VIH/SIDA: “A nutrição e a segurança alimentar são fundamentais” 828

A alimentação desempenha um papel importante no âmbito do VIH e da SIDA, na medida em que a desnutrição pode representar um risco acrescido de progressão da infeção para doença. No entanto, o acesso a cuidados nutricionais pode ser difícil, dado que, por exemplo, o número de nutricionistas no Serviço Nacional de Saúde (SNS) é reduzido. No mês em que se assinalou o Dia Mundial Contra a Sida (1 de dezembro), Maria Eugénia Saraiva, presidente da direção da Liga Portuguesa Contra a SIDA (LPCS), e Renata Vicente, nutricionista do Espaço Liga-te, fazem um balanço da situação no país.

VS – Qual o papel da nutrição no âmbito do VIH e da Sida?

Renata Vicente (RV) – Uma alimentação saudável e equilibrada é essencial para manter o sistema imunitário saudável e no caso das pessoas que vivem com o VIH (PVVIH) é fundamental para reduzir os efeitos secundários metabólicos associados ao tratamento antiretrovírico (TAR) – aumento de colesterol, triglicéridos, lipodistrofia, etc. – e manter o sistema imunitário saudável. Mas numa fase inicial da infeção por VIH, é também fundamental manter uma alimentação adequada visto que a desnutrição (uma consequência que se manifesta através da perda de peso não intencional e redução de massa magra) pode associar-se a um maior risco da progressão da infeção por VIH conduzindo à doença de SIDA.

VS – Quais as principais carências nutricionais desta população?

RV – Numa fase inicial de um diagnóstico tardio e na presença de uma possível diarreia severa, poderá ser necessária a reposição de eletrólitos. Se houver desnutrição, é habitual haver défice proteico, sendo necessário reforçar a alimentação em proteína. Para combater esta desnutrição é também importante aumentar a ingestão de hidratos de carbono de fácil digestão. Já durante o tratamento, altura em que a infeção e a carga viral tendem a estar já controladas, os défices nutricionais podem ocorrer como efeito secundário da TAR, sendo importante o reforço do cálcio e vitamina D (dado o risco de osteoporose) e vitamina B12, que tende a estar reduzida aquando da toma de certos fármacos antiretrovíricos.

VS – Quais têm sido as preocupações e as “bandeiras” da Liga Portuguesa Contra a Sida (LPCS) ao nível da nutrição das pessoas que vivem com VIH e Sida?

Maria Eugénia Saraiva (MES) – Para a LPCS, desde a sua fundação que todos os apoios que visem a qualidade de vida dos seus principais destinatários é de facto primordial. Neste sentido, a nutrição e a segurança alimentar são fundamentais para uma saúde melhor de quem vive com uma infeção/doença como o VIH, as hepatites, ou outra infeção sexualmente transmissível. Uma ingestão alimentar adequada e equilibrada é realmente essencial para manter o sistema imunitário saudável no caso das pessoas que vivem com o VIH e daí o mote da LPCS ser a “Alimentação é Tratamento”. Neste âmbito, disponibilizamos um acompanhamento próximo em consultas de nutrição para os utentes e familiares, a realização de grupos de educação alimentar e de interajuda (em modo online), bem como a realização mensal de workshops/webinares onde transmitimos o conhecimento necessário para a população preocupada de forma a reconhecerem a importância de aliar a alimentação ao tratamento e o impacto que a mesma terá na sua saúde.

VS – Como caracteriza o apoio nutricional disponibilizado pela PLCS?

MÊS – O apoio nutricional disponibilizado pela LPCS, através de consultas e workshops de nutrição e segurança alimentar, “Alimentação é Tratamento” é pioneiro e inovador à data. Estes apoios procuraram abranger não só as PVVIH, entre outras infeções, como também os seus familiares. Através de parcerias que se foram estabelecendo, com hospitais de referência, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), os centros de dia, juntas de freguesia e municípios, chegou-se a públicos diversificados, onde se incluem técnicos e profissionais de saúde.

VS – Olhando para o país, o acesso a cuidados nutricionais está acessível a toda a população com VIH ou SIDA?

