Estilos de vida, dieta e envelhecimento: a taurina 1861

A expressão “antienvelhecimento” é muito utilizada, vulgarizada, muitas vezes com o propósito de referência a produtos cosméticos ou a suplementos nutricionais, tantas vezes não comprovados, mas que se dizem destinados a retardar ou reverter o envelhecimento. Isto tem a infeliz consequência de criar confusão entre o público em geral e diminuir a credibilidade e o impacto da descoberta científica legítima.

De acordo com Mitchell Lee, Science 2021 (vol. 374), devemos definir ‘antienvelhecimento” como ações/mecanismos de retardar ou reverter o envelhecimento biológico, influenciando/ modulando os mecanismos moleculares envolvidos no envelhecimento, que foram identificados como “marcas” ou “pilares” do envelhecimento.

Intervenções antienvelhecimento eficazes em animais de laboratório aumentam a esperança média de vida e máxima da população e atrasam amplamente o início e a progressão de muitos declínios funcionais e doenças relacionados à idade. Este último efeito é muitas vezes referido como “expansão do período de vida com saúde”, que é um termo qualitativo que se refere ao período de vida livre de doenças crónicas e incapacidades.

Estudos recentes mostram que pelo menos algumas intervenções antienvelhecimento, como o medicamento rapamicina, podem reverter declínios funcionais em múltiplos tecidos em animais idosos. Com base nesta definição, ainda não existem intervenções antienvelhecimento clinicamente validadas em humanos. No entanto, existem algumas evidências consistentes com os efeitos antienvelhecimento da restrição calórica, e mais recentemente do jejum intermitente, bem como de fármacos protetores, metformina e rapamicina.

A rapamicina, um imunodepressor comumente utilizado contra o processo de rejeição a órgãos transplantados. A rapamicina foi descoberta acidentalmente nos anos 1970, na Ilha de Páscoa, ao verificar-­se que evitava casos de tétano, e o seu nome deriva da denominação aborígine do território chileno, Rapa Nui. Constatou-­se, em ratinhos, um aumento de até 38% na esperança de vida. Há, em todo o mundo, pelo menos 2 000 ensaios clínicos para testar o efeito ‘antienvelhecimento’ em humanos.

No entanto, mais do que aumentar o número de anos de vida, a aposta científica está em atingirmos um envelhecimento 3.0, ou seja, mais anos, mas com saúde. A prevenção é a grande aposta. A prevenção daquelas que são as doenças mais relacionadas com os estilos de vida, as chamadas doenças crónicas não transmissíveis. A verdade é que sabemos que Portugal é um dos países que, apesar da esperança média de vida elevada, tem na OCDE o maior número de indivíduos com mais de 65 anos com doença. Vivemos mais, mas com doença.

Ora este investimento, em medidas a adotar de modo a que se viva mais e com saúde, terá também obviamente impacto político, em particular nos sistemas de saúde (sustentabilidade) e por consequência nas finanças e economia do país.

Voltando aos dados científicos, se a rapamicina tem sido investigada, serviu para identificar claramente uma via metabólica chave no envelhecimento, a via da mTOR. Sabemos que este fármaco apesar do sucesso no modelo animal traz nos humanos efeitos colaterais nada desejáveis. No que diz respeito à nutrição e na sua relação com esta via, sabemos que a insulina estimula esta via, e que a restrição calórica, por um lado, e o jejum, por outro, inibem esta via.

Assim se compreende a importância da restrição calórica (não a ponto de malnutrição) e do jejum noturno, sustentados nos conhecimentos da cronobiologia e crononutrição, apresentam por inibirem a via da mTOR e ativação da via da AMPK por exemplo, vias necessárias para a biogenese mitocondrial.

Não será difícil de perceber que a biossíntese deste organelo é muito importante para a eficiência energética, não só no que possa dizer respeito à capacidade oxidativa mas também porque a renovação permite não acumular espécies reactivas de oxigénio, por exemplo. Sabemos que a restrição calórica foi muito associada nos seus benefícios a uma diminuição do stresse oxidativo. Sabemos o quanto a atividade mitocondrial em ‘sobrecarga’ pode levar a acumulação de espécies oxidantes.

