poderão ser utilizados em combinação, tornando significativamente mais difícil ao vírus desenvolver mecanismos de escape. “Ao combinarmos diferentes moléculas direcionadas para alvos distintos do vírus, aumentamos substancialmente a dificuldade de surgirem variantes resistentes ao tratamento, reforçando a sua eficácia a longo prazo,” salienta Maria João Amorim.

Outra das vantagens desta abordagem é a elevada seletividade: como estas estruturas existem apenas em células infetadas, os vRNP-clips atuam especificamente sobre componentes virais, minimizando o impacto nas células saudáveis e reduzindo potenciais efeitos secundários.

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O potencial desta investigação poderá, no entanto, ir muito além da gripe. Os investigadores do CBR identificaram estruturas semelhantes noutros agentes patogénicos, incluindo os vírus responsáveis pelo Ébola, pela raiva, pelo VIH e pelo vírus sincicial respiratório. Caso esta estratégia seja eficaz, poderá abrir caminho ao desenvolvimento de uma nova geração de antivirais aplicável a múltiplas doenças infeciosas.

Além do seu potencial terapêutico, o LOFlu_TREAT permitirá aprofundar o conhecimento sobre os mecanismos de replicação viral, a biologia dos condensados biomoleculares e novas estratégias de desenvolvimento de medicamentos, demonstrando como a investigação fundamental pode dar origem a soluções concretas para responder a desafios globais de saúde.

Com duração prevista de 18 meses, e um volume de financiamento no valor de 150.000 euros, a equipa do projeto pretende avançar esta tecnologia até uma fase de validação pré-clínica, aproximando-a de futuros ensaios em humanos.