Saúde do solo, qualidade dos alimentos e saúde global: estreitar laços entre produção primária e saúde para partilhar conhecimento e gerar novos dados

Por Luísa Oliveira, da Unidade de Observação e Vigilância do Departamento de Alimentação e Nutrição do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA).

 

De acordo com a FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura], os solos saudáveis são a base do desenvolvimento agrícola, da produção de alimentos saudáveis e nutritivos e de serviços de ecossistema essenciais, que são cruciais para a nossa sobrevivência básica, bem como para o futuro sustentável do nosso planeta, no entanto, a densidade nutricional de frutos e produtos hortícolas tem vindo a diminuir ao longo dos últimos 90 anos tendo sido observada uma redução de até 52% no teor dos minerais essenciais como o sódio, ferro, cobre e magnésio.

É urgente investigar as causas destas diminuições e tomar medidas para mitigar os impactos na malnutrição e saúde global. Além disso, a poluição do solo causada por agroquímicos, metais pesados e poluentes industriais pode contaminar as culturas alimentares e representar riscos significativos para a saúde das populações.

Compreender as conexões entre os sistemas de produção agrícola, a saúde do solo, a composição e contaminação de alimentos e a saúde numa perspetiva global, considerando o conceito “uma só saúde”, requer uma investigação que envolva variáveis cuidadosamente selecionadas e caracterizadas em relação à produção primária, ao solo, à nutrição e à saúde.

O congresso que reuniu uma profissão: 25 anos do CNA

Na 16.ª Reunião Anual PortFIR com o tema “Sistemas Alimentares, Solo, Composição dos Alimentos e Saúde”, realizada em outubro de 2024, foi proposta a criação de um grupo de trabalho que estreitasse laços de colaboração entre as áreas da produção primária e da saúde para partilhar conhecimento e aprofundar a investigação sobre a relação entre práticas agrícolas, saúde do solo e qualidade dos alimentos, em particular a sua densidade nutricional.

Em março de 2025 nasceu, no âmbito do PortFIR, o GTSCA – Grupo de Trabalho Solo e Composição de Alimentos, com o objetivo de promover a colaboração transdisciplinar para gerar conhecimento que permita estudar a relação entre práticas agrícolas, saúde do solo, composição nutricional e em fitoquímicos, e contaminação dos alimentos e o respetivo impacto na saúde global. No fundo, pretende-se produzir evidência científica que permita analisar dados e tirar conclusões a vários níveis, sobre a relação entre a saúde de uma forma mais global e em particular a humana, perceber de que forma a saúde do solo e as práticas agrícolas influenciam a composição dos alimentos e consequentemente estudar que impacto podem ter também na segurança alimentar e nutricional e na segurança dos alimentos. Para isso procuramos ligar pessoas de áreas de trabalho muito diversas, que possam conhecer-se, colaborar e contribuir para a compreensão desta cadeia ou teia de inter-relações.

O GTSCA é um grupo aberto e conta atualmente com mais de 70 membros de 40 organizações públicas e privadas, pertencentes às áreas de produção primária, investigação, solo, saúde, alimentação e nutrição, comunicação, tecnologias, regulação, definição de políticas alimentares e de gestão do solo. Realiza reuniões globais periódicas, cuja frequência é ajustada de acordo com as necessidades e funciona de forma orgânica através de processos iterativos e de subgrupos criados de acordo com necessidades identificadas pelos participantes. Além de um subgrupo genérico, Mapeamento dos membros e relações, que procura conhecer cada membro e identificar as relações já existentes e possibilidades futuras, existem de momento os subgrupos específicos, Revisão bibliográfica, Modelo de dados, Legislação, Questionários, Densidade nutricional, Candidaturas a financiamento e Certificação voluntária, em diferentes fases de desenvolvimento. A comunicação e a partilha de documentos é suportada por uma Equipa na plataforma Teams.

Insetos Comestíveis: O Futuro Sustentável da Alimentação Saudável?

A coordenação do GTSCA é da responsabilidade do INSA (Luísa Oliveira e Roberto Brazão) apoiada num Círculo de coordenação composto por representantes de cada subgrupo e inspirada no modelo sociocrático de governação.

Do trabalho realizado pelo GTSCA esperamos que resulte uma rede forte de partilha de conhecimento e interações entre áreas de trabalho e entidades que habitualmente não colaboravam, gerando uma valiosa inteligência coletiva e um vocabulário comum transdisciplinar. Está em desenvolvimento um modelo de dados robusto, transparente e reutilizável para suportar diversos estudos sobre a relação entre as práticas agrícolas a saúde do solo e a qualidade dos alimentos na produção primária, e que garanta uma recolha, validação, consulta, agregação e extração de dados simples e consistente.

A médio prazo pretendemos desenvolver: i) projetos de investigação colaborativa e transdisciplinar para produzir dados fiáveis e reprodutíveis que, alimentem o modelo de dados referido anteriormente, e documentem as práticas agrícolas e consequentes indicadores de saúde do solo (físicos, químicos e biológicos), e a densidade nutricional, os fitoquímicos e a contaminação dos alimentos produzidos; ii) conteúdos de comunicação, que transmitam o conhecimento produzido, promovendo literacia sobre os temas do grupo de trabalho e em particular sobre solo e a sua importância para a saúde global, dando-lhe destaque como elemento fundamental do Ambiente no conceito “uma só saúde”.

O convite à participação no GTSCA mantém-se aberto e a intenção de integrar o grupo de trabalho pode ser formalizada em https://portfir.insa.min-saude.pt/pt/participar-no-portfir-form/.

“A modulação da oferta alimentar representa uma estratégia relevante na promoção da saúde pública”

Todas as colaborações são bem-vindas e as disponibilidades de cada um são acolhidas e integradas. Vamos avançando com quem está disponível em cada momento, procurando que os membros do GTSCA sintam que a sua participação é uma valiosa contribuição para a inteligência coletiva que estamos a materializar.

 

Aceda a todos os artigos de opinião do Departamento de Alimentação e Nutrição do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge aqui.