MES – Existe, de momento, alguma dificuldade no acesso ao acompanhamento nutricional especializado nesta área, visto haver um número reduzido de nutricionistas no SNS e os que existem estão sobrecarregados em termos de agenda, com listas de espera para consulta. Daí ser importante a articulação entre estas entidades e a LPCS, que disponibiliza este serviço gratuitamente aos seus utentes, alguns encaminhados por hospitais.

Concomitantemente, consideramos que há ainda um desconhecimento por parte da população sobre os benefícios de uma alimentação adequada e personalizada, bem como da sua importância como parte do tratamento. É possível, mesmo com poucos recursos sociais económicos e financeiros, seguir um plano alimentar saudável e, por isso, a LPCS tem promovido idas acompanhadas aos (super)mercados, de forma a apoiar os utentes nas suas escolhas nutricionais.

VS – O que é que as pessoas com VIH e SIDA têm de fazer para conseguirem acompanhamento nutricional?

MES – No SNS, os médicos infeciologistas podem fazer a referenciação para as equipas de nutrição hospitalar, caso o hospital tenha nutricionistas afetos à consulta e/ou os próprios podem solicitar estas consultas ao médico de família. No entanto, e uma vez que complementamos o SNS, muitos dos médicos infeciologistas encaminham para a LPCS, quando não têm os recursos necessários. Na LPCS basta contactar a instituição, seja por telefone ou email, (apoionutricional@ligacontrasida.org), ou telemóvel (911500072) e marcar consulta.

VS – O que é preciso fazer (mais) para garantir o acesso aos cuidados e ao acompanhamento nutricional adequado destas pessoas?

RV – É essencial promover e educar para a saúde e investir na literacia nutricional, não só dos doentes, mas também dos profissionais de saúde e da população em geral, para se dar a devida relevância à alimentação como parte do tratamento. Numa fase inicial, aquando do diagnóstico, será fundamental ser o médico o primeiro a alertar a pessoa de que beneficiará de um acompanhamento nutricional e reencaminhar a mesma para um nutricionista.

VS – Qual seria o impacto na (não) evolução da doença se o acesso aos cuidados nutricionais fosse mais universal?

RV – Os cuidados nutricionais não substituem a medicação nem a adoção de boas práticas para prevenir a evolução da infeção. O que sabemos é que o diagnóstico precoce é fundamental para que o tratamento seja eficaz. Complementarmente, os cuidados nutricionais, se corretamente implementados numa fase inicial da infeção, ajudam a reduzir as complicações inerentes a esta infeção e comorbilidades associadas. Por outro lado, se o acesso aos cuidados nutricionais fosse mais facilitado a todas as pessoas que vivem com VIH, sem dúvida que aumentaria a sua qualidade de vida.

VS – Qual o impacto da pandemia no acesso aos cuidados nutricionais?

RV – A LPCS continuou a prestar os apoios, nomeadamente os nutricionais, sendo que, a pensar nos seus destinatários, existiram adaptações e reajustamentos, e nesse sentido foram disponibilizadas as teleconsultas, foram criados grupos de apoio “Nutriliga-te” e os workshops presenciais transformaram-se em webinares mensais. A adesão por parte dos utentes quer às teleconsultas quer aos webinares foi boa e também importante para a manutenção do seu estado de saúde, uma vez que a pandemia trouxe mais sedentarismo, excesso de peso e descuidos alimentares (fruto de sucessivos confinamentos), dificuldade de acesso alimentar, bem como stress social.

VS – Que papel os nutricionistas poderão ter no sentido de advogarem e difundirem a necessidade do acesso a cuidados nutricionais por parte das pessoas com VIH e SIDA?

