Intervenção nutricional na Doença Renal Crónica: um pilar fundamental

Por Rita Lima, Nutricionista 3003N

A doença renal crónica (DRC) representa um importante desafio de saúde pública, com impacto significativo na qualidade e esperança média de vida, afetando, atualmente, milhões de pessoas em todo o mundo.

A nutrição assume um papel central em todas as fases da doença, não só num âmbito preventivo da sua progressão, mas também na prevenção/minimização de complicações, na melhoria do estado nutricional e na promoção da qualidade de vida.

Embora muitos doentes associem a alimentação na doença renal a uma extensa lista de restrições, a abordagem deverá ser sempre personalizada e ajustada a cada caso, assim como às comorbilidades associadas, ao tipo de tratamento que realiza e às preferências individuais.

Alimentação na DRC: quais as principais recomendações?

A intervenção nutricional deve ser integrada desde as fases iniciais da doença renal. A evidência demonstra que uma alimentação adequada pode contribuir para controlar fatores que aceleram a progressão da DRC, como a hipertensão arterial, a diabetes e a proteinúria, assim como para minimizar as consequências própria doença.

Contudo, e como referido anteriormente, não existe uma única “dieta para a doença renal”. As recomendações variam consoante o estadio da doença, a realização de tratamentos substitutivos da função, nomeadamente a diálise, o estado nutricional e os parâmetros laboratoriais de cada paciente.

  1. Proteína

A gestão da ingestão proteica continua a ser um dos aspetos mais relevantes da terapêutica nutricional.

Nas fases pré-diálise, uma ingestão mais reduzida de proteína (até 0.8g/kg de peso corporal por dia), quando devidamente planeada e acompanhada por um nutricionista, pode contribuir para diminuir a sobrecarga funcional dos rins e retardar a progressão da doença, preservando, na medida do possível, a massa muscular e um adequado estado nutricional do paciente.

Já nos pacientes submetidos a diálise, as necessidades alteram-se significativamente. As perdas de aminoácidos durante o tratamento e o aumento do catabolismo justificam uma maior ingestão proteica (normalmente a rondar 1,2g/kg peso corporal por dia), privilegiando fontes de elevado valor biológico, como carnes magras, peixe e ovos, mas também proteínas de origem vegetal, nomeadamente as leguminosas.

  1. Sódio

A redução da ingestão de sódio constitui uma recomendação transversal na DRC. O excesso deste mineral favorece a retenção de líquidos, dificulta o controlo da pressão arterial e potencia a progressão da doença renal.

Na prática, a intervenção vai além da eliminação do sal nos processos de confeção e tempero dos alimentos.

Implica educar o doente para reconhecer que o sal está presente em elevadas quantidades nos alimentos ultraprocessados, produtos de queijaria e charcutaria, refeições pré-preparadas, entre outros, mesmo quando estes não apresentam um sabor particularmente salgado.

A leitura da rotulagem nutricional assume, por isso, um papel determinante na educação alimentar dos pacientes.

  1. Potássio e fósforo

O fósforo e o potássio são dois dos minerais que requerem maior atenção na DRC. No entanto, a restrição dos mesmos deve basear-se na avaliação clínica e nos resultados laboratoriais de cada paciente, devendo ser ajustada caso a caso e de acordo com a evolução clínica individual.

Muitos alimentos ricos em potássio, como frutas, hortícolas e leguminosas, apresentam benefícios nutricionais relevantes pela sua riqueza em vitaminas, fibra, outros minerais e antioxidantes, e não devem ser excluídos da alimentação do paciente.

Quando existe necessidade de limitar o potássio, técnicas culinárias como a demolha e a dupla cozedura dos alimentos podem reduzir significativamente o teor deste mineral, permitindo maior diversidade alimentar.

Também no caso do fósforo, importa distinguir o fósforo naturalmente presente nos alimentos, nomeadamente nos ovos e laticínios, daquele que resulta da utilização de aditivos alimentares, cuja absorção intestinal é bastante superior.

Assim, privilegiar alimentos mais naturais e minimizar o consumo de produtos ultraprocessados constitui, frequentemente, uma estratégia eficaz para maior inclusão alimentar e menor restrição de alimentos essenciais ao organismo.

  1. Hidratação

As recomendações para a ingestão hídrica devem ser, igualmente, personalizadas.

Nas fases iniciais da doença renal, muitos doentes podem manter a sua hidratação habitual. Em situações mais avançadas, sobretudo quando existe diminuição importante da produção de urina ou quando o doente realiza diálise, poderá ser necessário controlar, de forma mais rigorosa, a ingestão de líquidos, de forma a evitar consequências negativas da sobrecarga hídrica.

Mais uma vez, a avaliação clínica individual é fundamental para definir uma recomendação ajustada a cada doente.

O desafio da adesão

Uma das maiores dificuldades na gestão da doença renal não reside apenas na definição das recomendações nutricionais, mas na sua implementação ao longo do tempo.

As múltiplas restrições alimentares, associadas frequentemente a outras doenças crónicas, podem comprometer a adesão terapêutica e aumentar o risco de desnutrição, particularmente nos idosos.

Neste contexto, a educação alimentar deve privilegiar objetivos realistas, adaptados ao contexto familiar, social e económico do doente. Estratégias excessivamente restritivas tendem a ser menos sustentáveis e podem comprometer tanto o estado nutricional como a qualidade de vida dos pacientes.

Em suma

Do ponto de vista alimentar, a gestão da doença renal exige uma abordagem verdadeiramente personalizada, a qual deve considerar parâmetros antropométricos, história alimentar, preferências alimentares, parâmetros analíticos, a toma de medicação, a presença de sintomas gastrointestinais e o contexto psicossocial do paciente.

A monitorização periódica é igualmente indispensável. A progressão da doença renal implica necessidades nutricionais dinâmicas, exigindo ajustes frequentes do plano alimentar.

Outro aspeto determinante consiste na adesão por parte do doente. Traduzir recomendações complexas em orientações práticas, compreensíveis e exequíveis, assim como a utilização de exemplos concretos, listas de substituições alimentares e estratégias culinárias facilita a implementação das mudanças necessárias.

A intervenção deve ainda desenvolver-se em estreita articulação com os nefrologistas e enfermeiros envolvidos no acompanhamento do doente, pois a abordagem multidisciplinar continua a demonstrar melhores resultados clínicos do que qualquer tipo de intervenção isolada.

 

Bibliografia:

  • Ikizler TA, Burrowes JD, Byham-Gray LD, et al. KDOQI Clinical Practice Guideline for Nutrition in CKD: 2020 Update. Am J Kidney Dis. 2020;76(3 Suppl 1):S1-S107.
  • Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO). KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2024