Alimentos processados: realidades e necessidades 560

Nas últimas décadas, com a industrialização e a globalização dos sistemas alimentares, o processamento dos alimentos desenvolveu-se rapidamente, contribuindo para uma imensa variedade de alimentos sujeitos a diferentes tipos de processamento, e que sobretudo têm diferentes impactos na saúde. O consumo inadequado dos alimentos processados está, muitas vezes, associado ao desenvolvimento precoce de doenças crónicas não transmissíveis, principalmente porque estes são reconhecidos como tendo elevados teores de sal, gordura (saturada e trans) e açúcar. Estima-se que os hábitos alimentares inadequados contribuem para a perda de 15,4% de anos de vida saudável na população portuguesa.

A atual pandemia de obesidade e outras doenças crónicas não transmissíveis relacionadas com os hábitos alimentares da população, constitui uma séria ameaça ao bem-estar futuro e à prosperidade económica, a nível Mundial. Atualmente, assiste-se a um novo paradigma relativamente ao estado de saúde e qualidade de vida da população, uma vez que as pessoas vivem mais anos, mas vivem com mais comorbilidades (diabetes, doenças cardiovasculares, doenças respiratórias, obesidade e doenças oncológicas). Estas doenças estão, frequentemente, associadas a mortalidade e morbilidade precoce, tendo um impacto significativo na economia, principalmente devido à diminuição da produtividade, ao aumento do absentismo laboral e dos encargos com a saúde.

O processamento de alimentos está muitas vezes relacionado com potenciais consequências negativas na qualidade nutricional dos alimentos e, por sua vez, nos padrões alimentares da população e no aumento das doenças crónicas não transmissíveis. No entanto, o processamento de alimentos, per si, não deve ser encarado como um problema para a nutrição humana. Pelo contrário, desempenhou um papel fundamental na evolução da humanidade e das civilizações, tornando a alimentação mais segura e diversificada. Para além disso, é extremamente importante para prolongar o tempo de vida útil dos alimentos ou simplesmente para os tornar edíveis.

A saúde pública refere-se à prevenção de doenças, prolongamento da vida e promoção do bem-estar físico, mental e social. Portanto, é de extrema importância estudar os aspetos nutricionais e de segurança dos alimentos processados ​​e aprofundar o conhecimento sobre o consumo desses alimentos para avaliar o potencial impacto na saúde pública.

Desde há muitos anos que o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, através do seu Departamento de Alimentação e Nutrição (DAN), desenvolve trabalho na área da composição dos alimentos, fundamental para a elaboração de recomendações alimentares, e para a formulação de políticas alimentares e de saúde em prol da saúde pública.

Neste sentido, o DAN vem desde 2012 a desenvolver atividades de investigação na área da qualidade nutricional e segurança dos alimentos processados através do projeto de investigação PTranSALT – Avaliação de ácidos gordos trans, gordura saturada e sal em alimentos processados: estudo do panorama português. Até à data este trabalho incluiu a avaliação dos teores de sal, gordura e composição em ácidos gordos de cerca de 400 alimentos processados e ultraprocessados. Tem-se observado uma tendência na diminuição dos teores de ácidos gordos trans. No entanto, continua a ser necessário definir estratégias para a redução dos teores de ácidos gordos saturados e de sal destas categorias de alimentos.

De acordo com a investigação conduzida até agora nesta temática, considera-se necessário envolver as instituições académicas, os investigadores, e a indústria para termos mais dados sobre ocorrência de nutrientes e compostos emergentes em alimentos processados, mas também incluir outros profissionais para termos dados de consumo.  Só assim será possível fazer uma avaliação de risco de exposição e do potencial impacto na saúde associado ao consumo destes alimentos, contribuindo com informação fundamental para a formulação de políticas alimentares e de saúde que visem melhorar o estado nutricional da população.

Tânia Gonçalves Albuquerque
Nutricionista, Doutorada em Ciências Farmacêuticas – Especialidade de Nutrição e Química dos Alimentos
Departamento de Alimentação e Nutrição
Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA)

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