Pão pão, Queijo queijo 260

É incontornável – goste-se ou não, use-se muito ou pouco, a verdade é que as redes sociais são hoje parte das nossas vidas. E se para muitos servem apenas para ir mantendo contacto com familiares ou amigos, o número daqueles que as usam para fazer negócios é cada vez maior. O que levanta várias questões, sobretudo quando se envolve Saúde e Ciência.

Desde logo, a internet mudou a forma como consumimos informação de saúde. Uma vez que passou a ser possível encontrar milhões de respostas para qualquer pergunta em menos de um segundo (literalmente), como saber o que realmente nos interessa? Um dos maiores desafios atualmente é filtrar a informação existente, de modo a distinguir a válida daquela sem origem conhecida ou duvidosa. Esta busca por aquilo que é relevante para cada um de nós pode fazer-nos perder horas de pesquisa nos motores de busca, sem garantia de encontrarmos aquilo que realmente necessitamos. Surgiu assim uma nova forma de procurar informação através do social media, onde esperamos que os conteúdos que consumimos sejam feitos ou selecionados por alguém em quem confiamos ou a quem reconhecemos credibilidade.

No entanto, sendo os conteúdos de saúde, e de nutrição em particular, muito apelativos, assistimos atualmente à presença de mensagens destas em todo o tipo de blogues e páginas – não só de saúde, mas de lifestyle, culinária ou desporto. As dicas de nutrição estão por todo o lado, não faltam sites a recomendar “super-alimentos” (existe tal coisa?), há “estudos” novos todas as semanas e a lista de comidas que nos “fazem mal” não para de crescer. E claro, uma vez que as mensagens de nutrição estão por todo o lado, para se destacarem têm de ser cada vez mais atrativas ou impactantes. Abundam os títulos sonantes e tornou-se banal ler que o açúcar é veneno (quando é o seu excesso que traz malefícios à saúde…), que o sal mata (o sódio é fundamental numa série de processos fisiológicos e, uma vez mais, é o seu excesso que nos pode fazer mal) e que não devemos comer glúten ou leite.

Uma vez que não é possível, nem desejável, censurar a informação disponível na internet, temos claramente um problema.

Se podemos entender (mesmo discordando) que haja quem se dedique a publicar palpites sobre nutrição para aumentar as visitas ou “likes” das suas páginas, esta atitude é mais difícil de aceitar quando são Nutricionistas a fazê-lo. Afinal, deveríamos ser os primeiros a zelar pelo bom nome da profissão, divulgando informação de qualidade, com tanta evidência quanto possível e de forma clara e explícita.

É preocupante assistir a profissionais de saúde que divulgam mensagens erróneas, incompletas ou descontextualizadas apenas para criar títulos apelativos que gerem muitos cliques e partilhas. À proliferação de posts sensacionalistas, devemos responder com conteúdos de qualidade. E mesmo se não estivermos todos de acordo nos conteúdos que publicamos, se estes estiverem devidamente fundamentados (como é nossa obrigação), estaremos a contribuir para o debate e para a evolução da própria Ciência. Só esta postura pode formar populações mais informadas e capazes de cuidar da sua saúde. Só assim se pode diminuir a alarmante iliteracia em saúde em que vivemos. E só assim poderemos ser reconhecidos e respeitados como legítimos guardiões de Saúde.

Rodrigo Abreu,

Nutricionista

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