Zoomificação 667

Já passaram mais de seis meses desde a chegada da Covid-19 e, com uma aparente segunda vaga à porta, o “novo normal” entranha-se cada vez mais nas nossas rotinas. O álcool gel passou a fazer companhia à pasta de dentes no cabaz de compras habitual e as máscaras faciais entraram na lista de itens a não esquecer antes de sair de casa, juntamente com a carteira ou o telemóvel. Mas, de todas as novas rotinas impostas pelo permanente estado de distanciamento social em que vivemos, há uma que me começa a aborrecer mais que todas as outras: a videochamada. O “Zoom” entrou nas nossas vidas de uma forma que, receio, se torne difícil de erradicar. Se não, vejamos: discutir em equipa algum projeto de trabalho em curso? Marca-se uma reunião por “Zoom”. É preciso agendar teleconsultas? “Zoom”. Dar uma aula? “Zoom”. Ser orador num congresso ou conferência? “Zoom”, claro… De repente, quase tudo na nossa vida profissional passa por estar frente ao PC ou telemóvel, ligado em videochamada. E há vários problemas com isso.

Desde logo, a perda relacional que advém do contacto remoto. Por exemplo, dar uma aula online nunca será a mesma coisa que estar numa sala em frente aos alunos. Falar, cara a cara, com uma audiência permite-nos observar as suas expressões e entender como as pessoas estão a “receber” a aula. Esse feedback é valioso para adaptar o tom ou o ritmo da aula, assim como encorajar a interação espontânea, algo fundamental na consolidação das aprendizagens. É preciso uma ginástica mental enorme para tornar apelativa e relevante uma aula ou formação à distância, onde os alunos/formandos aparecem apenas como nomes numa lista ao canto do ecrã, desprovidos de cara e emoções. Do mesmo modo, também a teleconsulta tem as suas limitações. Apesar de se conseguir um registo mais individualista por comparação com as aulas online, continua a haver barreiras a uma comunicação fluída, como acontece na consulta presencial. Mais que não seja porque, tantas vezes, a qualidade da ligação não é a melhor e os cortes de som e imagem acabam por interromper de forma aborrecida a conversa entre nutricionista e utente.

Mas há outras questões que se levantam com o recurso contínuo à videochamada. Com o trabalho remoto a partir de casa, de um momento para o outro, todos os dias e horários são possíveis slots para encaixar reuniões e compromissos. É como se, por não haver deslocações para o local de trabalho, a nossa disponibilidade aumentasse automaticamente. Se antes dificilmente alguém marcava uma reunião para as 8h30 ou 18h00, agora é normal que o horário de trabalho se prolongue para momentos onde habitualmente já estaríamos fora do escritório, mais que não fosse, a terminar recatadamente tarefas pendentes ou a preparar as do dia seguinte. O que tem implicações noutra consideração importante: a separação dos espaços de lazer e trabalho, com implicações na própria privacidade de cada um. Nos últimos meses, vi os interlocutores das videochamadas em que participei nos mais diversos cenários: alguém na cozinha com membros da família em pijama a abrir os armários por trás; cães (ruidosamente) ciumentos da conversa do seu dono; um condutor dentro do seu carro, encostado à berma, com o som dos piscas ao longo de toda a reunião. E não é fácil distinguir as situações de facilitismo ou falta de etiqueta, daquelas em que o esforço e sacrifício para atender aos compromissos levam a que certas videochamadas ocorram nos cenários mais improváveis.

Por fim, há um último aspeto que me incomoda neste recurso permanente à videochamada: começamos a perder a solenidade de certos momentos. Recentemente, um orador perguntava-me se deveria pôr gravata para apresentar uma palestra num congresso online, tendo em conta que estaria a transmitir a partir do seu quarto? Em casa, frente a um PC e de preferência com um fundo neutro, todos os nossos compromissos (e uma boa parte da nossa socialização) se esbatem no mesmo registo. Seja a reunião de pais da escola dos nossos filhos ou a realização de teleconsultas, passando pelas aulas que lecionamos ou assistimos, tudo parece cada vez mais uniforme nesta “zoomificação” das nossas vidas… Se isto é o “novo normal”, precisamos das nossas “velhas” vidas de volta rapidamente.

Rodrigo Abreu
Nutricionista
Managing Partner na Rodrigo Abreu & Associados
Fundador do Atelier de Nutrição

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