A obesidade não é inevitável quando as políticas públicas funcionam

Por Maria João Gregório, diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde. 

 

Durante anos habituámo-nos a ouvir dizer que a obesidade continua a aumentar e que pouco parece travar essa tendência. Os números acumulam-se, os custos para os sistemas de saúde crescem e as consequências para a qualidade de vida das pessoas tornam-se cada vez mais evidentes. Perante esta realidade, instalou-se frequentemente a ideia de que estamos perante um fenómeno inevitável, difícil de travar e ainda mais difícil de inverter.

Mas a evidência científica mais recente traz uma mensagem diferente e encorajadora.

Um estudo recentemente publicado na Nature, que analisou a evolução do excesso de peso e da obesidade em 200 países e em 232 milhões de pessoas provenientes de mais de 4.000 estudos populacionais ao longo de várias décadas (1980-2024), mostra que nem todos os países seguem a mesma trajetória. Em alguns deles, a prevalência da obesidade parece estar a estabilizar e, em determinados grupos etários, começam mesmo a surgir sinais de inversão da tendência. Portugal encontra-se entre os países onde o crescimento observado nas últimas décadas parece estar a perder intensidade.

Estes resultados ainda não nos tranquilizam, já que a prevalência da obesidade continua muito elevada e representa um dos mais importantes desafios de saúde pública da atualidade. Mas significam algo igualmente relevante. As tendências populacionais podem mudar e a obesidade não é inevitável.

Perante estes dados, a questão central é perceber porque razão alguns países estão a conseguir estabilizar a prevalência da obesidade, enquanto noutros, os números continuam a aumentar.

Obesidade: será possível tratar sem mudar comportamentos?

A resposta parece estar cada vez mais ligada aos ambientes em que as pessoas vivem, trabalham, estudam e fazem as suas escolhas alimentares e às políticas públicas capazes de os melhorar.

Durante muito tempo, a prevenção da obesidade foi abordada sobretudo numa perspetiva centrada no indivíduo, baseada na informação e na responsabilização individual. Embora a literacia em saúde seja importante, sabemos hoje que as escolhas alimentares são fortemente influenciadas pelo contexto no qual essas escolhas acontecem. A disponibilidade dos alimentos, a publicidade, os preços e a composição nutricional dos produtos moldam diariamente os comportamentos alimentares.

É precisamente por isso que as políticas que visam modificar os ambientes alimentares têm vindo a ganhar relevância, já que ajudam a tornar a escolha saudável na escolha mais fácil.

Um exemplo particularmente interessante vem do Chile. Um estudo publicado este ano na revista “The Lancet avaliou o impacto da Lei Chilena de Rotulagem Alimentar e Publicidade, implementada em 2016. Esta legislação combinou três medidas estruturantes. A introdução de rotulagem frontal de advertência ou alerta nos alimentos, restrições à publicidade dirigida a crianças e ações de melhoria do ambiente alimentar escolar.

Os resultados são particularmente relevantes porque demonstram que este conjunto concertado de medidas foi capaz de reduzir o risco de excesso de peso e obesidade entre crianças em idade escolar.

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O estudo analisou dados nacionais de mais de 300 mil crianças entre os 4 e os 6 anos de idade, comparando dados antes e depois da implementação da primeira fase da lei. As crianças que estiveram expostas às medidas (durante um período de 18 meses) apresentaram um menor risco de excesso de peso ou obesidade quando comparadas com crianças da mesma idade antes da entrada em vigor da legislação. Entre as raparigas, observou-se uma redução de 2,9% no risco de excesso de peso (incluindo a obesidade), correspondendo a uma diminuição de 1,4 pontos percentuais face à fase prévia a implementação desta lei. Nos rapazes, a redução foi de 2,4%, equivalente a menos 1,2 pontos percentuais.

À primeira vista, estes resultados podem parecer modestos. No entanto, importa recordar que o estudo avaliou apenas os efeitos da primeira fase da implementação da lei, em 2016. As medidas foram posteriormente reforçadas em 2018 e 2019, tornando as regras progressivamente mais rigorosas e mais protetoras da saúde. Além disso, à escala populacional, reduções desta magnitude traduzem-se em milhares de crianças com menor probabilidade de desenvolver excesso de peso ou obesidade.

O caso chileno é particularmente relevante porque demonstra que o sucesso não depende de uma única medida isolada. Resulta da implementação consistente de um conjunto coerente de políticas públicas que atuam sobre diferentes determinantes dos comportamentos alimentares.

Portugal tem também razões para olhar para esta evidência com interesse. Nas últimas duas décadas foram implementadas diversas medidas destinadas a promover ambientes alimentares mais saudáveis, incluindo a melhoria da oferta alimentar em meio escolar, a reformulação de produtos alimentares, a taxação das bebidas açucaradas e as restrições à publicidade de alimentos dirigida a crianças.

Mais de metade dos portugueses adultos com excesso de peso ou obesidade

Embora seja difícil atribuir a evolução observada a uma medida específica, os dados sugerem que estes esforços poderão estar a contribuir para a estabilização de alguns indicadores relacionados com a obesidade.

E a evidência hoje é clara e mostra que a prevenção funciona. Funciona, em particular, quando é baseada na melhor evidência científica disponível, quando assenta em intervenções consistentes e sustentadas ao longo do tempo e quando deixa de depender exclusivamente da força de vontade individual para integrar mudanças nos ambientes que influenciam as nossas escolhas diárias.

Num contexto em que tantas vezes se enfatizam os problemas, vale a pena destacar as boas notícias. Os estudos mais recentes mostram que a obesidade não é um desfecho inevitável para as próximas gerações e existem exemplos concretos de países que estão a conseguir alterar o curso desta epidemia.

Hoje sabemos cada vez melhor o que funciona. E sabemos também que algumas medidas produzem resultados relativamente rápidos, como demonstrado pelas recentes WHO Quick Buys para a prevenção das doenças crónicas. O desafio já não é identificar as soluções, mas sim de assegurar a sua implementação e sustentabilidade ao longo do tempo.

 

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