Suplementação no Desporto: Nutricionistas alertam para riscos da falta de regulação

Por Margarida Nogueira

O consumo indiscriminado de suplementos alimentares no âmbito desportivo está a suscitar preocupação entre os profissionais de saúde. Durante o 3.º Congresso da Ordem dos Nutricionistas, especialistas reunidos no painel dedicado à suplementação no desporto salientaram que estes produtos nunca devem ser encarados como a primeira resposta para a melhoria do rendimento. Segundo os palestrantes, a base da performance e da saúde reside numa alimentação adaptada, no repouso adequado e numa hidratação correta.

Segundo Luís Miguel Silva, nutricionista no Centro de Medicina Desportiva do Porto, apoiado em estudos científicos, entre 9% a 15% dos suplementos alimentares disponíveis no mercado podem apresentar contaminação por substâncias não declaradas ou proibidas. Esta realidade aumenta a probabilidade de riscos para os praticantes federados, uma vez que vigora o princípio da responsabilidade objetiva no combate ao doping. Isto é, caso um atleta teste positivo numa análise, a responsabilidade legal recai inteiramente sobre o próprio, independentemente da origem ou do local de aquisição do produto. Por essa razão, os especialistas recomendam que os atletas guardem sempre uma amostra preservada do lote do suplemento consumido.

Um dos pontos centrais da discussão focou-se na crescente procura de suplementação por parte de jovens nas camadas mais jovens, entre os 11 e os 13 anos. As motivações variam entre as expetativas dos pais no futebol de formação, a procura de resultados estéticos em ambientes de ginásio e o impacto de conteúdos divulgados nas redes sociais.

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“Eu tive dois casos de jogadores de futebol, um com 11 anos, outro com 12, em que os pais estavam a questionar-me se eu sabia [de algum suplemento] para o crescimento, porque ele era dos mais pequenos [do clube]”, acrescentou Luís. No entanto, o mesmo alerta que estes não são casos únicos. Os vários palestrantes relataram a frequência com que recebem pedidos de intervenção nutricional ou de utilização de substâncias promotoras de rendimento por parte dos encarregados de educação em escalões de formação.

Assim, a conduta defendida pelos nutricionistas presentes passa por priorizar a correção de hábitos alimentares básicos antes de ponderar qualquer intervenção suplementar, sempre.

No entanto, o mercado de suplementação não tem a mesma regulação que o setor farmacêutico, sendo que muitos jovens e/ou atletas fazem um autodiagnóstico e compram o que consideram ser o melhor.

Por sua vez, Pedro Meirinhos, nutricionista e coordenador do departamento de nutrição no USC Paredes, alertou para a influência das redes sociais nestes autodiagnósticos. Muitos jovens vêm influencers de desporto a consumir certos suplementos e como acreditam que funciona, começam também a usar. “E, como não é regulado, o acesso é sempre facilíssimo”, principalmente agora com websites, como a Amazon, acrescentou.

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No entanto, Sara Adalsina Moreira, nutricionista na área desportiva do ciclismo e do taekwondo, defende que as lojas físicas também podem representar um problema. “Em Santa Maria da Feira, onde eu trabalho, existe uma loja de suplementos muito conhecida, e por eu saber que essa loja existe, recomendo comprar online. Porquê? Porque me comecei a perceber de que sempre que um paciente meu ia lá comprar, mesmo que com a indicação de um suplemento específico, era muitas vezes aliciado a levar mais termogénicos. E comecei a perceber que talvez fosse boa ideia não pedir para fazerem esta compra de forma presencial. Porque a loja quer vender, como é óbvio, e quanto mais vender, melhor”, alertou.

Perante este cenário, os profissionais defenderam a promoção da literacia em saúde junto do ecossistema desportivo, englobando equipas técnicas, treinadores, famílias e os próprios praticantes. A partilha de informação fundamentada sobre a eficácia e a segurança dos produtos foi identificada como o meio mais eficaz para apoiar decisões informadas.

Quanto aos caminhos a seguir no terreno, surgiram diferentes perspectivas. Por um lado, defendeu-se a escolha de marcas com selos de qualidade e testes de segurança. Por outro, discutiu-se a necessidade de regras e leis mais apertadas na venda de suplementos para proteger quem os compra.

Ainda assim, houve uma opinião unânime: o nutricionista é fundamental para avaliar cada caso. Só assim se garante que a toma de um suplemento é realmente necessária, segura e baseada na ciência.

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“O suplemento nunca substitui o trabalho de base nem deve ser tomado de forma indiscriminada; cabe ao nutricionista avaliar cada caso com rigor científico para garantir que a segurança e a saúde do praticante estão sempre em primeiro lugar”, concluiu Luís Miguel Silva.