Dietas de Ano Novo 541

É inevitável – após as Festas, nos primeiros dias de janeiro de cada ano, a Consulta de Nutrição enche-se de pessoas em busca de uma dieta para perder o peso ganho nos excessos natalícios. Fazendo jus à velha máxima de “Ano Novo, Vida Nova” muita gente procura aconselhamento nutricional para finalmente se livrar daqueles quilos a mais. Mas, perante este cenário de altas expetativas e motivação elevada, o que têm os nutricionistas para oferecer? Há alguma “dieta nova” para 2023?

Fazer exercício, perder peso e viajar mais estão entre os desejos de ano novo mais frequentemente formulados em todo o Mundo. No entanto, frequentemente bastam poucas semanas para que a boa-vontade esmoreça e regressem as rotinas que sabotam as expetativas de que o novo ano traga uma vida diferente. Por esta razão, desde finais dos anos 80 do século passado que grupos de investigadores se têm dedicado a estudar o que acontece às resoluções de ano novo. Os resultados dos estudos publicados são interessantes e têm implicações importantes na práticas dos nutricionistas. Talvez um dos trabalhos que melhor resume o que faz com que as resoluções de ano novo se cumpram ou não, é o artigo de Martin Oscarsson e seus colegas publicado no final de 2020. Em resumo, neste estudo os autores concluem que as probabilidades de sucesso aumentam se as resoluções de ano novo 1) forem feitas de forma espontânea (i.e., sem que a pessoa esteja condicionada); 2) se tiverem suporte ao seu cumprimento e 3) se forem objetivos que impliquem atingir ou manter algo (em vez de evitar algo). Daqui é fácil perceber algumas implicações para os nutricionistas e as suas “dietas de ano novo”.

Em primeiro lugar, vale a pena saber junto dos que nos chegam à consulta nestes primeiros dias do ano, qual a verdadeira motivação para perder peso ou aprender a comer. É realmente um vontade própria? Ou, pelo contrário, estarão de alguma forma condicionados na sua ida ao nutricionista? Consultas marcadas pelo pai ou mãe, assim como consultas por referenciação de outra especialidade, significam muitas vezes que a pessoa que vai à consulta pode não estar devidamente preparada ou motivada para os passos que terá de dar. Um consulta de nutrição não é um comprimido mágico, não basta ir à consulta para que as coisas mudem. O nutricionista define e guia um conjunto de ações, que terão depois de ser executadas pelo utente. Sem um mínimo de vontade e motivação, não é possível atingir os resultados desejáveis.

O suporte é também um aspeto fundamental. Como muitos nutricionistas já sabem, os resultados são melhores quando é possível algum contacto com o utente após a consulta. Solicitar à pessoa que envie os registos semanais de peso por email ou convidá-la a ir à consulta pesar-se, pedir um diário alimentar, ou fazer contactos pontuais para saber como está a ser a adesão ao plano, são estratégias que mantêm o assunto “dieta” em top of mind e contribuem para melhores resultados.

Por fim, os objetivos definidos na consulta e o foco da comunicação. Em vez de apenas dizer à pessoa o que não deve comer, parece funcionar melhor focá-la naquilo que deve comer. Conhecer aquilo que cada utente já faz bem, consolidar esses hábitos e estende-los a outros comportamentos alimentares poderá ser mais eficaz para aumentar a adesão ao plano alimentar e, assim, conseguir melhores resultados. E se há casos em que é importante pedir a evicção de certas escolhas (sobretudo quando o consumo de alimentos muitos calóricos ou desequilibrados é mais significativo), torna-se fundamental orientar o comportamento para escolhas alternativas, oferecendo uma compensação nesse processo de mudança.

Nas sociedades modernas, a necessidade generalizada de perder peso (em Portugal, estima-se que 4 em 10 portugueses seguem uma dieta para emagrecer) contribuiu para criar uma “indústria de dietas”, onde se prometem resultados espetaculares e sem esforço. Neste contexto, surgem todos os anos novas “dietas”, a maioria sem fundamento científico ou eficácia comprovada. Por isso, é fundamental que os nutricionistas mantenham os seus princípios e boas práticas, em vez de seguirem estas modas na expetativa de diferenciação ou notoriedade. Afinal, a melhor “dieta de ano novo” será aquela que cada pessoa consiga fazer, baseada na melhor evidência, e com o apoio sincero e dedicado do seu nutricionista. Se for bem feita, já não é pouco…

Por Rodrigo Abreu
Nutricionista – Managing Partner na Rodrigo Abreu & Associados
Fundador do Atelier de Nutrição

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