Beber leite: sim ou não? 1058

As opiniões dividem-se. Aliás, têm surgido evidências científicas que alimentam este paradigma. Algumas, consideradas disruptivas, veem colocar em causa argumentos que, até agora, estavam a sedimentar-se a favor do consumo de leite. A VIVER SAUDÁVEL falou com especialistas – nutricionistas, professores e investigadores – para melhor entender o panorama atual.

A Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios (ANIL) anunciava, em 2018, que o consumo de leite havia sofrido uma diminuição de um milhão de litros por mês, acompanhando a quebra que se havia sentido desde 2008, que foi particularmente “brusca” em 2016 e 2017: foram vendidos, mensalmente, 36,5 milhões de litros e, no ano seguinte, o número fixou-se nos 35,5 milhões. O cenário exigiu que fossem tomadas medidas e, por isso, a ANIL levou a cabo uma iniciativa que alertava para “campanhas difamatórias do leite sem fundamentação científica”.

O Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral lançou a “Análise Setorial LEITE & LACTICÍNIOS”, em 2020, no qual justificava esta redução, em parte, pelas alterações dos padrões alimentares, nomeadamente na troca do leite pelas bebidas de origem vegetal. Para Nuno Borges, professor associado na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, e Conceição Calhau, professora catedrática na Nova Medical School, em Lisboa, este aumento é claro, mas não são particularmente adeptos de que sejam vistas como “substitutos” ou “alternativas”.

Mais recentemente, no início de 2022, a Grande Consumo, revista dos negócios da distribuição, dava conta de que 24,9% dos portugueses está a tentar reduzir o consumo de leite, segundo as conclusões retiradas de um estudo realizado pela Multidados – the research agency. O mesmo documento revela que 33,9% associa a dificuldade de digestão, enquanto a motivação de 18,9% se prende com o aumento da inflamação crónica. Por sua vez, 11,9% abandona o leite por não considerar que haja grandes benefícios associados, 6,8% fá-lo pela utilização de conservantes no processo de produção e, por fim, 5,1% estabelece uma associação a determinados tipos de cancro.

“É um tema que tem alimentado muitas discussões científicas, outras sem qualquer ciência na sua base e algumas assentes em pressupostos biológicos muito válidos, mas com falta de validação”, diz Conceição Calhau. A complexidade do assunto não é recente, mas enquanto se vão puxando fios de argumentos pró e contra o consumo de leite, a realidade continua a ser esta: “as recomendações alimentares, nacionais e internacionais, naquilo que tem de objetivo populacional, incluem leite e derivados em duas a três porções diárias”, explica a nutricionista. Nuno Borges reforça: “continua a justificar-se a recomendação do leite. Isso é indiscutível. No meu entender, não há nenhuma razão para não o fazer”, a não ser por motivações de intolerância, gosto ou proteção dos animais.

As bebidas vegetais são “equivalentes” 

O consumo de bebidas vegetais é visto, segundo a ANIL, como um dos responsáveis pela redução do consumo de leite a que se tem assistido. “É inegável que a escolha destas bebidas vegetais tem aumentado”, diz Nuno Borges. Já Conceição Calhau considera que a discussão criada em torno do tema também acabar por impactar esta substituição por produtos de origem vegetal. Entre ambos é também consensual que deve evitar-se chamá-las de “substitutos” ou “equivalentes”. “Os alimentos não se substituem entre si”, salienta a nutricionista, compreendendo que, num plano abstrato e facilitador se empregue o termo “equivalentes”. No entanto, só poderia ser particularmente válido adotá-lo em referência aos níveis de cálcio – e até aí há contrapartidas a ter em conta. “A bebida tem adição de cálcio que, em regra, será na mesma concentração da que é encontrada no leite de vaca (1200 mg/L), mas não existe certeza sobre a biodisponibilidade do mineral neste tipo de matriz alimentar”, argumenta.

E Nuno Borges, membro do grupo de investigação ProNutri, do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde – acrescenta: “o cálcio, por natureza, é uma substância muito difícil de se dissolver em água e, portanto, a natureza dotou os mamíferos de um esquema que o consegue fazer numa solução aquosa, como é o leite”. O nutricionista nota que este foi um processo que demorou “milhões de anos a aprimorar” e que, atualmente, o ser humano está totalmente apto para absorver o cálcio a partir de produtos lácteos, mas o mesmo não se pode dizer das bebidas de origem vegetal. “Além de ele nem se dissolver bem, a capacidade de o conseguir absorver nessas fontes é menor”, concretiza.

Enquanto esta substância está em falha em todas as bebidas vegetais, há uma, entre o leque cada vez mais variado, que consegue aproximar-se do leite num componente. “Na bebida de soja existe uma razoável equivalência no teor de proteína – que é um dos principais nutrientes que o leite oferece -, mas as outras não. Aliás, algumas até têm um teor residual”, sublinha. Numa pesquisa rápida que permita ilustrar o que diz, Nuno Borges mostra que, comparativamente ao teor proteico do leite – que se estabelece nos 3,5g por pacote -, há “similares” de amêndoa – só a título de exemplo – que têm apenas 1,4g. E quanto a hidratos de carbono, esta lacuna também é particularmente visível: enquanto o leite nunca tem mais do que 5g, esta bebida vegetal tem 8,4g, dos quais 6g são açucares.