Na verdade, a investigação sobre o envelhecimento pode ter suas raízes em estudos do início de 1900 que examinaram os efeitos da redução da ingestão de alimentos na expectativa de vida no Rato. Estas experiências pioneiras mostraram que a redução da ingestão calórica em animais criados em laboratório atrasa o desenvolvimento e resulta num aumento substancial da esperança de vida adulta. O trabalho de Weindruch, Masoro, Walford e outros nas décadas de 1970, 1980 e 1990 expandiu e popularizou esta área de investigação no modelo animal (Rato e Ratinho) e estabeleceu a restrição calórica (RC) como o paradigma dominante para a intervenção antienvelhecimento para o resto do século XX. Estes estudos fundamentais forneceram fortes evidências de que a RC não só aumenta o tempo de vida dos roedores, mas também reduz a carga de doenças e atrasa muitos declínios funcionais associados e observados no envelhecimento.

Entre sirtuinas, desacetilases das histonas, regulação dos níveis de NAD/NADH, resveratrol, entre outros mecanismos e outros compostos presentes na dieta, neste mês de agosto foi publicado um estudo com muita relevância na área, mais um da revista Science, do grupo liderado por Vijay Yadav, PhD, Professor do Dept. of genetics & development at Columbia University Vagelos College of Physicians and Surgeons.

Desta vez sobre a Taurina.

Um composto azotado que podemos sintetizar (a partir de cisteína) ou obter na dieta. A evidência pelo menos no modelo animal é muito robusta, com um claro benefício da suplementação com taurina nos animais que tiveram suplementação uma vez que a deficiência em taurina está associada a mecanismos envolvidos no envelhecimento. Sabe-se que os níveis de taurina vão diminuindo ao longo da vida, que aumentam com o exercício físico por exemplo.

Se o precursor é a cisteína, estando este aminoácido envolvido na síntese de glutationa (antioxidante endógeno e elemento chave para reações de fase 2 de biotrasnformação, ou seja, reações de conjugação), não fica óbvio que o stresse oxidativo ou mesmo a necessidade de metabolizar por exemplo fármacos pode ‘esgotar’ a disponibilidade de cisteína e por consequência de taurina!

No artigo deste mês, na Science, a evidência do papel chave da taurina no envelhecimento é muito robusta pois analisam em estudos de intervenção com doses de 500 ou de 1000 mg de taurina/ kg de peso do animal, em mais do que uma espécie animal (Ratinho, Macaco), simulam o modelo animal de menopausa, e em humanos comparando os níveis de taurina (e dos seus metabolitos) em indivíduos sedentários com atletas de diferentes modalidades de modo a compararem indivíduos com diferentes tipologias: aeróbia ou anaeróbia (mais fibras vermelhas ou brancas).

Todos os resultados apontam para a mesma conclusão: a deficiência em taurina está relacionada com fenómenos típicos do envelhecimento tais como a perda da massa óssea. Os investigadores além do modelo animal testaram também a taurina em modelo celular (linhas celulares ou culturas primárias de osteoblastos).

Além dos seus efeitos no metabolismo ósseo, obviamente importante, existe ainda evidência ao nível da imunidade, com relação com a obesidade ou mesmo as doenças degenerativas associadas à idade.

A verdade é que a ciência está muito próxima de ajudar, não só a viver mais mas sobretudo a identificar mecanismos para evitar as doenças tipicamente que comprometem a saúde em idades mais avançadas. Por exemplo, neste artigo da Science a intervenção no modelo animal começou numa idade correspondente aos 45 anos no humano.

Sabemos que vale a pena prevenir, quanto mais precocemente, maior a probabilidade de sucesso.

Mas a esperança que nos trazem estes investigadores é grande pois a intervenção no modelo animal correspondente ao humano de 60 anos durante 1 ano também foi clara nos outcomes de saúde por comparação com grupo controlo.

No modelo animal de menopausa, a intervenção também traz esperança, mostrando inequívoca prevenção do ganho de massa gorda, preservação da massa óssea, aumento do gasto energético, preservação da massa muscular e ainda de melhorias ao nível da resistência à insulina. Ao nível molecular foi possível identificar um menor número de células ‘zombie’ (células que deviam morrer, mas que se mantêm com produção de compostos nefastos), maior número de células de renovação celular e ainda impacto ao nível das telomerases, eficácia mitocondrial e de melhor resposta a nutrientes (‘sensores’ melhoram).

Conceição Calhau, Professora Catedrática da NOVA Medical School
Nutricionista especialista em Nutrição Clínica, 0572N
Cátedra em envelhecimento Fundação Amélia de Mello

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