Regressar ao trabalho após o isolamento social 0 1826

Antes de iniciar a sua atividade profissional, é fundamental refletir sobre a atual adversidade mundial, uma vez que é suscetível de gerar níveis elevados de stress. Ainda assim, pode florescer uma oportunidade de desenvolvimento pessoal. Apesar de desconfortável, interrogue-se se o regresso “ao normal” é mesmo o pretendido. A experiência recente mostrou não só que detemos um papel central na nossa proteção e na dos outros, como também que, visível pela disrupção do status quo, existem questões da nossa vivência que merecem ser reavaliadas.

Como tal, priorize ouvir as mensagens que as suas emoções lhe transmitem, questionando a sua origem e qual a sua relevância, para que as possa exteriorizar ajustadamente. Não se trata apenas de processar sentimentos, mas também de permitir que a sua atuação profissional seja a mais adequada possível.

Apesar das incertezas, certas condutas generalistas tendem a facilitar uma melhor adaptação ao novo cenário. Ainda que distintas consoante as idiossincrasias e situação de cada indivíduo, existem preocupações transversais – sobretudo, a dúvida acerca da nossa situação, presente e futura.

A suspensão da nossa autonomia coloca em causa funções, objetivos, necessidades e a noção de liberdade, controlo e seguridade. Embora a maneira como respondemos emocionalmente seja autónoma, a narrativa que construímos depois pode ser mediada. Centre-se naquilo que pode controlar. Após encontrar um equilíbrio saudável para si, concentre-se nas pessoas que lhe estão próximas e que pode ajudar. Neste sentido, é compreensível que a relação com determinados clientes se tenha modificado, especialmente se a saúde mental da pessoa não estiver cuidada. Se considerar benéfico, proponha a partilha de pensamentos ou receios num primeiro momento.

A reestruturação das condições de trabalho deve ser cautelosa, de modo a assegurar a segurança de todas as partes envolvidas, passando pela observância de todas as recomendações legislativas. Por sua vez, dependendo da especificidade de alguns clientes (e.g., imunocomprometidos, doentes) será benéfico, caso existam meios para tal, propor a continuação das consultas remotamente.

Se é verdade que a pandemia nos colocou num nível de suscetibilidade similar, nem todos foram ou serão afetados do mesmo modo. Posto isto, deve antecipar o pedido de espaçamento da assiduidade ou mesmo desistência por parte de alguns clientes, já que existe a possibilidade de alguns terem deixado de possuir recursos ou disponibilidade para tal. Deve preparar um plano de ação com isso em conta.

Na retoma da sua atividade laboral, analise a sua rotina e modifique-a conforme necessário. Organize o seu tempo e avance segundo o seu ritmo, consciente de que poderá levar algum tempo a encontrar um equilíbrio. Seja flexível e não se recrimine se não conseguir completar o estipulado. Mais, não queira “compensar o tempo perdido” preenchendo-se de trabalho e acrescente momentos de lazer.

Esforce-se para não consumir todos os meios de informação. Ainda que seja indispensável estar esclarecido, não é prudente focalizar-se somente neste género de conteúdos. Desconete-se periodicamente e restrinja o consumo para momentos específicos do dia e apenas de fontes credíveis de informação. Exemplificando, privilegie os factos e o saber da sua área de intervenção.

Por fim, ainda que o risco de contaminação seja elevado, existem estratégias para evitar a sua propagação. Concentre-se naquilo que pode executar para evitar o contágio.

João Romeiro
Psicólogo Clínico

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