Impacto positivo na microbiota 

Do leite, através de microrganismos, são feitos produtos fermentados que, segundo Conceição Calhau, são “importantes probióticos, com impacto positivo na flora intestinal (microbiota intestinal)”. No entanto, estes benefícios não podem estender-se às “alternativas” que hoje vão surgindo no mercado. “Um “iogurte” de soja – ou de outra matriz que não a fermentação do leite de vaca – pode ser entendido como um “pudim” pouco interessante do ponto de vista alimentar”, esclarece.

Todas as pessoas devem beber leite 

A capacidade de um adulto beber leite não é assim tão antiga quanto isso, tendo surgido apenas há cerca de dez mil anos. “Até lá, as pessoas ficavam com diarreia”, explica o nutricionista. Só se tornou possível contornar esta intolerância porque «houve uma mutação que permitiu que a enzima, a lactase, não desaparecesse logo na infância”. Ainda assim, há muita gente que se mantém intolerante. “No mundo inteiro, 35% das pessoas não tolera”, sublinha, acrescentando que uma parte significativa deste número recai sobre os asiáticos.

Em Portugal, embora não haja dados, foi noticiado, pelo Observador, em 2018, que a nível europeu “a frequência de indivíduos tolerantes pode variar entre 15 a 54% nas populações do leste e sul da Europa”, enquanto a parte central e ocidental está compreendida entre os 62 e 68%. Já as ilhas britânicas e a Escandinávia podem ter índices de tolerância muito mais elevados, entre os 89 e 96%

Dispensável na idade adulta 

Ainda que o leite vá perdendo destaque na alimentação ao longo da vida, nunca chega ao ponto em que deixa de ter qualquer relevância. “A importância estabiliza na idade adulta, por isso é que o leite e os produtos lácteos constam na roda dos alimentos portuguesa”, destaca Nuno Borges. No entanto, em contrapartida à necessidade absolutamente crucial do seu consumo nas primeiras fases da vida, o especialista considera que “na vida adulta, não há nenhum alimento que seja indispensável”.

Aumento do risco de cancro da próstata 

A última metanálise disponibilizada, já em 2022, que reúne e analisa estudos de diversos países, associa o maior consumo de leite a um aumento do risco de 8% no desenvolvimento de cancro da próstata. No entanto, é de salientar que esta conclusão foi retirada de casos em que a ingestão é claramente exagerada, acima dos 30 gramas de proteína láctea, por dia. “Isso corresponde a cerca de 750/800 ml por dia, ou seja, quase um litro”, clarifica Nuno Borges. “É um consumo acima do que está preconizado, por exemplo, na nossa roda dos alimentos, que ronda o meio litro diário”, salienta.

Aumento de IMC e massa gorda 

O International Journal of Obesity publicou um estudo, em 2021, que, de alguma forma, vem colocar em causa o argumento de que o consumo de leite estava associado a um menor Índice de Massa Corporal e massa gorda. Esta é a ideia que tem vindo a ser apoiada por diversos estudos, “mas ainda não estava bem demonstrado e, por isso, este artigo é, de certa forma, disruptivo”, diz Nuno Borges.

O artigo foi feito no Reino Unido e também juntou investigadores da Austrália e Nova Zelândia para, através de uma metodologia diferente – a randomização mendeliana- “avaliar se havia diferenças na associação entre o consumo de leite, o aumento da massa gorda e algumas características genéticas das pessoas”, explica. “Os estudos que não recorreram a este método diziam exatamente o contrário, ou seja, que este alimento estava associado a um menor IMC”, concretiza. Com esta abordagem, “anula-se alguma variabilidade que complica as associações”, acrescenta.

Défices de vitamina D 

O abandono do leite ou a preferência por versões magras estão associadas a uma menor ingestão de vitamina D. “Como é lipossolúvel, a não ingestão ou a escolha dessas opções, ajuda ao problema que é a deficiência da vitamina D”, refere Conceição Calhau. “E o mesmo se pode dizer de outras (vitaminas)”, acrescenta a especialista que também coordena a LT1 Medicina Preventiva & Desafios Societais, no CINTESIS, dando o exemplo das vitaminas A, E e K. “Mas a vitamina D é a que tem sido mais influenciada por estas nuances de consumo”, nota. Desta forma, recomenda o leito meio gordo ao magro, clarificando que é aplicável em termos «populacionais» e não individualmente.