RV – Sendo a LPCS uma instituição particular de solidariedade social (IPSS) sem fins lucrativos, de utilidade pública e uma associação de doentes e de defesa de utentes de saúde, a nossa missão visa dar voz aos utentes e cidadãos enquanto agentes ativos e responsáveis, detentores de direitos e deveres, numa lógica de mediação e diálogo num enquadramento institucional. Fazendo parte da equipa multidisciplinar, que faz viver a LPCS desde 1990, os nutricionistas têm igualmente um papel ativo na comunicação, nas ações de sensibilização que visam a promoção da educação e de comportamentos mais seguros e saudáveis nesta área, seja da população em geral, seja para outros profissionais de saúde que contactem regularmente com estes utentes, de forma a referenciá-los atempadamente para um acompanhamento nutricional. De igual modo, muitos dos utentes que acompanhamos e que nos chegam com uma questão relacionada com a nutrição são acompanhados por equipas interdisciplinares, nomeadamente apoio social, psicológico, jurídico.

VS – Projeto futuros da LPCS na área da nutrição. Têm alguns em carteira?

MES: A LPCS, que completou o seu 32º aniversário, no passado dia 24 de outubro, tem procurado apostar na literacia em saúde e na qualidade de vida dos seus utentes, neste contexto envolvemo-los nos projetos que desenvolvemos, indo de encontro às suas necessidades, através de questionários, reuniões de focus grupo. Neste contexto, pretendemos continuar a dar o apoio nutricional e personalizado aos utentes em consultas individuais ou em grupo, assim como os webinares, os workshops presenciais, as visitas aos (super)mercados (personal shopper), dar palestras em escolas/associações, e manter a articulação com o SNS, de forma a formar mais profissionais de saúde na área da nutrição e segurança alimentar para pessoas que vivem com o VIH porque Na SIDA Existe VIDA.

ADOTAR A DIETA MEDITERRÂNICA

Os principais erros nutricionais das pessoas com VIH são «o consumo excessivo de açúcar e de gorduras más (que pioram os níveis de colesterol, glicemia e aumentam o excesso de peso), refeições rápidas à base de snacks processados e baixa ingestão de frutas e vegetais», revela Renata Vicente, acrescentando que «é também habitual a baixa ingestão de água, algo que é fundamental».

Perante esta realidade, o tipo de dieta recomendada para a PVVIH «e outras infeções sexualmente transmissíveis é semelhante ao padrão alimentar da Dieta Mediterrânica, recomendado para a população em geral», refere a nutricionista.

Quanto às necessidades em nutrientes específicos, estas variam de acordo com a fase da doença. «Numa fase sintomática onde pode haver um estado nutricional muito debilitado com uma grande perda de peso, a proteína é muito importante para a recuperação da massa magra, como referido anteriormente». Porém, «os micronutrientes são também muito importantes em todas as fases, visto que é frequente esta população apresentar défices nos mesmos, o que pode comprometer ainda mais a sua função imunitária. Assim, antioxidantes como a vitamina A, E, C, selénio e zinco, combatem o stress oxidativo, melhoram a função imunitária, reduzem a incidência de infeções oportunistas e a progressão da doença. Vitaminas do complexo B, como a B1, B6 e B9 são também importantes para a função imunitária, e também a B12, cuja deficiência pode favorecer a progressão a doença. A vitamina D e o cálcio também são importantes para a densidade mineral óssea, que pode estar comprometida devido à TAR».

VIH: MAIS DE 64 MIL CASOS DESDE 1983

O relatório anual sobre a situação da infeção por vírus da imunodeficiência humana (VIH) e a síndrome de imunodeficiência adquirida (SIDA) em Portugal de 2022, elaborado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, em colaboração com o Programa Nacional para as Infeções Sexualmente Transmissíveis e Infeção pelo VIH da Direção-Geral da Saúde, revelou, em termo de dados acumulados, que desde 1983 até 31 de dezembro de 2021, foram identificados em Portugal 64 257 casos de infeção por VIH, dos quais 23 399 atingiram o estádio de SIDA, tendo ocorridos 15 555 óbitos. Considerando apenas o biénio 2020-2021, foram comunicados 298 óbitos em pessoas que viviam com VIH, sendo que em 24,5% dos óbitos, o tempo decorrido desde o diagnóstico foi superior a 20 anos.

(ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA VIVER SAUDÁVEL #79 – DEZEMBRO 2022)

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