Quanto tempo demora uma consulta? 1038

“Mas, deixe-me fazer só mais uma pergunta…” disse a senhora pela terceira ou quarta vez, já depois de ultrapassados o tempo previsto para aquela primeira consulta. Tinha visto e registado todos os antecedentes pessoais e familiares, feito as medições e pesagem, analisado detalhadamente a anamnese alimentar e, por fim, negociado cada refeição do plano alimentar, contemplando todos os cenários indicados pela utente. Mesmo assim, parecia não ser suficiente… E o utente seguinte já à espera!

Afinal, quanto tempo deve demorar uma consulta de nutrição? A questão é pertinente, e uma espécie de busca pelo Santo Graal – qual o tempo ideal para transmitir tudo o que é fundamental para o sucesso dos nossos utentes? 30 minutos? 45? Uma hora? A Ordem dos Nutricionistas é clara nas indicações sobre o que deve ser feito numa consulta, mas fatores como a experiência do(a) nutricionista, as condições em que trabalha ou o seu estilo pessoal de comunicação, podem fazer com que consultas “tecnicamente” iguais possam sofrer variações significativas na sua duração. Outra questão frequente é saber se deve fazer-se distinção entre a primeira consulta e as seguintes. Na realidade, em qualquer conversa entre nutricionistas, vamos ouvir seguramente diversas opiniões, todas elas com a sua validade. Mas, talvez, mais que pensar na duração da consulta, se deva pensar no que fazer com esse tempo, seja ele muito ou pouco…

Uma boa pista vem do famoso estudo “Patient complaints and malpractice risk” publicado no JAMA em 2002, e de estudos similares que se lhe seguiram. Nestes trabalhos procurou-se perceber quais os fatores que se associam às reclamações ou processos por má prática contra médicos. Curiosamente, os analistas de risco que fazem seguros profissionais a médicos nos EUA descobriram que os médicos não são processados de forma proporcional ao número de erros que cometem. Desde o primeiro contacto entre paciente e médico, há um conjunto de fatores que aumentam o risco de uma reclamação/processo. Por exemplo, os médicos que se levantam para cumprimentar o paciente à entrada da consulta têm menos probabilidade de ser processados em caso de erro por má prática. Esta é uma lição valiosa para o(a)s nutricionistas – estando o sucesso da nossa intervenção intrinsecamente ligado à adoção das recomendações deixadas na consulta, é fundamental que se crie desde o primeiro momento uma relação empática, onde haja espaço para ouvir o utente e atender às suas necessidades e expectativas.

No entanto, uma relação empática não significa fazer tudo o que o utente deseja! Uma consulta rege-se por regras, que são essenciais à boa prática e ao bem comum de todos – um utente que não respeita o tempo destinado à consulta, molesta não só o(a) nutricionista, mas também os restantes utentes. Boas estratégias para terminar a consulta no horário previsto passam por:

– Ser objetivo na forma de recolher a informação necessária, ouvindo o utente, mas limitando a conversa sem valor para a consulta;

– Explicar ao utente que deve focar-se nos temas abordados naquela consulta, para não se dispersar noutros assuntos que, naquele momento, podem não ser prioritários para o seu sucesso;

– Manifestar disponibilidade para esclarecimentos adicionais fora do tempo de consulta, via email ou telefone;

– Avisar delicadamente o utente sobre a duração da consulta. Por exemplo, dizer “ainda temos 5 minutos para falar disso antes do fim da consulta” ou, no início da consulta, explicar que “nos próximos 45 minutos vamos abordar (…)”.

Igualmente importante é não ter atitudes hostis ou desrespeitosas: interromper bruscamente a pessoa e/ou não a deixar falar, ou olhar ostensivamente para o relógio pode “funcionar”, mas revela falta de educação e mina a confiança entre utente e nutricionista. Mas se, sistematicamente, as consultas parecem curtas aos utentes, talvez seja boa ideia aumentar o tempo previsto.

Em suma, fazer uma boa gestão do tempo de consulta e comunicar de forma clara e aberta com os utentes são competências fundamentais para o sucesso da nossa intervenção. Vale a pena dedicar algum tempo a avaliar o nosso desempenho neste aspeto particular, para que, acima de tudo, o tempo de consulta seja proveitoso para nutricionista e utente!

Rodrigo Abreu
Nutricionista
Managing Partner na Rodrigo Abreu & Associados
Fundador do Atelier de Nutrição

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