A obesidade está a abrandar em países da Europa Ocidental, incluindo Portugal, mas continua a aumentar de forma consistente em países de baixo rendimento, concluiu um estudo internacional com participação de investigadores da Universidade de Coimbra.
O estudo, publicado na revista científica Nature, faz uma análise a 200 países e territórios entre 1980 e 2024, recorrendo a mais de 4.000 estudos populacionais, com dados de mais de 232 milhões de participantes, para analisar a evolução da obesidade no mundo ao longo de mais de quatro décadas.
A investigação é liderada pelo NDC NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC) em parceria com a Imperial College London, do Reino Unido, tendo uma das “mais abrangentes bases de dados epidemiológicos alguma vez reunidas nesta área”, salientou a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em nota de imprensa enviada à agência Lusa.
Através do estudo notou-se uma “desaceleração histórica” da obesidade na Europa Ocidental, incluindo Portugal, apontando-se para sinais de estabilização e até de possível inversão em países de elevado rendimento, salientou a FCTUC.
De acordo com o artigo científico consultado pela Lusa, Portugal, Itália e França são dados como exemplos de países ocidentais em que se registou até uma quebra na obesidade infantil e juvenil desde os anos 2000.
“Os resultados mostram que, após um aumento rápido e sustentado da prevalência da obesidade ao longo das últimas décadas do século XX, observa-se um abrandamento claro desse crescimento na maioria dos países de elevado rendimento”, sublinhou a FCTUC, na sua nota de imprensa.
Apesar dos sinais encorajadores em países de rendimento elevado, o estudo alerta para um aumento contínuo e consistente da obesidade em países mais desfavorecidos, sobretudo em regiões de África, Ásia, América Latina, ilhas do Pacífico e Caraíbas.
Em declarações à Lusa, o coautor do estudo e investigador do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da FCTUC Aristides Machado-Rodrigues salientou que os resultados mostram que uma ideia de uma epidemia global de obesidade pode ser uma simplificação excessiva do problema, escondendo “trajetórias distintas de país para país e de região para região”.
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Notando que a obesidade “tem uma natureza multidimensional” e que a sua evolução está relacionada com diferentes aspetos e fatores, o investigador apontou, mesmo assim, para a sua relação com o rendimento disponível das famílias.
“Os alimentos mais nefastos, que são hipercalóricos, mais ricos em açúcar e gordura, têm custos mais baixos”, notou.
Sobre a evolução positiva em vários países ocidentais, o investigador salientou o trabalho das autoridades de saúde e de políticas públicas para promover comportamentos saudáveis, seja por via de uma alimentação mais equilibrada, seja pela promoção de atividade física e combate ao sedentarismo.
“Há uma combinação de fatores de natureza política e social que só se manifestam em períodos temporais maiores e que mostram uma estabilização em algumas sociedades”, explicou.
O também docente da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física realçou que o estudo, ao analisar a velocidade da evolução da obesidade ao longo de várias décadas, permite apontar para os contextos em que serão necessárias políticas públicas que possam acompanhar as mudanças em curso.
Segundo a FCTUC, o estudo internacional contou ainda com a participação de outros docentes e investigadores da Universidade de Coimbra, nomeadamente Cristina Padez, Daniela Rodrigues, Helena Nogueira, Luísa Macieira, Lélita Santos e Anabela Mota-Pinto.




