Covid-19: Pandemia fez disparar relatos de fome nas linhas de apoio em crise 607

A pandemia de covid-19 fez disparar os pedidos de ajuda a várias linhas de apoio em crise, mas entre situações de ansiedade, problemas psicológicos e solidão, há um novo fenómeno a surgir: os relatos de fome.

Foi um traço comum na linha SOS Voz Amiga, na linha Conversa Amiga, da Fundação Inatel, e no Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise (CAPIC) do INEM. Em todas houve um aumento do número de chamadas desde março de 2020, quando começou a pandemia de covid-19.

O desemprego, as dificuldades económicas e a fome são problemas já conhecidos de algumas destas linhas de crise e que tiveram maior evidência durante a crise financeira que Portugal viveu a partir de 2010 e durante a intervenção da ‘troika’, cujo programa deixou como resultado uma taxa de desemprego que superou os 15% no auge da sua aplicação.

Anos depois, e em plena crise sanitária, estas linhas voltam a locais de desabafos para muitos que face aos constrangimentos provocados pela pandemia, com a perda de emprego ou o encerramento de negócios, ligam em busca de um consolo, de um aconselhamento ou até mesmo de um encaminhamento para estruturas mais vocacionadas para o efeito.

Se no início da pandemia os alertas estavam focados em aspetos emocionais, aumentando o número de chamadas relacionadas com a depressão, ansiedade, solidão, de ideias suicidárias e de problemas famílias, à medida que a pandemia se vai mantendo começam a chegar também outras angústias relacionadas com problemas económicos.

Joaquim Paulino, presidente da Linha SOS Voz Amiga, explica em declarações à agência Lusa que os voluntários deste serviço têm recebido chamadas de pessoas em desespero. São pessoas de várias profissões e áreas de atividade, incluindo da cultura, o que não era tão usual.

Os contactos são anónimos, explica, não existindo assim a vergonha de se expor. “Há uma situação nova de há já alguns meses, quatro a cinco meses, que é de chamadas de pessoas a relatarem que estão a passar fome, e que tem vergonha de o admitir e este sofrimento é incrível”, explicou.

O desespero, adianta, é ainda mais vincado em famílias com crianças. “Um pai ou uma mãe que não consegue dar sustento para os filhos é uma situação desesperante”, disse, adiantando que face a estas chamadas a linha escuta as angústias e indica algumas entidades que estão no terreno e que podem ajudar as famílias nestas situações.

Desde o início da pandemia, em março de 2020, a linha SOS Voz Amiga mantida com 35 voluntários, recebeu uma média de mil chamadas por mês, mais 400 em relação a anos anteriores.

O aumento da procura levou a uma necessidade de reforço de meios, estando previsto que em abril a equipa passe a ter 50 voluntários distribuídos por turnos, num horário de atendimento que passará a ser das 15:30 às 0:30.

Milhares de pessoas recorreram à Segurança Social entre março e setembro para requerer uma prestação social, havendo quase 12 mil novos beneficiários do Rendimento Social de Inserção, uma tendência “expectável” perante um possível agravamento da situação de pobreza.

De acordo com os últimos dados do Instituto de Segurança Social (ISS), entre março (quando foi decretado o estado de emergência por causa da pandemia provocada pela covid-19) e setembro, 32.036 pessoas pediram à segurança social para receber o Rendimento Social de Inserção (RSI), uma prestação social para quem está em situação de pobreza extrema.

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