
A nutrição encontrou nas redes sociais um novo palco de comunicação: mais imediato, mais visual e com um alcance sem precedentes. Hoje, muitos contactam com temas de alimentação no scroll diário, muitas vezes antes de recorrer a um profissional de saúde. Este fenómeno abriu portas à democratização da informação, mas também trouxe desafios relevantes, nomeadamente no que diz respeito à desinformação, à usurpação de funções, à emergência de «falsos nutricionistas» e à crescente dificuldade em distinguir conteúdo científico de opinião pessoal.
Como explica Tiago Durães, especialista em comunicação em saúde, “desinformação normalmente é o contexto em que as pessoas intencionalmente divulgam informações que sabem que são falsas, com algum intuito. Por outro lado, existem casos em que posso partilhar conteúdo que acho que é verdadeiro, mas que na verdade é falso, o que, no caso, configura misinformation. Ou seja, eu próprio também sou uma vítima e estou a partilhar”.
Compreender este novo ecossistema implica olhar para diferentes dimensões: a comunicação em saúde, a prática profissional e a ética. Neste contexto, o excesso de informação torna-se um dos principais desafios. “O grande problema, a meu ver, é a quantidade de informação que nós temos hoje disponível, porque nunca houve tanta informação. Agora, como é que selecionamos as fontes de informação?”, questiona o especialista.
É neste cenário que a presença de nutricionistas nas redes sociais assume particular importância, como defende Ana Bravo. A nutricionista e criadora de conteúdos descreve esta transformação como estrutural na profissão. “A presença digital deixou de ser complementar e passou a assumir-se como uma verdadeira ‘segunda profissão’, com exigências próprias e responsabilidade acrescida“, afirma.

O percurso da nutricionista começou numa fase em que a comunicação digital em nutrição era praticamente inexistente. “Fui pioneira na comunicação em nutrição nas redes sociais. Numa fase inicial, comecei por partilhar de forma simples o meu dia alimentar e por incentivar a prática de exercício físico, numa altura em que este tipo de exposição não existia. A criação destes conteúdos surgiu como resposta ao elevado número de mensagens privadas no meu perfil pessoal, permitindo reunir informação útil num espaço acessível a mais pessoas“, detalha.
O que começou como um complemento tornou-se, em muitos casos, parte integrante da prática clínica. Mas esta expansão trouxe também riscos claros. A facilidade de criação de conteúdo abriu espaço a intervenções não qualificadas, muitas vezes com grande alcance.
“Preocupa-me a facilidade com que hoje se fala de alimentação sem o devido conhecimento e com grande convicção. O problema não é apenas a sua existência, mas o impacto real que pode ter na relação das pessoas com a comida e, inevitavelmente, na sua saúde“, aponta a nutricionista.
Estas preocupações estendem-se ao plano institucional. A presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Nutricionistas (ON), Elsa Madureira, esclarece que o exercício ilegal da profissão está bem definido: “Refere-se ao uso indevido do termo nutricionista quando não há habilitação nem inscrição válida na Ordem“.
Já a divulgação de informação alimentar, por si só, não é exclusiva da profissão — o que torna o espaço digital particularmente difícil de regular. Esta zona cinzenta torna-se mais evidente quando se analisam os limites entre partilha pessoal e intervenção profissional. “A partilha de experiências pessoais não configura usurpação de funções do nutricionista. Tal situação poderá acontecer quando, para além da partilha, haja algum tipo de aconselhamento, incentivo, prescrição alimentar ou nutricional“, sublinha Elsa Madureira.

Este enquadramento é fundamental para distinguir conteúdos de estilo de vida de atos que configuram prática clínica.
Se nas redes sociais o problema já era evidente, a evolução das ferramentas de inteligência artificial veio acrescentar uma nova camada de complexidade. Como alerta Tiago Durães, “hoje em dia as pessoas já nem sequer vão às redes, começam a ir ao chatbot, ao ChatGPT, fazem uma pergunta sobre a dieta e ele dá uma resposta, mas muitas vezes não sabemos de onde vem essa informação. É aquilo que se chama o fenómeno da caixa negra“. Uma boa forma de confirmar a informação é questionar de volta: “se calhar um bom exercício é perguntar ao chatbot qual é a fonte dele para aquilo”.
A influência dos criadores de conteúdo é hoje inegável e molda, em muitos casos, a forma como o público percebe o conceito de alimentação saudável. Ana Bravo reconhece esse impacto: “São muitas vezes o primeiro ponto de contacto com temas de nutrição, o que lhes confere um papel relevante na construção de hábitos e crenças“. No entanto, alerta para os riscos de simplificação excessiva.
As consequências da desinformação alimentar vão além da confusão entre conceitos. Podem traduzir-se em alterações comportamentais e restrições desnecessárias. “A desinformação pode levar a medo de determinados alimentos e à adoção de práticas pouco adequadas ou até prejudiciais“, alerta Ana Bravo.
Também o funcionamento das próprias plataformas contribui para este cenário. Hoje, o consumo de informação deixou de ser linear e passou a ser mediado por sistemas automatizados. Como explica Tiago Durães, “os media tradicionais antigamente eram cronológicos. Hoje vemos uma sociedade algorítmica, ou seja, o algoritmo domina”.

Esta transformação ajuda também a explicar a forma como o público avalia a credibilidade da informação. “A maior parte das pessoas não está disponível para fazer uma operação à anca de uma pessoa que vê no YouTube, mas na nutrição, qualquer um fala de comida e as pessoas estão mais disponíveis para aceitar recomendações de uma pessoa que veem nas redes sociais“, exemplifica.
Do ponto de vista ético, a responsabilidade dos nutricionistas na comunicação digital é particularmente exigente. Elsa Madureira relembra que o Código Deontológico da ON estabelece que a atuação profissional deve ser sempre baseada na evidência científica mais atual e devidamente fundamentada.
Neste sentido, a comunicação dos nutricionistas deve obedecer a regras claras de rigor e responsabilidade. “As declarações públicas devem pautar-se pelo mais estrito respeito das regras deontológicas da profissão, observando o princípio do rigor e da independência, abstendo-se de fazer declarações falsas”, sublinha, acrescentando que os profissionais devem limitar-se à sua área de competência e evitar a exposição de casos individuais.
Ao contrário dos nutricionistas, os criadores de conteúdo não estão sujeitos às mesmas exigências éticas e científicas. Ainda assim, começam a surgir iniciativas de regulação e sensibilização. Neste contexto, a validação da informação torna-se essencial. Como reforça Tiago Durães, “tentaria sempre confirmar com fontes validadas. Pode ser a Direção-Geral da Saúde, a Organização Mundial de Saúde, porque aí sabemos que houve algum tipo de tratamento”.
Apesar dos desafios, o espaço digital representa também uma oportunidade relevante para a promoção da literacia alimentar. A proximidade com o público permite traduzir conhecimento científico em linguagem acessível, facilitando a compreensão de conceitos complexos. “Os nutricionistas têm um papel fundamental na construção de uma literacia alimentar mais consciente, prática e informada“, destaca Ana Bravo.
Perante este cenário, o objetivo não passa por rejeitar as redes sociais, mas por redefinir a forma como a nutrição se posiciona neste espaço. Num ambiente onde todos comunicam sobre alimentação, distinguir informação qualificada de opinião tornou-se um verdadeiro imperativo de saúde pública. “A desinformação alimentar cria ruído — e esse ruído afasta as pessoas do essencial: comer com equilíbrio, com confiança e com prazer“, remata.