Diminuição do risco de fraturas 

Em 2020, a Osteoporose International divulgou uma metanálise que se debruçou sobre estudos feitos na Escandinávia – nomeadamente na Suécia – e nos Estados Unidos da América. O consenso, que seria expectável, quanto ao mecanismo protetor do leite quanto ao risco de fraturas – por ser uma fonte de cálcio e conter também vitamina D -, não foi encontrado. “No primeiro caso, verificou-se que o consumo não se traduzia em proteção – ideia que vai completamente contra o sentimento que havia em relação ao cálcio”, afirma Nuno Borges. Em contrapartida, os estudos americanos mostram que este efeito protetor existe. “Os autores desta revisão acham que tem que ver com o facto de, nos Estados Unidos da América, haver maior quantidade de vitamina D presente no leite”, explica o nutricionista, notando a relevância que esta tem para a saúde óssea. “Podemos ingerir muito cálcio, mas se não houver vitamina D, não serve de nada, porque ele nem é bem absorvido, nem se deposita tão bem nos ossos”, esclarece. No entanto, sublinha que os efeitos são “relativamente modestos”.

Já Conceição Calhau, por seu lado, além de reforçar a importância destas duas substâncias, sublinha que “crianças e jovens a não consumirem lacticínios, se não forem orientados por profissionais de saúde, estarão a comprometer a massa óssea”. Até porque este é um tema que é maioritariamente abordado em idades mais avançadas e, no caso das mulheres, na menopausa. “Avaliar a densidade mineral óssea nesta fase pode querer dizer que teve uma osteopenia silenciosa e que chega a esta altura já em desvantagem”, alerta a nutricionista.

Défices nos níveis de iodo

Em investigações nas quais Conceição Calhau esteve envolvida, o maior ou menor consumo de leite em idade escolar era uma variável de elevado impacto nos níveis de iodo, responsável por “comprometer a função cognitiva”.

No Norte do país, foram avaliadas 2018 crianças com idades entre os 6 e os 12 anos e 32% tinha deficiência de iodo, associado a um menor consumo de leite. Por outro lado, dos 6 aos 10 anos, o cenário melhorava, com maior consumo de leite. Em idades mais jovens – os 5 e 6 anos – os níveis também se encontravam piores.

Esta não é uma situação circunscrita ao Norte, dado que, na capital, a questão também impera. «Em Lisboa, em cerca de 500 crianças de um agrupamento escolar, foi encontrada 60% de deficiência de iodo», diz. “Em Portugal, esta questão está longe de deixar de ser um problema e é urgente tomar medidas”, sublinha. “O abandono do leite por bebidas vegetais, já na escola, contribuirá para o problema e não para uma solução”, alerta.

Forma de conceção do leite pode ser prejudicial 

“Os alimentos de hoje não são quase nada iguais aos de há uns 20 ou 30 anos”, diz Conceição Calhau, em jeito de lançar uma reflexão, que requer prudência, quanto aos possíveis argumentos contra o consumo de leite, que, obviamente, se inclui na afirmação. “A sua química final pode ser inesperadamente muito diversa e, em alguns casos, muito pouco interessante para a saúde humana”, explica. Trata-se de um “fluído orgânico, cuja composição química – que é muito complexa –   está dependente de diversos contextos: das condições de produção, da exposição do animal a medicamentos, anabolizantes ou antibióticos, a pesticidas na ração, entre muitas outras razões, que também incluem a qualidade da embalagem do processamento ou de armazenamento do alimento”, exemplifica.

Há diversos fatores nesta relação que podem acabar por comprometer a qualidade do leite e os que envolvem diretamente o animal são frequentemente usados por aqueles que se dizem contra o consumo de leite. “Numa lógica construtiva e de orientação, devemos variar a alimentação também para ir variando aquilo que é tóxico e que possa estar presente (ainda que silenciosamente) nos alimentos; e consultar um profissional de saúde, sobretudo em caso de dúvidas e alterações do padrão alimentar, bem como na presença de sintomas ou doenças diagnosticadas”, nota.

Diminuição do risco de cancro colo-rectal

Investigadores espanhóis lançaram, em 2019, uma revisão da literatura e uma metanálise de estudos epidemiológicos, com o objetivo de examinar possíveis associações entre o consumo de vários produtos lácteos e a incidência de cancro colo-rectal. Em suma, “os estudos de coorte mostraram uma diminuição significativa do risco de cancro colo-rectal associado a um maior consumo de produtos lácteos”. Concluíram, de igual forma, que o consumo de leite magro pode ter efeito protetor em casos de cancro do cólon. Destes resultados, ressalvaram a necessidade de realizar trabalhos posteriores com amostras maiores, períodos de acompanhamento mais longos e ensaios clínicos

Em 2021, a Nature Communications, publicou um trabalho que reviu 860 metanálises com o intuito de avaliar a qualidade da evidência que associa a dieta a um risco de desenvolver cancro em 11 locais anatómicos diferentes. Destas, 221 diziam respeito ao cancro colo-rectal e continuam a associar o leite a um menor risco. Segundo esta publicação, «a redução está entre os 10 a 20%», nota Nuno Borges.

Este artigo foi originalmente publicado na edição de novembro da VIVER SAUDÁVEL, já disponível. Assine aqui a revista profissional da Farmácia.

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